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19/09/2011 - 09h53 - Atualizado em 23/05/2013 - 01h47

O universo de Paulo Honório

Por Amanda Garcia, aluna do 1º ano de Jornalismo

Em “São Bernardo”, Graciliano Ramos faz crítica ao coronelismo no nordeste do país

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Reprodução

Graciliano Ramos começa sua carreira de romancista mostrando qualidade. Segundo romance do escritor, São Bernardo é uma obra que inicia fortemente, em meio a um turbilhão de informações como nomes, lugares e ações, sem nem mesmo introduzir previamente o leitor neste novo mundo que começa a conhecer.

A linha condutora é Paulo Honório, personagem principal que, de cara, mostra sua personalidade marcante, decidida e, muitas vezes, arbitrária. Diferentemente do romance Vidas Secas, o mais conhecido do autor, onde há uma “economia” de palavras por parte dos personagens cerceados pela miséria, aqui o narrador-personagem não tem papas na língua, não poupa o leitor de todos os seus sentimentos e do que lhe atordoa.  

São Bernardo transparece o engajamento social de seu escritor, que critica a concentração de terras e o coronelismo predominante no nordeste do início do século XX e que permanece até a contemporaneidade. O autor se vale do personagem principal para mostrar sutilmente a forte influência que os detentores dessas terras têm em seu meio, subjugando as classes sociais inferiores ou mostrando a realidade de pouca escolaridade da época. 

Desde o início turbulento e enérgico da obra os personagens são “sugados” pelo universo de Honório, sendo revelados aos poucos. A narração se faz em forma de memórias. Primeiramente, Honório pede ajuda a amigos para a compilação do livro que queria, mas depois, percebendo que não ficaria do modo desejado, resolveu escrever sozinho. Pareceu ser a decisão certa a ser tomada, pois, dessa forma, o livro carrega uma unicidade característica, numa mistura de diálogos e narração dinâmicos e de agradável leitura.

São Bernardo, fazenda em Alagoas, região de Viçosa, entra na história pela ambição de Honório em ter as terras que Luís Padilha herdaria. Utilizando-se de métodos pouco escrupulosos, Honório empresta dinheiro a Padilha até este não ter mais condições de pagar a dívida, sendo obrigado a dar a fazenda. Neste ponto, as terras antes mal cuidadas, começam a prosperar. O ritmo com que são contados os acontecimentos é extremamente acelerado. É por este ritmo, também, que percebemos algumas das características de Honório, entre eles a objetividade e, em alguns casos, crueldade.

Quando decide que é hora de casar-se, o faz com Madalena, professora da cidade, a qual conhece primeiramente através da descrição feita por Nogueira e Gondim, personagens secundários, depois pessoalmente, e, a partir daí, a bela “mocinha loura” passa a participar centralmente da obra. É também neste momento que a trama ganha novos rumos. Porém, há de ressaltar que não se casa por amor, mas sim, porque acha que é hora de São Bernardo ter um herdeiro.

Madalena é incompreendida por Paulo Honório, pois detém de poder intelectual e quer transmiti-lo aos menos favorecidos, fazendo-os abandonar esta condição. Ela pode ser vista como alter ego de Graciliano. Há de se fazer uma ousada comparação aqui de Madalena como provedora do filho tão desejado, assim como na história bíblica.

Depois de dois anos casado, começa a sentir ciúmes e, visivelmente desequilibrado, a ouvir vozes e se sentir perseguido. Existe um forte indício de que a esposa o tenha traído, além de não ver nenhuma característica sua no herdeiro, a quem trata friamente. Sua dúvida é tamanha que desconfia de todos a sua volta, recordando assim o machadiano Dom Casmurro, com sua clássica dúvida.

São Bernardo é um romance que revela uma ambição desmedida. A vontade de possuir não somente bens materiais, como também pessoas, faz Paulo Honório ir perdendo posses e afastando pessoas queridas por ele, principalmente Madalena, que por ser mulher de fortes opiniões não se deixa influenciar por seus machismos nem crueldades.

A crítica formulada por Graciliano não é apenas ao sistema vigente, mas também ao homem que transforma tudo em objetos a serem adquiridos, por isso é extremamente atual. Homem de poucos amigos e muitos preconceitos, Paulo Honório termina por se afundar em si mesmo, em seu poder econômico e político.