Mais do que um grande guitarrista, Eric Clapton soube se reinventar para se manter como um dos grandes nomes da música
“Clapton é Deus”. Foi na metade da década de 1960 que começaram a aparecer grafitis nas ruas de Londres com essa afirmação. Mais de 40 anos depois, é fácil entender como o guitarrista recebeu essa alcunha, e porque 45 mil pessoas lotaram o Morumbi para vê-lo no feriado do dia 12 de outubro.
Basta olhar o currículo do guitarrista para perceber que não se trata de um qualquer. Introduzido três vezes no Hall da Fama do Rock and Roll; vencedor de 17 Grammys ao longo da carreira; eleito o quarto melhor guitarrista da história pela Rolling Stone e Gibson. Invejável, no mínimo.
Se existe uma explicação para o sucesso de Clapton, esta certamente é a constante inovação e abertura para novas influências, mas sem perder as origens blueseiras. Trata-se de um músico sempre disposto a exceder os limites, em busca das sonoridades mais variadas que possam sair das cordas de uma guitarra.
Ao analisar sua carreira, percebe-se a busca por evolução. Ele despontou com o Yardbirds, mas deixou a banda quando ela se afastou do blues e prol de uma sonoridade mais pop. No Cream, explorou ao máximo os limites entre o hard rock e o blues. O sucesso veio rápido, com seu nome sendo conhecido tanto nos EUA quanto no Reino Unido.
Junto do reconhecimento internacional veio também o grande desafio de sua carreira: o vício em álcool e drogas. A tensão cada vez maior entre os membros, resultado do abuso de entorpecentes, fez com que o Cream se separasse.
Mas paralelamente aos problemas, Clapton nunca deixou de evoluir como músico. A ascensão de Jimi Hendrix, com seu acid rock cheio de distorções e texturas, viria a influenciar bastante a técnica do guitarrista. Já fora do Cream, ele quis provar que conseguiria alcançar novamente o sucesso com outros músicos: surge assim o Derek and the Dominoes.
Baseada no blues, a banda apresentava alguns elementos novos: é notável a existência de um certo componente progressivo nas músicas. Basta analisar Layla, o grande hit do grupo: a divisão em dois atos, com andamentos completamente distintos, dá o tom dessa nova fase do guitarrista.
O que mais Clapton poderia almejar em sua carreira? Talvez mostrar ao mundo um novo ritmo musical. E foi exatamente isso que ele fez: ao gravar uma versão elétrica de I Shot the Sheriff, em 1974, ele abriu as portas para o reggae jamaicano, antes restrito ao Caribe. Se Bob Marley tem o status de mito que lhe é atribuído atualmente, é graças à guitarra de Eric Clapton, que soube reconhecer o potencial daquela batida.
Mas se profissionalmente o guitarrista gozava de grande sucesso e prestígio, a esfera pessoal de sua vida passava por apuros. O vício em heroína e o alcoolismo passaram a influenciar negativamente sua carreira, com performances excessivamente psicodélicas e experimentais. O inferno astral parecia não ter fim, tendo como ápice a morte prematura de seu filho, após despencar da sacada de um prédio. Parecia o fim da carreira do “slowhand”.
Apenas parecia. Após um período afastado, Clapton voltou aos holofotes com o álbum MTV Unplugged, de 1992, aclamado pela crítica e público. Tears in Heaven, em homenagem ao filho morto, foi executada exaustivamente nas rádios, e o disco vendeu mais de 10 milhões de cópias no mundo todo.
De lá para cá, Clapton se manteve constante, gravando novos discos e cooperando com ícones da música. Depois dos altos e baixos, o guitarrista vive uma nova fase, em que sabe administrar as influências e apresentar um produto coeso, sempre calcado no blues que despertou as atenções do grande público ainda na década de 1960.
Com um repertório desses, compreende-se a multidão que foi reverenciá-lo numa noite fria de quarta-feira no Morumbi. Sem apelar somente para os hits, Clapton presenteou o público com o melhor do blues e do rock, com notas precisas e estilo discreto, dando espaço para os músicos de apoio. Não se trata de um guitarrista exercendo sua técnica, mas sim de alguém que quer compartilhar um pouco de boa música com outros entusiastas do blues. É essa humildade e vontade de oferecer o melhor que faz com que ele tenha tantos fãs. E é por isso que Clapton é Deus.
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