Arte do canal

índice geral



Home / Faculdade Cásper Líbero / Revista Cásper

02/05/2011 - 16h52 - Atualizado em 22/05/2013 - 11h23

De volta à prancheta

Luis Mauro Sá Martino


Reprodução
Percurso Interpretativona Produção da Notícia, de Josenildo Guerra, e
A Fabricação do Presente,de Carlos Eduardo Franciscato

Não adianta procurar nas livrarias. Para encontrar A fabricação do presente, de Carlos Franciscato, Esfera pública, jornalismo e democracia, de Messiluce Hansen, ou O percurso interpretativo da produção da notícia, de Josenildo Guerra, só encomendando na livraria da Unesp, na Praça da Sé. Uma pena, porque os três, publicados pela editora da Universidade Federal de Sergipe, enfrentam com competência alguns dos problemas mais sérios da comunicação. Aqui, por questões de espaço, o propósito é apenas apresentar umas poucas ideias centrais e, quem sabe, provocar a leitura dos textos.

Os livros se debruçam sem medo sobre questões difíceis do jornalismo, como conflitos de interesse, a ética e, em especial, o problema da objetividade. Em linhas muito gerais, trata-se de saber como, e se, é possível fazer um relato objetivo de um determinado fato, isto é, descrevê- lo “tal como aconteceu”. Vários trabalhos de primeira linha foram escritos mostrando, com fatos e argumentos, algo que historiadores já sabiam: é impossível criar um relato objetivo do que aconteceu.

Sempre haverá um ponto de vista, uma certa inclinação, um ângulo específico. Não só no jornalismo, mas em qualquer tentativa de contar uma história: ainda que filme a realidade, e usando a força das imagens, um documentário passa por vários processos de escolha, montagem, seleção e edição. A objetividade, se algum dia havia sido o ideal da notícia, ganhou status de ficção – o “mito da objetividade”.

Os livros de Franciscato, Guerra e Hansen não querem trazer de volta essa concepção de objetividade, geralmente ligada aos conceitos de “imparcialidade” e “neutralidade”. Mas, por outro lado, perguntam se não se está jogando a criança com a água do banho quando se trata do tema. Se a objetividade é só um mito, por que na prática jornalistas e produtores audiovisuais continuam escrevendo notícias e produzindo documentários como se fosse possível? Se a objetividade é impossível e cada um tem sua realidade, como duas pessoas conseguem conversar no dia a dia?

Isso se liga a um problema ético. Em uma situação ideal, o público espera que o jornalista dê informações corretas sobre os fatos do dia. A apuração da notícia deve resultar em um texto que, seja no formato impresso, digital, lido no rádio ou na TV, dê ao público uma ideia do que aconteceu. Há uma espécie de “pacto ético”: o público garante credibilidade ao jornalista, mas espera que o profissional faça o melhor possível para conseguir e transmitir as informações corretas.

Fatos e versões

Certamente o “fato jornalístico” é diferente do acontecimento em si, e a nova concepção de objetividade incorpora essa diferença, enquanto o conceito de objetividade, na outra versão, previa uma equivalência entre ambos, pensando a notícia como reflexo da realidade. Reconhecer que há diferença, mas não incompatibilidade, entre o fato e o evento não elimina a possibilidade de se narrar corretamente o evento, dentro de limites que, em vez de serem disfarçados ou encobertos, são levados em conta.

Evidentemente isso leva em conta que a pessoa que conta a história tenha o compromisso com o ouvinte de se ater aos fatos na medida de sua condição humana. Portanto, isso não se aplica a situações de explícita má-fé, na qual o fato é sistematicamente distorcido pelo narrador – nesses casos, como resume Guerra na página 33, “Eis a credibilidade e o imperativo ético fundante da instituição jornalística indo para o ralo”.

Isso também não significa deixar de lado os interesses do jornalista nem da empresa de comunicação.

