|
MANUAL DO ESTAGIÁRIO
Por
Eugênio
Mohallem
INTRODUÇÃO
Faço questão de ver pastas. Porque também
já fui iniciante e um dia alguém teve saco
para ver a minha. Tenho essa dívida com a profissão.
Mas nesses anos todos já entrevistei todo tipo de
maluco, de megalomaníaco, de desavisado, e posso
garantir uma coisa: não é mole.
Alguns candidatos se mostram tão perdidos quanto
o tempo que a gente dedica a eles.
Só que de vez em quando aparece um talento real que
faz o todo o esforço valer a pena.
E foi assim, analisando centenas de portfolios, em horários
que muitos workaholics já estão de pijaminha,
que percebi como os candidatos a estágio cometem
erros bobos e desnecessários.
Não é culpa deles. Publicidade é uma
profissão diferente, que não se encaixa nas
regras comuns do "como começar". Tem seus
próprios macetes.
Este Manual do Estagiário foi feito para ajudar quem
está iniciando nessa área tão competitiva.
É também, confesso, uma tentativa de melhorar
os meus finais de expediente.
O Manual do Estagiário não tem a pretensão
de ser um curso de redação, direção
de arte ou coisa parecida. É apenas um pequeno guia
de etiqueta. Como se comportar à mesa - principalmente
à mesa do Diretor de Criação.
Não tentei esgotar o assunto. Foi o que deu para
escrever entre uma campanha e outra. Se você tiver
dúvidas, críticas ou sugestões, mande
seu e-mail para mim.
São apenas opiniões. Por favor, não
acredite cegamente. Não leve ao pé da letra.
Não transforme em dogmas. Existe a real possibilidade
de que eu esteja enganado. Eu nunca fiz estágio.
MANUAL DO ESTAGIÁRIO (Ou, para ficar na
moda, "A Inteligência Emocional do Estagiário
de Propaganda.")
Conseguir estágio em agência é quase
tão difícil quanto arrumar vaga de astronauta
na Nasa. E a vida dos astronautas é mais fácil,
porque o Universo é infinito, enquanto as boas agências
são pouquíssimas.
Portanto não bobeie e muita atenção
ao Primeiro e Fundamental Mandamento do Candidato a Estagiário.
PRIMEIRO E FUNDAMENTAL MANDAMENTO DO CANDIDATO A ESTAGIÁRIO:
Não seja mala. A menos que você queira um estágio
na Samsonite.
Propaganda é um mundinho pequeno, uma área
onde todos se conhecem. Se o rótulo de "mala"
grudar em você e se espalhar, você estará
acabado antes de começar.
JÁ PREPAREI MEU CURRÍCULUM
VITAE. E AGORA?
Agora você joga o currículo fora. Lembre-se
que uma árvore precisou morrer a golpes de machado
antes de desperdiçar uma valiosa folha de celulose
com currículos. Não servem para absolutamente
nada. Aliás, fico me perguntando por que alguém
acha que se dizer "experiência em Cobol e dBase"
vai adiantar alguma coisa.
Alguns são mais espertos e se tocam que currículos
normais são inúteis, mas resolvem o problema
do jeito errado: tentam fazer "currículos criativos".
Mandam o currículo dentro de latas, escritos em papiros,
através de telegramas falados etc, etc, e etc. Não
funciona. Simplesmente porque nada disso prova que você
é capaz de fazer um bom anúncio ou filme.
Eu me lembro de alguém que diagramou o currículo
como se fosse um rótulo de bebida, colou numa garrafa
de vinho e mandou para um Diretor de Criação.
Eu trabalhava para ele e perguntei: que tal o currículo?
Ao que ele respondeu: "nacional".
O que resolve é portfolio com anúncio bom.
Crie uns 5 anúncios maravilhosos, coloque num portfolio
e pronto, a vaga é sua. Se não houver vaga,
não tem problema: a qualidade do seu trabalho vai
criar a vaga na hora. Simples, não? Simples nada.
