Faculdade Cásper Líbero
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Notícia publicada em: 13/09/04 Índice
Flávia Roberta Costa
Por Mariana Luz Salmeron e Isadora Amista Pedro
Estudantes do 2º ano de Turismo e Monitoras da Coordenadoria de Turismo
Flávia Roberta Costa

Bacharel em Destaque
Flávia Roberta Costa, nascida em São Paulo, em 1º de agosto de 1972 é bacharel em Turismo, desde 1994, pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Nessa mesma instituição defendeu, em 2001, seu Mestrado em Ciências da Comunicação, na área de Turismo. No Museu de Arte Contemporânea da USP obteve, em 1996, o título de especialista em Museologia.

Expectativas e dúvidas existentes antes e durante o curso de graduação:
Não tive dúvidas antes de iniciar como, por exemplo, quanto à escolha do curso ou quanto aos caminhos a seguir após seu término e,  nem durante o curso. Havia, sim, a consciência, razoavelmente coletiva em minha turma de mais ou menos 15 alunos, de que alguns aspectos do curso precisavam receber mais atenção como, por exemplo, a obsolescência de alguns conteúdos programáticos de algumas disciplinas, a ausência de professores para outras delas e a inexistência de um laboratório para a prática do corpo discente, além da expectativa de que poderíamos, todos e cada um de nós, contribuir para a melhoria do curso e de nossa própria formação. Foi por isso que me engajei como representante discente do curso de Turismo junto à Coordenação de Curso (a CoC-Tur) e que, juntamente com outros colegas, batalhamos para a criação da Diretoria de Turismo da Empresa Júnior da ECA (ECA Jr). Hoje acredito que um dos aspectos mais positivos de minha graduação foi o engajamento deste grupo de alunos e a certeza de que a nossa participação era fundamental para conseguirmos a melhoria de nossa formação.

Oportunidades de trabalho durante o curso:
Durante o curso, procurei mais oportunidades de estágio que de trabalho, por que sempre acreditei na necessidade de investir, primeiramente, em minha formação. Grande parte destes estágios não era remunerado ou a ajuda de custo recebida era baixa. Nesse aspecto, há que se atentar para um erro que nós mesmos, os solicitantes dos estágios, cometemos: estágio não é trabalho e existe uma legislação federal que regulamenta esta atividade. O contrato de estágio deve priorizar, antes de qualquer outra coisa, a formação desse futuro profissional.

O estagiário está lá para aprender e não para servir como mão-de-obra barata. Como havia a necessidade de ter algum rendimento para sustentar minha própria sobrevivência como estudante, também dei aulas em cursos técnicos e livres de turismo.

O trabalho na empresa júnior foi o mais prazeroso e o de maior possibilidade de aprendizado e prática do turismo e do empreendedorismo. Como toda a empresa júnior, a ECA Jr. é constituída e gerida exclusivamente por alunos de graduação dos diversos cursos da ECA e sob a supervisão de seu corpo docente e nos possibilitava (como ainda hoje acontece) a oportunidade de aplicar e aprimorar os conhecimentos teóricos adquiridos durante o curso.

Outros cursos:
Desde que ingressei na faculdade, fiz (e continuo fazendo!) diversos cursos e participando de eventos acadêmicos / científicos que, em maior ou menor grau, auxiliaram minha formação. No meu caso, busco complementar a fundamental participação em cursos, seminários e congressos específicos da área de turismo como, por exemplo, o Congresso Brasileiro de Turismo - CBTUR, anteriormente denominado Encontro Nacional de Bacharéis e Estudantes de Turismo, o “famoso” ENBETUR, oportunidade de aquisição de conhecimentos inclusive por meio de um saudável intercâmbio entre profissionais e estudantes de diversas partes do País, participando de eventos com focos complementares.

Os cursos de línguas (fiz inglês e espanhol) também são fundamentais, não somente para o crescimento pessoal que o contato com outros contextos culturais me proporcionou, mas também por que ampliaram a possibilidade de contato com outras experiências profissionais – mesmo com a expansão do mercado editorial sobre turismo, a grande maioria das grandes obras de autores fundamentais para nossa área (para ficar somente nela) e de outras que trazem inovações para a teoria e para o saber-fazer turístico ainda estão em outras línguas.