Mesmo pensando em termos estritamente comerciais, sem a importante discussão sobre compromissos públicos do jornalismo, a busca pela objetividade nessa nova concepção não se dilui. Há um público consumidor de notícias que espera por informações, seja sobre os atos do Congresso, seja sobre o último lance em um reality show. Nos dois casos, os públicos esperam informações corretas, e acreditam no profissional responsável por elas.

Romper esse pacto custa muito caro para a empresa de comunicação: perder credibilidade significa que o público vai embora, e com ele os anunciantes. Portanto, trabalhar de maneira ética pela melhor informação atende tanto aos interesses do jornalista quanto do público e da empresa. Quando alguém deliberadamente inventa uma notícia e o fato vem a público, o que não é difícil, há uma imediata mobilização da mídia para encontrar e punir os culpados.

Guerra menciona, por exemplo, o caso de Janet Cooke, repórter do New York Times que em 1981 forjou uma reportagem e ganhou o Prêmio Pulitzer por ela. Descoberta a trama, além da punição da responsável, o jornal publicou cinco páginas explicando o caso e pedindo desculpas. Evidentemente nem todos os erros e distorções do jornalismo tem um final como esse. Mas, por outro lado, segundo o autor, esse tipo de distorção sistemático também não acontece todos os dias e em todas as notícias.

Você disse “jornalismo”?

Não se deixa de lado, nos três livros, situações nas quais os alinhamentos políticos, a busca de escândalos, a criação de fatos e os momentos nos quais os interesses econômicos da empresa se sobrepõem aos compromissos profissionais do jornalismo – mas é possível perguntar se, nessas condições, o que se está fazendo é, de fato, “jornalismo”.

Os livros se propõem a delimitar melhor o que é essa atividade que, por ter um aspecto comercial, não precisa necessariamente deixar de lado a ética. Em situações de distorção completa, o “jornalismo” desaparece, e com ele as regras e compromissos do profissional. É de se esperar que essas condições sejam a exceção, não a regra.

De certa forma, o fato que torna a mídia importante, e sua discussão mais ainda, é que ela pode causar mudanças na realidade. O jornalismo, como atividade social, responde a uma demanda das pessoas por informações. Demanda, aliás, que independe do jornalismo e existe muito antes dele.

Essas alterações não se limitam à necessidade pessoal de informação, se vai chover ou quem ganhou o jogo, mas também no que diz respeito à dimensão pública desses fatos, por exemplo, quando a chuva se transforma em enchente por descaso do poder público ou quando a corrupção de cartolas prejudica o desempenho de um time.

A mudança provocada pela imprensa e, posteriormente, pelos meios de comunicação eletrônicos, foi na velocidade dessas demandas, alteração que transformou a própria concepção de tempo no ocidente. É um dos pressupostos examinados por Franciscato em A fabricação do presente. Como recorda, na página 15 do livro, “O jornalismo é uma prática social voltada para a produção de relatos sobre eventos do tempo presente. Ao fazer isso, o jornalismo atua de forma privilegiada como reforço de uma temporalidade social, enquanto produtor de algumas formas específicas de sociabilidade”.

O jornalismo deveria, nesse caso, cumprir a tarefa de suprir essa demanda de maneira rigorosa e correta. Aparentemente, isso desloca o foco do “bom jornalismo” de seu destino final, isto é, a leitura da notícia, e o coloca na produção consciente da notícia: em outras palavras, parece que o “bom jornalismo” estaria na realização ética da atividade, não na determinação de seu conteúdo – apurar e escrever corretamente sobre o momento afetivo de uma subcelebridade, nesse caso, seria mais ético do que escrever levianamente sobre política?

Hansen, Guerra e Franciscato retomam, em caminhos e abordagens diferentes e complementares, desafiam com muitas perguntas e poucas respostas fechadas, o que talvez seja a característica de um bom livro. Ao retomarem alguns temas nos estudos de comunicação, como objetividade, ética e interesse, oferecem posições sólidas, das quais é possível discordar integralmente, mas não negar a relevância.