Faculdade Cásper Líbero
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Manual do Estagiário 
O "Manual do Estagiário de Propaganda" foi escrito em 1997 pelo publicitário Eugênio Mohallem, 39, quando ele ainda dirigia o departamento de criação da Almap com Marcelo Serpa. Lá ele dá dicas de como evitar erros na hora de procurar uma vaga de estágio.

Atualmente, Mohallen é sócio e diretor de criação da Fallon PMA, agência que nasceu em maio de 2002, como resultado da sociedade entre os brasileiros Roberta di Pace, Eugênio Mohallem e Marcelo Aragão e a rede norte-americana Fallon Worldwide. Confira abaixo a entrevista que ele deu ao site sobre início de carreira, importância da faculdade na formação do aluno e sobre o mundo publicitário.
 MANUAL
1) -
Qual é sua formação?
Sou formado em Publicidade e Propaganda pela USP, desde 86.
2) -
Você acha que faculdade é importante ou o que vale mesmo é a prática?
No meu caso, por exemplo, acho que a faculdade foi importante, sim. Eu vim de Minas Gerais e não tinha nenhum parente trabalhando em agência de Publicidade. Cheguei sem nenhum contato, sem saber direito como funcionavam as coisas, quais agências eram boas e quem eram os bons profissionais. Por incrível que pareça, os primeiros anos do curso de Publicidade foram os mais importantes, por causa da formação humanista genérica que se consegue logo no "comecinho" do curso - com matérias como antropologia, sociologia e psicologia - do que propriamente a parte mais técnica. O ser humano é matéria-prima para o publicitário, é preciso aprender um pouquinho sobre as pessoas, como elas pensam. Isso te ajuda a lidar melhor com elas, saber melhor com quem você está falando ou a quem está se dirigindo. Já a parte especializada, é bom estar perto de profissionais competentes, independentemente de ser um estágio ou trabalho mesmo.
3) -
Você fez estágio?
Não. Na verdade eu nunca tentei estágio, nem sabia que tinha. Quando saí da faculdade já tinha criado algumas coisas e era isso que eu mostrava para o pessoal na hora de procurar emprego.
4) -
Qual foi seu primeiro emprego?
Comecei a trabalhar numa empresa de Outdoor, lá em Taboão da Serra, ainda quando estudava na USP.
5) -
E depois?
De lá eu fui para a Editora Abril, depois para a Lintas, hoje Lowe. Quando saí fui para DM9, depois Talent e Almap. Todas na área de criação.
6) -
Você que sempre trabalhou na área de criação, acha que para o estagiário, essa é uma boa porta de entrada?
Criação é o lugar mais concorrido, isso porque quando se pensa nessa profissão já vem logo à cabeça gente criando e tendo idéias. É o que está mais próximo do conhecimento do leigo. Apesar disso, quem está começando tem a chance de chegar, mostrar algumas coisas que fez e dar uma amostra do seu talento. Agora, os outros departamentos, eu acho até mais complicado de conseguir estágio. Como é que você, por exemplo, mostra que tem talento para Atendimento? Essa escolha vai depender mesmo da "química" entre você e o entrevistador.
7) -
Por que você resolveu fazer um Manual de Estagiário de Propaganda?
Eu nunca fui estagiário, mas entrevistei muitos. Trabalhei em agências legais das quais muita gente queria fazer parte. Recebi gente que estava começando e tentando conseguir estágio do jeito errado.
8) -
O que é o jeito errado?
As pessoas tentam aplicar na Propaganda as mesmas regras para se conseguir um emprego em qualquer outra área. Eles acham que fazer currículo resolve. Então tem lá "sou formado em tal, falo tal idioma, sei mexer em tais programas". Uma das primeiras coisas que eu falo no "Manual" é que currículo vai para o lixo. O que te dá chances em Propaganda é materializar, de alguma maneira, o talento que você diz ter. Deve-se fazer trabalhos, o que for, para dar condições das pessoas te avaliarem, acreditarem em você e te darem uma chance.
9) -
Vocês têm programa estágio na Agência?
Nós tínhamos. Só que gostamos tanto dos estagiários que pegamos, que contratamos todos. Então, não há lugar para novas pessoas no momento.
10) -
E hoje são quantos funcionários na Fallon?
São 30 funcionários, sendo um terço deles na Criação.
11) -
Voltando ao manual, como foi o processo de elaboração? Você foi reunindo problemas que detectou ao longo dos anos?
