Em "Contágio", Steven Soderbergh investe em elenco de peso, mas erra a mão ao empregar excessivo clima de tensão
Steven Soderbergh é um diretor com conquistas significativas. Logo no início da carreira foi responsável por Sexo, Mentiras e Videotapes, filme que chamou a atenção de Cannes por seu inigualável frescor. Em 2001 recebeu duas indicações na categoria de Melhor Diretor no Oscar (Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento e Traffic, longa que lhe deu a estatueta). A premiação não é dos melhores termômetros, mas serve para criar expectativa em torno dos novos trabalhos dos realizadores agraciados.
Com Soderbergh não seria diferente. Em Contágio ele aposta num drama que conta a história de um poderoso vírus que se prolifera, ameaçando a população mundial. Beth Emhoff, vivida por Gwyneth Paltrow, é a primeira vítima do que em um futuro próximo se tornará uma epidemia. Depois de constatado o seu óbito, muitos são recrutados para averiguar o caso e achar um antídoto que expulse o tão temido vírus. Novos rostos adentram a tela, é o caso de Cheever (Laurence Fishburne) vice-diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças nos EUA, a Dra. Leonora Orantes (Marion Cotillard), representando a Organização Mundial da Saúde e a corajosa médica Erin Mears (Kate Winslet).
Soderbergh investe na atmosfera realista, mas por outro lado distancia o espectador com histórias fragmentadas que destroem o ritmo da obra em sua totalidade, pela montagem e ritmo empregados, além da frieza das personagens. Excluindo as aparições do viúvo de Beth, Mitch Emhoff (Matt Damon), disposto a proteger a filha (a estreante Anna Jacoby-Heron) a qualquer custo, para que não seja infectada, os outros casos ou exploram a tentativa da salvação individual ou expõem o lado negro e subumano dos indivíduos.
Os momentos em que a população invade estabelecimentos em busca de alimentação é um claro exemplo da degradação humana. Como se não bastasse, alguns personagens são pedantes o bastante para agregar ainda mais pontos contra o filme. É o caso do jornalista Alan Krumwiede (Jude Law), que através de informações lançadas na internet chega à grande mídia para manifestar sua revolta contra o governo, por achar que omite da população a verdade e até mesmo a cura. Ao optar por essa roupagem, a personagem fica estigmatizada como um profissional inconveniente, munido de uma rebeldia por vezes constrangedora.
A trilha sonora não acrescenta, apenas importuna. Nos momentos em que Cotillard entra em cena, a música não contribui para a ambiência de tensão nas sequências de ação, - onde inclusive a reação das personagens e o timing dos diálogos estão presentes de modo mais dinâmico - somente torna o clima excessivamente carregado.
Os acertos estão concentrados em elenco invejável. Reunir Kate Winslet, Matt Damon e Marion Cotillard (todos vencedores do Oscar) é um grande atrativo. Destaque para atuação de Winslet, que ao descobrir a ameaça do vírus em seu sistema imunológico, sintetiza o desespero de Erin de forma arrebatadora e enquanto médica tenta manter a calma diante da certeza de sua morte.
O longa de Soderbergh tenta ofuscar brilhantes atuações, com uma protagonista muito presente, mas mal aproveitada: a tensão. Além do clima de medo pairar durante toda a obra, são adicionados outros elementos (montagem e trilha) para destacar ainda mais a sua incessante presença. Em Contágio, a hecatombe que coloca em risco a humanidade é coadjuvante se comparada à catástrofe em larga escala que é a soma das más escolhas para o filme, como o nome da fraca Gwyneth Paltrow em meio à competente elenco e exagerado enfoque na ambiência de pavor, que estaria melhor se aplicada nas entrelinhas.
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