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26/10/2011 - 13h14 - Atualizado em 23/05/2012 - 15h22

Sobre solidão e morte

Por Melissa Panteliou, aluna do 2º ano de Jornalismo

Em “O Encontro”, Anne Enright trata de sentimentos comuns em uma intrincada história familiar

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Reprodução

Os Hegarty são uma família grande. Doze filhos de uma mãe cuja função na vida parece ser apenas procriar e cuidar da prole, completados por um pai rígido e um tanto ausente. E como em toda família, há histórias e memórias de infância que devem ficar guardadas para sempre.

Em O Encontro, da irlandesa Anne Enright, são máculas como essas que Veronica tem que enfrentar ao embarcar em uma viagem para recolher o corpo de seu irmão suícida, Liam, em Londres. Ganhador do Man Booker Prize de 2007, o sexto romance da escritora traz um texto furioso, que nos machuca por sua forma seca e despretensiosa.

Duas histórias coexistem na Dublin de tempo chuvoso. Veronica resgata lembranças da relação com seu irmão mais querido. As brincadeiras na casa sempre cheia de gente, as encrencas da adolescência e as primeiras mágoas. Ela aprende que nem sempre gostamos das pessoas que amamos, ou que temos que amar. Sua crise matrimonial e a falta de amor pelas filhas deixam-a em um buraco de solidão que só poderá ser superado com o enfrentamento.

Paralelamente, memórias, algumas não vividas por ela, mas contadas entre os Hegartys, reconstroem o encontro de Ada Merriman, sua avó, com o futuro marido Charlie. O passado, já enterrado há muito tempo, e o presente, dolorido e sufocante, estão ligados inevitavelmente. O casamento de Ada, a presença sempre constante do amigo do casal, Lambert Nugent e as férias com os netos em Brodstone são chave para entender o desfecho de Liam.

As duas histórias, ambas permeadas por cenas frias e escuras, se juntam para explicar a tragédia de uma família já cheia de desgraças. As personagens são comuns, quase estereótipos, mas sem o serem de maneira alguma. Os sentimentos são compartilhados, as mágoas são banais, as pessoas palpáveis. É exatamente desse poder de identificação que vem a força de O Encontro. A infelicidade da protagonista nos provoca, como se fosse a nossa própria.

A proximidade da morte e a perda das pessoas amadas vêm lembrar ao leitor que as tarefas cotidianas não são tão importantes como imaginamos. Enright nos propõe uma história sobre sentimentos sem cair no melodrama. Ao contrário, traz a tona o que pensamos, mas não temos coragem de pronunciar, uma realidade tão crua que chega a ser irônica. Sobretudo, O Encontro é uma história comum. Sobre Veronica, Ada, mas, principalmente, sobre todos nós.



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