Autobiografia do guitarrista traz relatos detalhados sobre os 40 anos de estrada dos Rolling Stones
Vida - esse é o nome do livro de Keith Richards, lendário roqueiro dos Rolling Stones. De simples, o livro lançado em 2010 só tem o título. Seu conteúdo repercutiu muito na mídia por ser polêmico e despido de quaisquer omissões. A verdade está lá para quem quiser ler, nua e crua.
Aos 68 anos, mais revigorado e consciente do que nunca, Keith afirma que, acreditemos ou não, ele “não esqueceu de nada”. Na obra, ele desvenda os segredos mantidos pela banda em mais de 40 anos de estrada, liberando, sem pudores, verdades surpreendentes.
O livro, que conta também com a colaboração do jornalista James Fox, pode ser divido em 3 partes: infância, juventude e velhice. Como o esperado, os fragmentos mais polêmicos - e que consagram a velha e boa imagem cliché do roqueiro clássico - pertencem à juventude, na qual se dá o ápice da narrativa.
Keith também relata fatos intrigantes de sua infância. Ele nasceu e viveu no conturbado pós-guerra, época de uma Londres destruída e pobre, muito diferente da que conhecemos hoje. Ele cresceu no sudeste da cidade, região economicamente comprometida, onde moravam poucas famílias privilegiadas - dentre elas, a de Mick Jagger. Ter um padrão de vida um pouco melhor significava, naquela período, poder importar discos que até então não tinham a mínima chance de circular pelas ruas londrinas.
Jagger e Keith se conheceram quando este esperava por um trem e avistou os discos importados de Jagger. Consumido pela curiosidade e desejo de obter tais preciosidades, ele se aproximou do futuro parceiro, dando início à troca de interesses que dividiriam pelo resto de suas vidas.
Como relata o autor, o início da carreira foi difícil para a banda. “Estávamos pagando para ser os Rolling Stones”, ele diz. O grupo, ainda em sua formação original, foi aos poucos adquirindo respeito das casas de show, como a Crawdaddy Club, que naquela época só davam espaço aos gurus do jazz.
Foi nos Estados Unidos, porém, que a banda inglesa chamou atenção. A relação entre eles e o Reino Unido, por sinal, é um tanto ingrata, segundo Keith. Eles eram vigiados pelo governo inglês, que costumava mandar policiais dormirem à porta dos roqueiros para “impor respeito”.
Além disso, os impostos então exigidos pela Inglaterra sobre o faturamento da banda eram considerados excessivos e de mau gosto pelos integrantes, fazendo com que eles migrassem para a França. Lá os Stones não só desfrutaram das drogas sem pensar no amanhã, mas também trabalharam duro.
Por falta de tecnologia nos arredores, Keith instalou um estúdio em sua própria casa, localizada na Vila Nellcotê, sul da França. Nessas condições precárias eles produziram muita coisa de qualidade, como um de seus discos mais famosos, o Exile on Main St.
O livro descreve os processos de criação de Keith, além de seu amor pela guitarra e pela estrada. Sim, as drogas também faziam parte desse grupo, principalmente no decorrer da década de 70, a qual, segundo o roqueiro, foi quando todas as drogas eclodiram “oficialmente”.
Dentre suas mais fortes (e perversas) paixões, as que mais se destacam são a atriz Anita Pallenberg e Mick Jagger. Ele conta como se apaixonou por ela e a roubou de seu colega de banda, Brian Jones, e como tanto ele quanto Anita se tornaram dependentes de heroína. Segundo o autor, foi essa a principal causa que o levou a deixar a esposa e seus dois filhos, mesmo depois de anos de união.
Apesar de sua história de amor com Anita ter sido um tanto intensa, não foi a maior de sua vida. Ao detalhar sua relação com Jagger, Keith não o poupa de diversas acusações que o desmoralizam. Ele ressalta que o vocalista sempre adotou uma postura individualista, se considerando líder dos Stones - para os outros intregantes, isso não passava de uma piada. A imagem de melhores amigos é quebrada em Vida, que também desmascara atitudes mesquinhas e infantis de Mick Jagger.
Vida é realmente de deixar o queixo caído, mas os fãs abatidos pela realidade exposta por Keith não têm muito com o que se preocupar. Como o próprio guitarrista disse, eles são inseparáveis, afinal “Mick Rocks and I Roll”.