O Cemitério da Consolação abriga diversos monumentos importantes, que fazem parte da história do país
Logo na entrada, o portão monumental leva a um corredor demarcado por pinheiros altos e imponentes, antecedendo o amplo espaço, quase monocromático, mas rico em obras de arte e nomes participantes da história do Brasil e de sua cultura de maneira geral. Poderia ser o Museu Paulista da USP, ou até mesmo a Pinacoteca do Estado, mas não se trata de um museu. O silêncio constante e as cruzes não deixam esquecer: é um cemitério.
Inaugurado no dia 15 de agosto de 1858, o cemitério da Consolação foi a primeira necrópole de São Paulo, construída a partir da necessidade de acabar com o costume de sepultar os corpos no interior das igrejas, considerado solo sagrado, o que causava desconforto pelo mau cheiro e disseminava doenças epidêmicas. Após estudos sobre o melhor local, - na época, as terras no alto da Consolação ficavam longe da cidade - algumas terras foram doadas para completarem o terreno com a parte que já pertencia ao Estado, além da ajuda em dinheiro oferecida pela Marquesa de Santos, mais pra frente também sepultada no local, para a construção da capela.
Após surgirem outros cemitérios na cidade, como o do Brás e do Araçá, o da Consolação tornou-se elitizado e assim se consolidou por algumas décadas. Em 1901 começou a tornar-se presente a necessidade de uma reforma na área para que os muros e o portão fossem coerentes com as ricas famílias ali sepultadas. As mudanças ficaram na responsabilidade do arquiteto Ramos de Azevedo, que já em 1909 fez com que o cemitério da Consolação fosse um ponto turístico apreciado pela sua beleza e estética rebuscada.
Atualmente, o cemitério já não possui caráter tão elitizado, mas permanece como a necrópole mais famosa da cidade de São Paulo e referência por abrigar esculturas famosas e túmulos de famílias tradicionais do Estado. Entre os escultores encontram-se obras de Victor Brecheret como o Grande Anjo (1938) e O Sepultamento (1923) - considerada uma das obras mais bonitas do cemitério, e está no túmulo de Olívia Guedes Penteado, dona do palacete onde os artistas e intelectuais se encontravam. Levam destaque também as esculturas de Galileu Emendabli, como O Adeus (1953), obra em que a mãe acena com a mão, sendo levada pelo vento, enquanto o filho pequeno a observa junto com seu pai, que carrega um coração grudado em seu peito.
A primeira escultura que retrata o nu feminino, num momento de forte expressão do modernismo é a Nu Solitudo (1926), de Francisco Leopoldo e Silva, que em momento algum atinge o apelativo, sendo uma lírica expressão de sofrimento e solidão. Outros artistas reconhecidos com obras no cemitério são Nicola Rollo, Francisco Leopoldo e Silva e Bruno Giorgi.
O modernismo não está presente apenas na estética da arte como também nos literários e artistas sepultados. Entre eles estão Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. A tradição do cemitério como privilégio da elite faz com que também estejam presentes intelectuais e políticos, como Libero Badaró, Paulo Machado de Carvalho, Júlio de Mesquita, Roberto Simonsen, Campos Sales, Anhaia Melo, Washington Luís e outros.
O mausoléu da família Matarazzo é um ponto indispensável de visita, principalmente devido seu tamanho imponente. É o maior da América do Sul e sua altura equivale a um prédio de três andares. Com escritos em latim ao redor da construção, o mausoléu é adornado com quatro conjuntos de esculturas em pedra preta, levando o principal nome de Comendador Ermelino Matarazzo. Impossível de passar batido aos olhos e não causar surpresa e admiração.
As obras ultrapassam o limite contemplativo de um museu e passam o sentimento de dor e desespero das famílias. Elas representam a saudade e deixam registrada a importância e respeito que a família possui na sociedade através de materiais caros e túmulos suntuosos.
Reconhecida a importância histórica do cemitério, sua equipe de administração criou o roteiro Arte Tumular, em que visitas monitoradas contam dados históricos e apresentam as mais famosas obras de arte. As explicações ficam por conta do ex-coveiro Francisvaldo Gomes, apelidado de Popó, que aprendeu tudo com o historiador Délio Freire dos Santos, já falecido e responsável pelo início do levantamento artístico e histórico do local. O historiador possibilitou que algumas estátuas fossem tombadas por órgãos de preservação do patrimônio histórico.
Apesar da distância que se costuma tomar de cemitérios e o medo constante do homem frente à morte, visitar o cemitério da Consolação é entrar em contato com o passado, com o que deixaram para nós, e com o que deixaremos para quem está por vir. O silêncio definitivo abre portas ao grande dilema do ser humano que é justamente a única certeza que tem, contraditoriamente, na vida: a morte. E tudo isso, num museu a céu aberto.
Serviço
Cemitério da Consolação
Endereço: Rua da Consolação, nº 1.660
Telefone: (11) 3256-5919, 0800-109850 (agendamento de visitas monitoradas)
Horário: de segunda a sexta-feira, das 7h às 18h (visitas monitoradas das 9h às 14h)
Entrada gratuita
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