PREPARANDO O PORTFOLIO
Idéia boa é idéia boa em qualquer lugar,
mas uma apresentação razoável sempre
ajuda. Se quiser, você pode comprar um portfolio profissional
no Omar Olguin, que é o mais conhecido. O telefone
do Omar é (0xx11) 3865-3221 ou Fone/Fax.: 3862-7147
(não estou ganhando nada pelo merchandising. Se você
souber de outros bons fabricantes, escreva-me que incluirei
aqui).
Coloque na pasta somente peças onde a sua participação
foi importante, decisiva ou majoritária. Se você
só fez o texto e o título é de outro
redator, avise antes que perguntem.
O portfolio deve ser a última trincheira da moralidade.
Uma pequena picaretagem aqui e você está queimado.
E pode acreditar: mais cedo ou mais tarde (geralmente mais
cedo) tudo se descobre. Como eu já disse, propaganda
é um mundinho.
Cuidado com a pasta folclórica. Toda pasta de estagiário
tem alguma campanha para camisinha. É compreensível,
já que este é um tema legal e tem um briefing
conhecido. Mas já está manjado. Além
do mais, este tipo de campanha é uma exceção
no dia-a-dia da agência, que é feito de sabonetes,
sabões em pó e pastilhas para freio. Pega
bem criar anúncios para produtos reais e não
apenas para boas causas. Lembre-se que agências precisam
dar lucro. E eu presumo que você não aceite
ser pago em camisinhas (ainda que você aceite, não
vai ter muito tempo para usá-las).
Você já ganhou um prêmio? Ótimo,
parabéns, mas não precisa colocar o diplominha
na pasta. É forçada de barra, do tipo "Eu
ganhei prêmio com este anúncio, você
vai ter coragem de não achá-lo genial?"
O profissional que vê pastas em geral já tem
um critério desenvolvido e sabe avaliar as peças
independentemente de sua performance em premiações.
Se ele tiver critério, o tal diploma é desnecessário.
Se não tiver, para quê você quer estagiar
com ele?
A IMPORTÂNCIA DO PRIMEIRO ANÚNCIO.
O primeiro anúncio da pasta é o que rotula
e classifica você. É a famosa primeira impressão.
Se o primeiro anúncio for bom, os que se seguirem
vão apenas ter que reforçar isto. Se for ruim,
caberá aos outros a hercúlea tarefa de reverter
uma má impressão inicial. Viu a responsa?
Viu a diferença? Carinho com o primeiro anúncio.
Idealmente, o primeiro anúncio deve produzir a seguinte
sensação em quem vê a pasta: "Epa!
Aqui tem coisa. Deixa eu ver se tem mais". Peça
opinião de colegas, promova uma votação
secreta na sua casa, pergunte ao zelador do prédio,
mas não erre no primeiro anúncio.
A ORDEM DOS FATORES ALTERA A PROPOSTA.
Minha sugestão de como montar um portfolio que impressiona
é o seguinte:
Comece dispondo os seus anúncios numa fila crescente
de qualidade.
Primeiro o meia-boca, por último o melhor deles:
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10.
Depois, pegue o último (o melhor) e coloque na frente
de todos: 10, 1, 2, 3, 4, 5, 6 ,7, 8, 9.
Está pronta a pasta: um grande anúncio abrindo
- e em seguida um crescendo de qualidade. Naquela bolsinha
lateral, você põe os discutíveis e polêmicos.
E só os mostra se for necessário ou se houver
clima para tanto.
PEÇAS POLÊMICAS E
OUTRAS ESQUISITICES.
Regra: o que é consenso vem primeiro, o que é
discutível e polêmico, só no final.
Não fui eu quem inventou isso. Esta é uma
regra básica de retórica. Tanto que ninguém
começa um discurso com "Sou a favor da pena
de morte". Em geral, começa-se com pontos em
que todos concordam, tais como "É preciso diminuir
a violência".
No portfolio é a mesma coisa: só depois de
"ganhar" quem está vendo a pasta, é
que você pode arriscar e mostrar aquela peça
que 9 entre 10 pessoas acham que é delírio.
E principalmente aquela peça que é igualzinha
a uma outra que está no anuário, mas que você
jura ter feito primeiro. Pois só depois de ver vários
anúncios bons seus, só depois de estar convencido
de que você tem realmente talento, é que existe
a chance de que alguém acredite na coincidência.
Anúncio chupado no começo da pasta, ainda
que involuntariamente, é filme queimado na certa.
