Estreia de Robert Redford como diretor, "Gente Como a Gente" retrata as consequências do luto em abastada família americana
Acidentes acontecem. Todos já ouviram essa frase alguma vez na vida, dita em diferentes contextos. Fugindo dos chavões e das obviedades, o longa Gente Como a Gente (Ordinary People), de Robert Redford, assume postura diferente em relação a essa sentença, que tem como consequência uma perda irreparável.
O filme investiga os dramas particulares dos Jarrett, família americana de classe média alta, após a morte do filho mais velho Buck (Scott Doebler), em um acidente de barco, no qual o caçula Conrad (Timothy Hutton) estava presente, mas conseguiu safar-se. Desmantelados, após a partida do primogênito, cada um segue a vida a seu modo, trancafiando-se em seu universo na companhia de traumas mal digeridos e dores difíceis de serem extravasadas.
A quebra definitiva do vínculo entre o irmão mais velho agrega diversos problemas na vida de Conrad, provocando a tentativa de suicídio do jovem. Tentativa esta em vão, deixando-o a mercê dos incessantes conflitos interiores que não consegue dominar. Após muita resistência o garoto decide buscar ajuda profissional com o Dr. Berger (Judd Hirsch), psiquiatra indicado pelo médico que o tratou enquanto esteve internado.
O chefe da casa, Calvin (Donald Sutherland), não tem voz ativa. Homem excessivamente pacífico nas relações familiares e com amigos e conhecidos, muitas vezes cede diante das decisões da esposa, evitando atritos, geralmente necessários. Já a sua mulher Beth (Mary Tyler Moore) possui opiniões mais incisivas. Perante desconhecidos ela assume uma postura altiva, mantendo o controle das emoções, mas depois reporta o ocorrido de maneira rude ao esposo, podando a forma como ele se comporta na frente de terceiros, já que não tem problema em admitir que a sua família passa por uma má fase.
Em Gente Como a Gente, Redford expõe a fragilidade das classes abastadas dos EUA. Beth é o retrato fidedigno dessa elite de 'pequeno porte', que mantém as aparências a qualquer custo. Ela zela por uma distorcida imagem de esposa perfeita e de boa mãe, mas não passa de uma mulher futil, preocupada em viajar para a casa do irmão para espairecer, jogar golfe e perder o seu tempo em festas de conhecidos que desagradam Calvin. Desculpas para fugir da responsabilidade com o filho Conrad, já que a situação dele a amedronta, expondo assim a sua frieza em relação ao próximo, mesmo quando é uma pessoa da família.
O roteiro de Alvin Sargent, baseado no romance de Judith Guest, prima pela construção de diálogos que atingem a fundo o público, pela objetividade aliada à delicadeza do texto. Não bastasse o roteiro impecável, a atuação de Timothy Hutton - premiado pela Academia - também cooperou para o êxito da película vencedora do Oscar de Melhor Filme em 1980. As cenas em que Conrad exterioriza o seu sofrimento e nos fragmentos em que discute a sua situação com Dr. Berger, ele expressa lindamente as diferentes nuances de um jovem depressivo, desde os instantes de súbito desespero até quando tenta se desvencilhar de involuntária sensação de medo constante.
Gente Como a Gente não é apenas mais uma história que retrata o quão disfuncionais podem ser as famílias. Mérito do diretor Robert Redford ao incluir nesse drama elementos capazes de posicionar o público em relação às suas atitudes no âmbito familiar, e também de propiciar uma análise de suas vidas interiores, que se descuidadas podem refletir os danos mais íntimos externamente.
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