Na verdade, foi tudo muito despretensioso. Em 97, a Almap estava lançando um site da agência. O diretor de arte José Carlos Lollo colocou um texto lá com dicas de direção de arte para iniciantes. Quando escreviam para ele cobrando um texto equivalente na área de redação, ele respondia, de brincadeira: "aguardem o manual do Mohallem". O pessoal achou que era pra valer e começou a mandar vários e-mails cobrando da agência o tal manual do Mohallem. Foi aí que o René, o então webmaster da agência, perguntou se eu não queria escrever alguma coisa para atender às solicitações. E escrevi tudo em dois dias, foi para o site, e se manteve como a página mais visitada da agência por muito tempo.
12) -
O Manual chegou a ser publicado?
O CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola) me pediu para publicar em livro. Hoje a edição está esgotada, mas o conteúdo integral da publicação pode ser acessado no site do Clube de Criação de São Paulo. (www.ccsp.com.br).
13) -
Ler o manual é garantia de estágio?
Não. O manual é mais um "guiazinho" de etiqueta para você não fazer o errado. Lá, eu ensino muito do que você não deve fazer e mostro o ponto de vista do empregador.
14) -
Para você, o que é preciso ter para se dar bem na profissão? Se você pudesse dar uma "receita de bolo" qual seria?
O que é propaganda? É tentar disfarçar uma coisa muito chata que é o processo de venda. Tanto que estereótipo disso é aquele vendedor de enciclopédia, que bate na porta e você não quer atender. Propaganda é dar uma disfarçada nisso, é um processo de sedução. Você tem que dizer alguma coisa de maneira interessante, de um jeito novo, fora do lugar-comum. Quanto mais referência tiver de tudo - livro, cinema, música, etc - você terá mais condição e instrumentos para isso. Uma coisa que acho fundamental é observar o ser humano e a você mesmo.
15) -
Tem algum exemplo concreto disso?
Eu acabo observando mais a mim mesmo e vendo o que tem de universal nisso para usar. Tem um anúncio meu, de alguns anos atrás, da Companhia Marítima, sobre maiôs. Esse anúncio mostra um mulherão de biquini na areia e o título é "É por isso que homem acompanhado usa óculos escuros na praia". Eu já tinha notado que quando você está na praia acompanhado e dá uma olhadinha para o lado, fica complicado, e que neste caso, óculos bem escuros são úteis. (conta dando risada). Apostei que essa "questão" pessoal era universal e transformei em anúncio.
16) -
Para finalizar, a publicidade brasileira é admirada em todo mundo, mas é exportada proporcionalmente a essa admiração?
Para ser exportada, a propaganda tem que atender uma série de pré-requisitos. Além da qualidade da idéia e da produção, é preciso ter uma mensagem suficientemente universal. Ou seja, usar códigos que possam ser compreendidos em outros países. Nesse aspecto, a propaganda de língua inglesa leva vantagem. Como a cultura norte-americana é dominante e difundida mundialmente via Hollywood, mesmo quando eles fazem uma piada muito local na propaganda deles, todo mundo entende - e ela pode ser exportada. Isso não acontece com o Brasil. Se a propaganda criada aqui se apoiar em aspectos muito locais ou idiomáticos, não dá para ser utilizada lá fora. Ninguém vai entender uma piada sobre a mania de grandeza da cidade de Itu. Já a mania de grandeza do Texano é mundialmente conhecida, por conta da hegemonia cultural americana. Fazer o quê?
17) -
Existe algum caso recente desse tipo na Fallon?
A Fallon PMA, mesmo com poucos meses de operação, já emplacou um comercial "tipo exportação". A United Airlines está há dez anos no Brasil, mas eram raros os comerciais produzidos aqui. Em geral eles importavam, traduziam e veiculavam peças criadas nos Estados Unidos. Quando passamos a atender a conta, propusemos um comercial "made in Brazil". Era aquele que mostrava vários pássaros dormindo em posição desconfortável e que concluía: "Nem todo mundo que voa precisa dormir em posição desconfortável". Voe United. Eles não só toparam como ainda veicularam o filme em outros países. Por conta disso, hoje somos também responsáveis pela comunicação da United em toda a América Latina.

* PMA vem das iniciais dos sobrenomes dos sócios: Roberta di Pace, Eugênio Mohallen e Marcelo Aragão.

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