Aliás, isso merece um parágrafo.
PARÁGRAFO:
Uma das coisas mais chatas que podem acontecer a quem está
começando é o "plágio retroativo":
um belo dia, sai na Veja um anuncio igual ao que você
fez faz tempo, mas não saiu. Como você ainda
é desconhecido, vão pensar que o SEU é
plágio. É duro, mas nestes casos, não
há muito o que fazer. É mais negócio
tirar da pasta. Você vai ter que dar tantas explicações
que não vale a pena.
FINALMENTE:
Além de todas essas preocupações, não
se esqueça de colocar uns 5 ou 6 anúncios
indiscutivelmente geniais na pasta. Costuma funcionar.
COMO É QUE EU ESCOLHO UMA
AGÊNCIA?
Pelo dono da agência. Uma agência sempre tem
a cara do dono. Os valores e prioridades do dono permeiam
toda a estrutura. Assim como também é a identificação
com estes valores que atrai clientes e profissionais parecidos.
Logo, se você é de criação, vai
se sentir muito mais realizado se procurar agências
cujo dono seja de criação. Certamente serão
agências onde a criação vai ter mais
peso e mais voz que, por exemplo, numa agência de
mídias.
Mas não siga esta regra cegamente. A Talent, uma
das agências mais sistematicamente criativas do país,
pertence a um profissional de Planejamento (vá lá,
ele foi redator em início de carreira). Mas se você
tiver a sorte de conseguir um estágio lá,
não seja louco de desperdiçar.
NÃO, EU NÃO ESTOU EM CONDIÇÕES
DE FICAR ESCOLHENDO. PELO AMOR DE DEUS, ONDE HÁ VAGAS?
Um dos grandes problemas das boas agências é
que elas são boas. Quem está lá quer
continuar. Passam cola nas cadeiras e sentam em cima. Por
isso, não é toda hora que aparecem vagas para
emprego ou estágio.
Agências que conseguem criar um bom ambiente para
a criação têm equipes estáveis.
Mesmo agências que já foram famosas pela volatilidade
de suas equipes andam mais calmas, pelo menos para seus
próprios padrões.
Então, fique de olho em agências novas e ainda
pequenas, mas com bom potencial de crescimento (isto é,
com gente talentosa no comando). Basta uma delas ganhar
conta grande para que se veja obrigada a aumentar substancialmente
a equipe.
Mas o principal filão mesmo são agências
que acabaram de mudar o Diretor de Criação.
Diretor de Criação recém chegado não
costuma deixar pedra sobre pedra da equipe anterior. Tente
lá. Ou descubra de onde ele está tirando as
pessoas - e tente cobrir as vagas abertas.
Evidentemente, trocas de Diretor de Criação
são raras nas agências cujos donos são,
eles próprios, diretores criativos. Óbvio:
não iriam trocar a pessoa que eles mais amam no mundo.
DURANTE A ENTREVISTA: COMPORTE-SE. VOCÊ ESTÁ
SENDO OBSERVADO.
As pessoas olham as pastas, mas contratam pessoas. Comporte-se.
Se você já está em alguma outra agência,
não fale mal das pessoas de lá. Vão
adorar ouvir as fofocas, mas não vão confiar
em você.
Não fique tentando explicar, contextualizar as peças.
Deixe o portfolio falar por si próprio.Anúncio
que precisa de explicação é, em princípio,
anúncio ruim. Além do mais, ninguém
consegue ler um texto com alguém do lado matraqueando
sem parar. Lembre-se do primeiro e fundamental mandamento.
Não seja porfolio-sem-alça.
Não seja presunçoso. Provavelmente você
ainda não é tão bom quanto pensa. E,
ainda que seja, talvez não seja o suficiente. A concorrência
hoje em dia, entre estagiários, está assustadora.
Um dia surgiu uma vaga aqui na Almap. Pensa que o pessoal
veio com idéias rabiscadas em papel almaço?
Nada disso. Profissionalíssimos. Lay-outs de computador.
Portfolios em CD-ROM.
Um dos canditados tinha até filme concorrendo em
Cannes. E não levou a vaga.
