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23/11/2011 - 12h12 - Atualizado em 19/05/2013 - 17h52

O pequeno grande homem

Por Gabriela Valdanha, aluna do 1° ano de Jornalismo


Reprodução

“Seu nome é Assis Chateubriand - o mais alegre, vivo e fantástico homem que já conheci. Grandes olhos castanhos, cabelos ficando grisalhos, ele praticamente não fala inglês, mas é mais borbulhante que uma garrafa de gasosa.” É assim que Elsa Maxwell descreve Chatô em sua coluna Elsa’s Comment no New York Journal. Este homem “mais borbulhante que uma garrafa gasosa” foi um sertanejo que nasceu gago, raquítico e amarelo na pequena cidade de Umbuzeiro. Para quem achava que ele não ia vingar, Fernando Morais pode dedicar seu livro Chatô, O Rei Do Brasil, para mostrar do que o “homenzinho” foi capaz.

O livro acompanha a vida de Chatô desde seus avós até o último segundo de sua vida. Vida esta que ele aproveitou ao máximo. Superando todos os desafios, até aquele que todos julgavam ser insuperável: a trombose que o deixou sem falar, andar e sexualmente impotente em 1960. Durante os oito anos que ainda viveu, foi realfabetizado por uma enfermeira e ditava e escrevia artigos primeiro com a ajuda dela, depois com a de uma máquina especial.

Quem é ele todo mundo sabe: o homem que teve uma rede de jornais maior do que qualquer outra da época, o dono de diversas estações de rádio, um dos responsáveis pela instalação das televisões no Brasil e fundador da TV Tupi, a primeira emissora da América Latina. O que muitos não sabem é que ele não teve uma infância abastada, entrou para o exército depois de muita insistência (e talvez lá tenha se acentuado uma característica que sempre foi sua: a arte de mandar), formou-se em Direito e mesmo depois de ser acometido por uma trágica doença no fim da vida ainda era capaz de dar ordens.

Na época em que pretendia iniciar sua carreira jornalística, nas décadas de 1910 e 20, a forma de conseguir prestígio era entrando em discussões públicas, onde geralmente cada jornal defendia uma personalidade. Não foi diferente com Chatô que, depois de ter se intrometido em uma batalha nacional entre Rui Barbosa e Hermes da Fonseca, deixou de ser anônimo. Já instalado no Rio de Janeiro, iniciou sua busca por personalidades influentes. Com inteligência, carisma, coragem e um golpe baixo ou outro, foi prestando serviços e guardando não dinheiro, mas sim as amizades para o futuro.

Igualmente proporcional a quantidade de poder que acumula era a quantidade de inimigos. Isso porque Chatô utilizava dos seus meios de comunicação muitas vezes para divulgar suas próprias ideias, desejos e rancores. Chegou a alterar a Constituição e publicar na revista Cruzeiro, a mais famosa do Brasil na época, uma capa ilustrando a moça por quem estava apaixonado (direito reservado aos artistas de cinema) e intermináveis fotos de sua filha, Teresa (fruto da união com a “moça da capa”). Por possuir essa atitude irreverente, Chatô foi preso mais de uma vez, mas nada mudou o seu jeito de ser.

Foi acima de tudo um empreendedor. Elegeu-se senador do Maranhão, e foi nomeado Embaixador Brasileiro em Londres. Ocupou a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras, posto que, meses antes, fora de Getúlio Vargas.

Suas três grandes paixões foram poder, arte e mulheres, mas tinha grande afeição por seus amigos,  que conviviam com ele todos os dias. Casou apenas uma vez, mas deixou três filhos com diferentes mulheres. Não reservava muito tempo à família, instituição que desde sempre desprezou declaradamente. Apesar disso, quando se envolvia em relações amorosas sem interesses (porque, assim como suas amizades, envolveu-se com mulheres apenas por elas representarem um investimento), era intenso e ciumento. Foi o brasileiro que mais andou de avião até hoje, tal fato demonstra que realmente, o poder e o luxo lhe atraiam muito e ele nunca os desperdiçou.

A obra é um mergulho profundo na história desse homem que não se mostra apenas como alguém sem escrúpulos e ética. Sem dúvida, ele infringiu regras e desrespeitou pessoas para chegar onde chegou, mas pelo livro é possível entender o contexto histórico, político, social e até cultural do país e assim compreender que se não houvesse um homem vanguardista para quebrar todos os paradigmas existentes e mostrar que era possível crescer e progredir, talvez estivéssemos longe do país em que vivemos hoje.