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28/10/2011 - 12h34 - Atualizado em 21/05/2013 - 10h31

Atlântida brasileira

Por Beatriz Viabone, aluna do 1º ano de Jornalismo

Livro relata a busca de informações sobre o desaparecimento de Percy Harrison Fawcett e outras histórias dessa expedição

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Reprodução

“Assim, fique desde já sabendo o leitor que neste romance policial a falta de ortodoxia é insportável: não conseguimos identificar o cadáver encontrado nem conseguimos apontar o assassino ou os motivos do crime”. Quebrando todo e qualquer gosto de uma introdução instigante, Antonio Callado conta logo nas primeiras páginas que os objetivos de sua expedição não foram alcançados, e que provavelmente nunca seriam.

Ainda assim, publicou em 1953 Esqueleto na Lagoa Verde – Ensaio Sobre a Vida e Sumiço do Coronel Fawcett, livro que se tornou um clássico da literatura brasileira, em que a verdadeira pessoa por trás do crime, ou do esqueleto encontrado, é mero detalhe factual diante dos relatos colhidos.

À convite dos Diários Associados, o jornalista e escritor partiu em expedição rumo ao Xingu, em 1925, acompanhado de Brian Fawcett, filho do coronel, com o objetivo de recolher informações que pareciam definitivas sobre o sumiço de Percy Harrison Fawcett, que na ocasião estava com o filho Jack e o amigo Raleigh Rimell.

Após o acontecimento, outras expedições foram feitas em busca de sobreviventes ou restos mortais que dessem pistas e explicassem o que realmente ocorreu, desde os motivos até os culpados, mas nada revelador foi encontrado. Finalmente, em 1951, após perguntas insistentes, os índios calapalos contaram a Orlando Villas Boas sobre um crime que havia acontecido certo tempo atrás, e o levaram ao suposto local onde poderia estar enterrado Fawcett. Análises foram feitas na ossada, tanto por um dentista brasileiro que tratou Fawcett, quanto por equipes britânicas e foi comprovada a incompatibilidade.

Antes mesmo de pegar o avião rumo ao Mato Grosso, Callado afirma em suas anotações não ter esperanças em descobrir algo novo, tendo Brian como o único elemento que poderia trazer alguma informação nova, mas ainda contaminada pela visão do pai como herói.

Em suas observações que originaram o romance-reportagem, Callado se desprende do mistério dos ossos e da falta de dados sobre as expedições feitas por Fawcett, trazendo outras informações provenientes de uma apuração bem feita e do compromisso com o real.

Enquanto embaixadas, instituições e a mídia fizeram investimentos para descobrir o paradeiro de Fawcett, Callado e seu grupo presenciaram um incêndio no armazém da Vila Xavantina, próximo ao posto Culuene. A diferença de atenção disposta é chocante e reveladora: de um lado, a desgraça devastadora que atingiu centenas de esquecidos, e do outro o sumiço, há quase trinta anos, de um inglês na selva do Mato Grosso.

Todos os esforços foram feitos para solucionar o caso de uma pessoa desaparecida, enquanto moradores da Vila desesperados para conter o incêndio não tinham noção alguma de como supririam os alimentos perdidos. Pessoas que realmente precisavam de destaque na mídia não tiveram.

Em seu romance-reportagem,  mais reportagem do que romance diante do número de informações, relatos e visível apuração, o autor conversa com o leitor numa narrativa simples, explicativa, mas rica em detalhes. Ainda assim, Callado faz uso da literatura numa estética menos quadrada que a do jornalismo, e permite certo senso de descoberta ao ler cada página.

Frente à realidade de que muitos somente se aventuraram no Xingu para responder incógnitas sobre um único homem, e que caso contrário jamais adentrariam na mata, o livro deixa claro que a Atlândida é o próprio Xingu.