Tenha sorte de ser a pessoa certa na hora certa no lugar
certo. Eu não sei onde se compra isso, mas arranje.
MOSTREI A PASTA PARA TODO MUNDO E NÃO CONSEGUI NADA.
Você é que pensa que não conseguiu nada.
Conseguiu sim: a esta altura, seu critério já
está mais apurado. Depois de passar por um monte
de gente, você já descobriu quais são
os anúncios realmente bons, quais os meia-boca, etc.
O pessoal diverge um pouco, mas o que é muito bom
e muito ruim aparecem claramente. Isso vale ouro. Aproveite
para ir promovendo ajustes na pasta.
O que dá origem a uma subdica: não cole as
peças com adesivo muito forte. Colar e descolar vai
ser um exercício constante.
Cuidado também com as peças xerocadas: elas
soltam um pó que gruda no acetato da pasta, estragando
o portfolio. Se não der para evitar a xerox, experimente
jogar um spray fixador nelas. Não resolve de todo,
mas ajuda.
Nunca deixe o porfolio no carro: o calor deforma completamente
o acetato. E se levarem o veículo, além do
seguro não cobrir, ainda existe o risco de o ladrão
fazer carreira com as suas idéias. Pensando bem,
isso já deve ter acontecido muito.
NÃO ME ENROLA: MOSTREI A PASTA PARA TODO MUNDO E
NÃO CONSEGUI NADA.
Uma pasta inteiramente renovada - e, de preferência,
levando em consideração todos os conselhos
que você recebeu no primeiro périplo que fez
- é a melhor desculpa para conseguir uma segunda
chance. Pasta igual, sem novidade, nem pensar.
Por outro lado, um jeito simpático de se fazer lembrar,
sem amolar ninguém, é mandar pelo correio,
para pessoas que você já visitou, uma versão
xerocada e reduzida do seu portfolio. Com nome, telefone
e um bilhete curto. Se pintar uma vaga no futuro, pode ser
que se lembrem de você.
CONSEGUI O ESTÁGIO. E AGORA?
Sabe o primeiro e fundamental mandamento do candidato
a estagiário?
Também é o primeiro e fundamental mandamento
do estagiário: não seja mala. O departamento
de criação é lugar sem paredes, onde
as pessoas têm que conviver entre si 12 horas por
dia. Ou seja, inconvenientes incomodam. Publicidade é
uma profissão em que as pessoas têm que se
expor muito, falar e propor muita bobagem, então
elas preferem trabalhar com gente em quem possam confiar.
Seja legal. Ou finja que é. Depois que você
virar dono de agência, aí pode ficar intragável
à vontade.
Não defenda excessivamente um trabalho recusado.
Gente que se agarra demais a uma idéia é porque
deve ter poucas. Confie nos mais experientes. Você
pode até ter mais talento que eles. Mas, nesse ponto
da sua carreira, eles provavelmente sabem usar o seu talento
melhor que você.
Não discuta, não argumente demais, não
pondere e, sobretudo, não comece frases com "Veja
bem". Se mandarem você refazer, refaça.
Por quê?
Leia o segundo e fundamental mandamento do estagiário.
SEGUNDO E FUNDAMENTAL MANDAMENTO
DO ESTAGIÁRIO:
Resolva problemas e suba. Crie problemas e suma.
O primeiro produto que você vai ter que vender é
você mesmo. Seu consumidor, no bom sentido (ou no
mau, a vida é sua) é o Diretor de Criação.
E você só será um produto útil,
desejado e valorizado se resolver problemas para ele.
Vamos analisar mais detalhadamente esta criatura:
O Diretor de Criação é um ser atormentado
com pressões de todos os lados. A diretoria pressiona
por faturamento, o atendimento pressiona por prazos, o cliente
pressiona por custos e, às vezes, por uma visão
criativa própria. A equipe de criação
pressiona pela aprovação daquela campanha
que vai dar prêmio. Isso sem contar a pressão
que ele sofre do próprio ego, por estar cada vez
mais envolvido com atividades executivas e menos com Criação.
Diariamente, toda sorte de pepinos aterrissam na mesa dele,
travestidos de " Pedidos de Criação".
Alguns desses pepinos ele vai repassar para você.