Devo ressaltar que a possibilidade (necessidade) oferecida pela Universidade de São Paulo para que seus alunos cursem disciplinas de outros cursos da mesma área de formação (no nosso caso, a área de Comunicação) e de outras áreas que julgássemos complementares para a nossa formação e para um encaminhamento maior de uma "especialização" na área que mais nos agradasse foi fundamental para a minha formação geral e profissional.

Disciplinas como Sociologia e Antropologia da Comunicação, História da Cultura e da Comunicação, Estética e História da Arte, História da Arquitetura Brasileira, Arqueologia Brasileira, Museologia e muitas outras que cursei em outras faculdades e escolas uspianas (como a FAU, a FFLCH, a FEA e a própria ECA) foram fundamentais para o delineamento deste caminho menos genérico do Turismo que selecionei, pautando meus estudos no trinômio turismo – patrimônio cultural – educação (e que percorre inúmeros outros caminhos ainda mais específicos), como para minha própria formação cultural e humanística. Também não há como deixar de ressaltar os benefícios que uma boa formação generalista pôde me proporcionar e que facilitaram o meu engajamento em uma outra área da atividade turística – o turismo social.

Início da vida profissional:
Comecei minha vida profissional dando aulas em cursos técnicos, livres e, depois de um certo amadurecimento profissional, em cursos de graduação e especialização (lato sensu) na área de turismo. A melhor coisa de trabalhar em ensino formal é, muito mais que a necessidade de ensinar, a possibilidade de aprender – tanto na necessária preparação dos conteúdos a serem desenvolvidos, o que envolve uma dedicação e pesquisa constante sobre o tema que se vai abordar, quanto pelo contato com os alunos e com outros professores. Também trabalhei, em consultorias, com planejamento de destinações turísticas. Foi um início difícil do ponto de vista da estabilidade profissional e financeira, mas recompensador em termos de aprendizado.

Atuação atual no mercado de trabalho:
Desde 1997, trabalho no Serviço Social do Comércio – SESC São Paulo. Primeiramente, trabalhei no centro especializado em turismo social do SESC SP, o SESC Paraíso, como um dos animadores culturais responsáveis pela programação de atividades turísticas sociais emissivas (excursões com pernoites e passeios de um dia) oferecidas à clientela. Desde 2000, trabalho como assistente técnica na Administração Central do SESC SP, mais especificamente na Gerência de Programas Sócio-Educativos, desenvolvendo a função de coordenadora do Programa de Turismo Social do SESC em todo o estado de São Paulo – onde ações em turismo social emissivo e atividades complementares (atividades inspiradas no mundo das viagens e do turismo, mas que não envolvem, necessariamente, deslocamentos espaciais – cursos, oficinas, palestras, contação de histórias, navegação orientada na Internet, ciclos de filmes etc. etc.etc. -, voltadas para especialistas e leigos de todas as faixas etárias) são desenvolvidas em 17 centros culturais e esportivos localizados no interior, na Capital e no litoral e o SESC Bertioga atua como centro de hospedagem.

Satisfação com o emprego atual:
Gosto muito de trabalhar no SESC São Paulo, uma instituição sem fins lucrativos cuja missão é auxiliar as pessoas na melhoria de sua qualidade de vida e de seu desenvolvimento cultural. Para isso, são desenvolvidas ações em diversas e distintas áreas, como artes visuais, inclusão digital, expressão corporal, segurança alimentar, educação ambiental, trabalho social com idosos ou turismo social. Essa ampla gama de possibilidades de atuação permite que seus técnicos possam interagir com várias áreas do conhecimento e transitar em nichos específicos de trabalho que não seriam possíveis em outras instituições ou empresas como, por exemplo, a experimentação de técnicas interpretativas inovadoras - como o RPG ou a contação de histórias - para a mediação da experiência vivenciada pelos turistas nos locais que visitamos. Ainda neste sentido, pensamos as atividades de turismo social como instrumentos auxiliares no alcance dessa missão, voltando-nos para questões como a democratização do acesso à atividade turística, o protagonismo dos participantes nas atividades desenvolvidas, a educação para o turismo e a educação pelo turismo.

