Exposição chama a atenção para o problema da discriminação da mulher e da violência de gênero
Avenida Paulista, meio-dia, 31 de março. Vinte mulheres caminham, em silêncio, até a Praça do Ciclista, onde formam um círculo. Todas usam vestidos brancos, simples. Margaridas adornam os cabelos trançados. No rosto e nos braços, inúmeros cortes e hematomas.
Uma mulher tira do bolso um lenço de papel e começa a limpar a cara da colega ao lado. Aos poucos, as cicatrizes somem, deixando claro que tudo não passava de maquiagem. O ato se repete em cada uma das participantes. Algumas se emocionam e choram, ainda sem dizer nada, ao encarar as colegas e compartilhar a dor. Muitas pessoas, curiosas, param para tentar compreender o que está acontecendo. Algumas ficam para assistir, outras tiram fotos com o celular e vão embora. Uma mulher, com lágrimas nos olhos, diz que é triste e chocante. Um morador de rua está convicto de que é uma manifestação em lembrança à ciclista que morreu algumas semanas antes, naquela mesma avenida.
Na verdade, o ato faz parte da mostra Arte e gênero: cruzamento de olhares, que acontece de 31 de março a 28 de abril, no Espaço Cultural do Instituto Cervantes de São Paulo. A performance, denominada Removing Pain, foi criada pela artista brasileira Beth Moysés e inaugurou a exposição, que conta também com obras da espanhola Marisa González.
O principal objetivo da mostra é discutir e denunciar as discriminações de gênero e investigar os motivos pelos quais a opressão das mulheres ainda é forte em muitos lugares do mundo. Por meio de vídeos e fotografias, além da performance já citada, ambas artistas buscam dar novas perspectivas sobre a violência doméstica e revolucionar a mentalidade humana.
De acordo com Beth Moysés, a performance na Avenida. Paulista serviu para ar a sociedade sobre a gravidade da violência contra a mulher. “As pessoas pensam que a violência doméstica é um caso particular. Elas não percebem que esse é um problema cultural, que a gente vem trazendo há muitos séculos”, explica a artista.
Ao reunir uma brasileira e uma espanhola, a curadora Maragarita Aizpuru declara que tentou abordar o tema da discriminação feminina por dois lados diferentes, mostrando que o problema está presente em qualquer parte do mundo e que o fato de as pessoas não se manifestarem sobre o assunto não é uma questão nacional.
Para Beth, a arte tem um poder catártico, especialmente para as mulheres que participam de suas performances. Todas elas estão, direta ou indiretamente, vinculadas à violência de gênero. “Para mim, a coisa mais especial são elas. Eu acho que o coletivo é muito forte e poderoso. Um ritual desses muda alguma coisa no consciente dessas mulheres”, reflete a artista. Beth declara também que já houve casos de mulheres que sairam de casa e começaram uma nova vida, após participarem de suas performances.
Um dos maiores problemas da violência doméstica é que, muitas vezes, a mulher se sente dependente do parceiro e não consegue abodoná-lo ou denunciá-lo. Moysés afirma que, por meio de suas obras, tenta despertar nelas uma mudança de comportamento, para que possam se conscientizar do problema. “A mulher tem que acordar! Acorde, por favor!”, implora a artista.
Arte e gênero: cruzamento de olhares – Beth Moysés e Marisa González, curadoria de Margarita Aizpuru.
Espaço Cultural do Instituto Cervantes de São Paulo – Av. Paulista, 2439.
Segunda a sexta-feira, das 9h às 21h. Sábados, das 9h às 15h.
Tel: 3897-9609