Se você souber descascá-los com competência,
rapidez e, ainda por cima, com brilho, você terá
no Diretor de Criação um homem eternamente
grato. A simples idéia de perder você para
outra agência vai tirar o sono dele.
Por outro lado, se em vez de levar soluções,
você for um pepino ambulante, você não
serve. Se o diretor de criação tiver que perder
mais tempo com você do que perderia fazendo ele mesmo
o trabalho, você é apenas um estorvo. Tema
pelas sextas-feiras, dia em que tradicionalmente as agências
se livram dos chatos.
Quanto mais rápido e talentoso for o Diretor de Criação,
mais cuidado você vai ter que tomar com o precioso
tempo dele. Se ele resolve com um pé nas costas aquilo
que você enrola uma semana, o próximo pé
dele pode ser nas suas costas.
Acredito que essa dica vale para a vida inteira, não
importa se você é estagiário, junior,
senior ou seja lá o que for.
E COM O RESTO DO PESSOAL?
Principalmente, seja humilde. A arrogância inibe opiniões
sinceras. Você vai receber respostas diferentes se
perguntar "o que você acha deste título?"
no lugar de "não é genial este título?"
ANUÁRIOS DO CLUBE DE CRIAÇÃO
Os anuários do Clube de Criação de
São Paulo são o registro daquilo que a propaganda
brasileira produziu de melhor nos últimos anos. Leia,
releia, decore cada um deles. Ajuda muito, em pelo menos
três aspectos:
A. você aprende, sem perceber, como dar forma às
idéias. O estagiário de talento é alguém
que já tem boas idéias, mas se perde na formulação.
Os anuários são um prato cheio delas. Algumas,
de tão gastas e repetidas, já viraram fórmulas,
truques. Mas sempre ajudam.
B. você vai encontrar, provavelmente, muita coisa
do seu Diretor de Criação e do pessoal da
agência nos anuários. É um jeito de
você saber com quem está lidando. Se são
talentos genuínos ou apenas metidos à besta.
Se são pessoas em quem vale a pena grudar.
C. evita que você crie coisas geniais, maravilhosas
- mas que já foram feitas.
Embora o anuário mais recente custe uma nota, os
mais antigos costumam ser uma pechincha. O Clube tinha um
bom estoque dos anuários antigos para venda mas,
modéstia à parte, depois de dada a dica aqui,
está quase tudo esgotado. Se você correr, ainda
encontra algumas edições. Aproveite. Como
dizem as escolas de computação, o curso é
grátis, você só paga o material didático.
O telefone do Clube de Criação de São
Paulo é (0xx11) 3034.3929. Ligue e diga que você
leu a dica na minha página. Você não
vai ganhar nenhum desconto por isso, mas eu vou ficar com
a maior moral lá.
CULTURA GERAL.
Vire-se para arranjar. Mas o ideal é que você
já tenha, e bastante. Porque depois de entrar numa
agência competitiva você não vai ter,
infelizmente, muito tempo para ir a cinema, ler, viajar
etc. Então, é indispensável que você
já tenha acumulado uma boa cultura geral, seja através
de vivência, seja através de livros, etc. Imagine
que você é uma bateria. A cultura é
sua carga, carregada a vida inteira. O processo de criação
exige que você gaste esta carga - e sem muito tempo
para recargas. Se você é uma bateria fina,
vai se esgotar logo. Tomara que você e seus pais
tenham investido na sua educação. Senão,
esqueça. Vá ser Dee-Jay.
CULTURA INÚTIL
Se você já se perguntou algum dia para que
serve a famosa cultura inútil, eu respondo: para
fazer propaganda. É impressionante o que isso rende.
Um dia, li uma notinha sobre um homem que criava um leão
no quintal e que esse leão havia sido roubado. Virou
texto de anúncio de seguradora: "Se os assaltantes
não têm medo nem de leão, você
acha que um cão de guarda vai defender seu patrimônio?
Faça um seguro etc" E por aí vai. Fatos
dão sabor e consistência a qualquer argumentação.
E propaganda, lembre-se, é argumentação
embrulhada para presente.
ESPERA
AÍ: ESTE MANUAL É SÓ PARA ESTAGIÁRIO
DE CRIAÇÃO.