As atividades são executadas como vivências turísticas, com todas as implicações que esta alteração de expressões denominadoras pode significar, como laboratórios onde as pessoas aprendem a viajar de forma mais consciente e mais responsável e a aplicar esse aprendizado em seu dia-a-dia. Como pregava Krippendorf, ninguém deixa de ser exatamente quem é quando viaja. Em outros termos, acredito que não existem turistas mal-educados (como cansamos de ouvir falar), mas pessoas mal-educadas. O contrário é também verdadeiro. Trabalhar no SESC SP reafirmou minha certeza de que o turismo não precisa ser somente um encher de ônibus e um enfileirar de cifrões, mas que pode ser um elemento transformador do cotidiano.

A influência do Bacharelado em Turismo nas oportunidades de trabalho:
Ter o diploma de bacharel em turismo foi fundamental em alguns momentos de minha vida profissional, principalmente naqueles ligados ao ensino formal e, obviamente, à continuidade de minha formação acadêmica na pós-graduação. Entretanto, acho que mais que o bacharelado em turismo em si, foi minha formação humanista que me possibilitou o trânsito em áreas profissionais bastante variadas. É fundamental lembrar que milhares de bacharéis formam-se todos os anos em Turismo, mas que a formação, como acontece em geral também em outras áreas, é muito pobre. O profissional que se destaca cada vez mais é aquele que sabe aliar uma boa formação profissional em turismo com sólidos conhecimentos culturais.

Avaliação sobre o mercado atual, enfatizando concorrência, salário e oportunidades:
Aos poucos, o bacharel em turismo tem aberto cada vez mais e mais sólidos caminhos no mercado de trabalho. A concorrência, entretanto, é monstruosa, os salários, principalmente os iniciais, são baixos e as oportunidades interessantes. Ao meu ver, são exceção num mercado onde o bacharel é confundido com agente de viagem, sem nenhum demérito deste ou daquele profissional. Mais que a luta somente pela regulamentação da profissão de turismólogo, devemos lutar pelo alcance da excelência na qualificação dos profissionais de turismo, exigindo uma melhor formação de nossos quadros acadêmicos (discentes e - por que não? - docentes) e a constante qualificação e atualização dos profissionais que atuam no mercado.

Segmentos novos do Turismo no mercado de trabalho:
Coincidentemente, tenho observado grande crescimento nos dois segmentos onde atuo profissionalmente: o turismo como instrumento de educação informal e o turismo para todos. No primeiro caso, não falo em turismo voltado para grupos de escolares, mas na utilização das vivências turísticas como possibilidade de enriquecimento pessoal e coletivo, por meio da aquisição e da troca de conhecimentos com o Outro. E, cada vez mais, é possível encontrar experiências nesse sentido. No caso do turismo social e do turismo para todos - pode ser surpreendente para quem imagina uma área bancada por subsídios públicos ou para quem estes são sinônimos de “turismo para pobres” -, mas cada vez mais surgem organizações não governamentais, fundações, instituições e empresas privadas voltadas para o trabalho de democratização do acesso ao turismo a todos aqueles que estão à margem do movimento do turismo – indivíduos com renda mensal insuficiente para o investimento em viagens, pessoas portadoras de necessidades especiais, deficientes culturais, minorias e grupos sociais específicos, indivíduos adictos em trabalho de reinserção social e dezenas, talvez centenas, de outras possíveis “classificações”. Este é o público do turismo para todos.

O que dizer ao Bacharel em Turismo que se forma hoje:
Não poderia deixar de dar três dicas aos bacharéis em turismo que se formam hoje e, acredito, a todos os que ainda se formarão. A primeira: estudem sempre com humildade, acreditando piamente que ninguém sabe tudo, mas que somos sempre tutores uns dos outros. A segunda? Leiam, leiam, leiam, leiam muito. Seja ode, seja hino, seja tragédia, comédia ou farsa, ficção ou não-ficção, de conteúdo profissional ou lírico, jornal, livro raro, bula ou e-book, leiam muito. Inclusive, leiam sobre a importância do ato de ler. E, finalmente, sigam o conselho do pintor Henri Matisse: é preciso ver o mundo com os olhos de uma criança, manter o foco na Beleza das coisas e acreditar na descoberta como possibilidade contínua e no novo como desafio.




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