EU QUERO ESTAGIAR EM ATENDIMENTO.
É verdade. Desculpe não ter avisado antes.
E quer ouvir outra má notícia? Apesar da Criação
ser a área mais desejada e procurada, entrar em Atendimento
é mais difícil ainda. Por quê? Porque
não existem parâmetros objetivos para avaliar
o talento do iniciante nessa área. Querendo Criação,
você faz um portfolio e mostra. Mas, querendo Atendimento,
vai mostrar o quê? Sua habilidade em dar nós
Windsor na gravata? Acho que a seleção de
estagiários em Atendimento acaba sendo meio na base
do feeling, da química. Resta a você tentar
uma entrevista com alguém da área, dizer que
os deslumbradinhos adoram criação, mas você
que é sensato gosta mesmo é de Atendimento
- e torcer para irem com a sua cara. É difícil
e imprevisível.
Mas, pensando bem, essa dificuldade inicial é justa:
afinal, para você que um dia vai estar convencendo
clientes a aprovar campanhas quecustam milhões de
dólares, convencer alguém a comprar um estagiário
bom ebaratinho vai ser moleza. Boa sorte.
E antes que você fique com a impressão de que
tratei o seu problema com descaso, quero dizer que acho
Atendimento tão ou mais importante que Criacão
numa agência que pretenda ser criativa. Porque uma
agência não é percebida como criativa
pela qualidade daquilo que ela consegue criar, mas sim pela
qualidade daquilo que ela consegue aprovar e veicular. Idéia
boa, recusada, não vale nada. Por isso, toda agência
boa de criação é, antes de tudo, boa
de aprovação. Vou torcer para você se
tornar um grande profissional de atendimento, porque nós
da Criação precisamos muito dessa turma.
EVITE A TODO CUSTO:
Não faça tráfico de informações.
Não comente fora da agência nada que você
ou um colega criou e que ainda não foi veiculado.
Isso é propriedade da agência e do cliente.
Nada de conversinhas de bar do tipo: "vocês não
imaginam o puta anúncio que eu fiz hoje". Bico
calado até o anúncio sair. Aí, pode
fazer quanto lobby quiser.
Alguns estagiários tentam compensar o pouco status
inicial com o tráfico de informações.
"Faço estágio na agência tal e
fulano que trabalha lá disse o seguinte". Alta
traição. Um inocente comentário fora
da agência pode colocar campanhas a perder, prejudicar
os clientes, concorrências e prospects. Além
do fato de que os ouvintes, embora possam se aproveitar
da informação recebida, vão pensar
duas vezes antes de contratar um boquirroto como você.
Propaganda é uma indústria e não está
imune à espionagem industrial.
Não facilite.
DROGAS
Talvez eu esteja sendo muito ingênuo ou distraído,
mas não conheço muitos profissionais que façam
uso delas.
O ambiente das agências hoje em dia é predominantemente
careta. Até o cigarro está diminuindo. O volume
atual de trabalho exige produtividade, profissionalismo,
atletismo intelectual. Chegar, ligar o computador e trabalhar.
É um ritmo forte que a droga, em que pese uma ou
outra suposta "iluminada", acaba prejudicando.
A grande droga consumida nas agências hoje em dia
é a pizza para viagem.
DÊ CRÉDITO A QUEM MERECE.
Ter um texto enxuto é bom. Mas nunca nas fichas técnicas.
Se você foi ajudado, reconheça e registre.
Você é pequenininho demais para fazer inimigos.
Por incrível que possa parecer, sua sobrevivência
vai depender mais da sua reputação que da
sua pasta. Já vi pessoas perdendo a chance de conseguir
emprego porque alguém na criação levantou
uma sobrancelha, ironicamente, quando o nome do candidato
foi citado.
Nenhuma pasta, por melhor que seja, sobrevive a um "Esse
cara aí é bom. Mas".
Existe uma teoria do Bill Bernbach, citadíssima,
mas que sempre vale a pena relembrar. Dizia o mestre:
"Se vejo uma pasta medíocre de um bom sujeito,
gasto horas com ele, explico que não vai ser possível,
lamento profundamente. Mas se vejo uma pasta brilhante de
um mau-caráter, despacho o canalha a pontapés.
A vida
é curta demais para perdermos tempo com filhos da
puta".
PODE ESQUECER A NOVELA DAS SETE.
Carreiras são como aviões: você precisa
de mais força na decolagem do que para se manter
nas alturas. Ou seja, esteja preparado para ralar muito
nos primeiros anos.
ESTOU INDO TÃO BEM QUE RECEBI UMA PROPOSTA.
Não mude de agência pelo dinheiro. Só
pense no fator dinheiro depois que estiver convencido de
que a mudança, por si só, já vale a
pena. E aí sim, negocie o melhor salário que
puder. Mais vale um estágio não-remunerado
em agência boa do que emprego em agência média.
O autor da frase "o dinheiro não é tudo"
provavelmente era um estagiário esperto.
Recebendo uma proposta, não blefe, não faça
chantagens, cabos-de-guerra ou joguinhos espertos com a
agência. É verdade que com uma proposta na
mão você tem um trunfo - mas nos outros 364
dias do ano você não tem. Não costuma
ser bom negócio colocar um diretor de criação
contra a parede.
E, se o seu ego permitir, não divulgue por aí
as propostas que você recusou. Por educação,
nada mais. Você também não iria gostar
se alguém saísse espalhando que não
quis nada com você.
Resumindo todo esse papo de escoteiro: em propaganda você
tem que ser esperto. Nunca espertinho ou espertalhão.
SÓ ME DÃO MERDA. O QUE ELES PENSAM QUE EU
SOU? ESTAGIÁRIO? Você acha que a agência
vai dar a campanha mais importante de um cliente grande
para um desconhecido qualquer? Ainda que eles fossem loucos
para fazer isso, seria um desrespeito para com os clientes.
Seus jobs irão ganhando complexidade e importância
à medida que você for inspirando confiança.
E tem mais: o que parece um osso muitas vezes é um
filé. E um filé muitas vezes é um osso.
Depende do seu talento. Qualquer boteco faz filé
ao molho madeira. Mas poucos fazem um ossobuco como o Il
Fornaio d'Itália (mais um vez, não estou ganhando
nada por este merchandising. Mas quem sabe assim o Vito
me serve uma porção mais caprichada).
UMA PALAVRA DE CONSOLO AOS ETERNOS
RECLAMÕES:
Os médicos levam uma vida muito mais dura que você.
Eles estudam seis anos, depois mais dois de especialização.
No começo, só podem ficar assistindo às
cirurgias de médicos mais experientes, sem fazer
nada. Depois, passam a colaborar nas cirurgias dos outros,
sem nenhum crédito. Depois, passam a operar, mas
vigiados de perto. E só depois disso, muitos e muitos
anos depois, é que ficam sozinhos diante de um pâncreas.
Tudo isso por um salário menor do que aquele que
você estará ganhando em breve, se tiver talento.
E com muito mais plantões.
PALAVRAS FINAIS:
Todo job é osso, chato, difícil e complicado
- até você ter uma boa idéia. Aí
ele fica legal.
O AUTOR
Eugênio Mohallem, 37, nasceu em Itajubá, MG.
Antes de chegar à AlmapBBDO, trabalhou na Talent
e DM9. É um dos redatores mais premiados em toda
a história do Anuário do Clube de Criação
de São Paulo. Divide com Marcello Serpa a direção
de criação da agência.
Profissional de Criação do Ano 2000 segundo
a APP, recebeu também por duas vezes o Prêmio
Caboré - Profissional de Criação do
Ano, através do voto direto e secreto dos leitores
da Revista Meio & Mensagem (95 e 98).
Já ganhou 8 Leões no Festival de Cannes, incluindo
o leão de Ouro "Dupla Checagem", para Volkswagen,
além de premiações no Fiap, Art Directors,
One Show, Clio, Londres e Profissionais do Ano da Rede Globo.
Seu Manual do Estagiário foi escrito por sugestão
do diretor de arte José Carlos Lollo. Após
fazer grande sucesso na Internet, o Manual do Estagiário
de Eugênio Mohallem foi transformado em livro pelo
CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola),
para distribuição gratuita entre recém-formados.
A
edição,com capa e direção de
arte de André Laurentino, já está esgotada
|