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08/09/2011 - 09h21 - Atualizado em 22/05/2012 - 14h08

Rodrigo Lacerda debate sobre publicação de livros

Por Mariana Janjacomo e Victor A. Bonini, alunos do 1º ano de Jornalismo

Fechando ciclo de palestras, escritor diz: “essa ideia de que o jargão é garantia de inteligência e brilhantismo intelectual é um engano.”

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Victor A. Bonini
Rodrigo Lacerda, durante a palestra “Uma crítica
da crítica literária”

A crítica literária ultimamente tem levantado questões quanto aos critérios no julgamento das obras, como uma resposta as pouco condizentes análises, que, em pleno século XXI, ainda vangloriam Machado de Assis e Clarice Lispector como imagens nas quais se devem espelhar. Frente a imposições tão imponentes, o medo de ser massacrado pelas críticas sufoca as novas ideias que movem os escritores nascentes. Logo, num processo cíclico, a literatura brasileira tende a diminuir o número de autores, os quais vêem-se subordinados a esses críticos.

É sobre isso que tratou Rodrigo Lacerda, na última palestra do projeto “Literatura e Cidadania”, que ocorreu na Casa das Rosas, em 18 de agosto. Pouco menos de uma hora e meia foi necessária para que o escritor apresentasse os principais vícios da crítica literária e também as imposições que ela cria sobre os temidos autores submetidos a esse julgamento. Tudo isso sem deixar de enfatizar: “A crítica literária é importante sim”, para que o leitor identifique, no acervo que lhe é exposto, os títulos de sua preferência.

Rodrigo Lacerda nasceu e cresceu rodeado por editores. Seu avô, Carlos Lacerda, fundou a editora Nova Fronteira enquanto vivo, criando uma tradição no ramo da escrita na família. Apesar de ter herdado a habilidade com as palavras, Rodrigo trilhou seu próprio caminho e publicou seus livros por outras editoras. Sua publicação mais recente, Outra Vida, foi lançada em 2009.

Após a palestra, Rodrigo concedeu uma entrevista ao Site de Cultura Geral, na qual abordou não só sua carreira literária, mas também sua formação como historiador e opinou sobre a situação atual da literatura no Brasil.

Outra Vida trata de um tema muito comum atualmente, que é a separação. Você faz um mergulho muito profundo nas personagens  e esse mergulho, que deveria ser particular, faz com que muitos se identifiquem. Você poderia contar um pouco sobre como foi isso?

Eu tinha uma dificuldade inicial, que acabou virando uma opção - e jogou água no moinho da universalização -, que é o fato das personagens não terem nome. Então, eu individualizo mergulhando na sua individualidade. Mas, por outro lado, não dando nome a eles, eu contribuo para que o leitor se identifique. É como se fosse um sinal para o leitor: pode se projetar aqui, pode ser você. Outro aspecto que contribui é que aquele livro retrata uma classe social muitas vezes órfã na literatura brasileira: a classe média - que, eu acho, já foi pior retratada. Mas de qualquer modo, acho que o fato de serem personagens dessa classe com os seus dramas cotidianos torna aquele livro muito receptivo a um público grande, porque são os dilemas que a gente vive. São coisas muito práticas, muito concretas e muito comuns na vida de todo mundo, então acho que isso contribui para que os personagens ganhem esse caráter universal, dessa forma muito específica.

Realmente, a impressão que se tem é a de que a classe média está sendo deixada de lado na literatura. O que você acha dessa representação ao longo da história?

Eu acho que nos anos 80, 90, havia uma espécie de neonaturalismo, que vai até os “cronicamente inviáveis” da literatura. Estou até citando um filme da época que se chama Cronicamente Inviáveis, cujo roteiro é de uma amiga minha, uma ótima escritora, mas tinha uma estética da miséria, em que a classe média não entrava. Eu acho que um grande preconceito contra ela, é que essa classe é vista como ideologicamente reacionária, politicamente conservadora, moralista, coisas do gênero. O curioso é que todo mundo diz que quer distribuir renda no Brasil. Agora: como distribuir renda sem criar uma gigantesca classe média? É isso que é desenvolver o país. A resposta não está nos miseráveis nem no topo da pirâmide social. Na minha opinião, o Brasil não consegue distribuir renda porque no fundo não se sente confortável produzindo uma gigantesca classe média.

Você acha que agora a classe média está ganhando mais visualização do que antes, exatamente pelo seu crescimento?

Eu acho que ela já tem sido tema mais vezes, mas o preconceito continua, embora ela tenha se fortalecido nos últimos tempos. Essa nostalgia dos anos heroicos da ditadura continua muito forte, sobretudo no meio intelectual.  Acho que nas sociedades humildes é até menos onipresente, mas no meio intelectual ela ainda manda muito e é um obstáculo para se alcançar a classe média.

Você falou na sua palestra que o lado bom do autor é poder fazer a personagem e ver os acontecimentos do ponto de vista dela. Em Outra Vida, você faz uma caracterização tão profunda que resulta em uma ausência de maniqueísmo. Você por acaso se espelhou em um caso verídico?

Bom, o que tem de autobiográfico ali é o fato de que eu sou do Rio, nasci no Rio e minha primeira esposa era daqui de São Paulo. Durante dois anos, nós namoramos via ponte rodoviária. Depois eu vim morar aqui em São Paulo, mas minha família continua lá, então eu continuo na ponte rodoviária até hoje. Por isso eu conheço muito bem aquele ambiente de rodoviária, eu conheço aquele cenário de dia, de noite, de fim de semana, de feriado, durante a semana, de todas as maneiras.  Eu realmente quis que o livro não tomasse partido, especificamente no caso do marido: eu queria que ele fosse um corrupto, mas não um corrupto que nós pudéssemos apontar o dedo confortavelmente e dizer: esse cara é escroto, corrupto. Eu queria que a gente se misturasse com a história dele e disesse: é, acho que eu, na posição dele, talvez aceitasse esse dinheiro também. Eu queria que houvesse essa empatia até mesmo com ele. Mas também não queria transformá-lo numa vítima, porque ele comete de fato os seus crimes, muito mais do que a mulher, por exemplo, embora ela não seja um personagem tão simpático. Eu acho que ela ainda desperta muita rejeição.

Às vezes pelo machismo?

Acho que sim.

Ainda levando resposta do público em conta: em seu primeiro livro, O Mistério do Leão Rampante, você trata Shakespeare de uma forma muito diferente da ideia que se tem não só dele, mas dos renascentistas em geral. Então, na verdade, você acaba quebrando um mito. Como foi a resposta do público a isso?

Foi boa. O Mistério do Leão Rampante é um livro que nasceu virado pra Lua, deu tudo certo. Ele e O Fazedor de Velhos tiveram a melhor repercussão de toda minha carreira. No caso do Shakespeare, foi o seguinte: eu nunca tinha escrito nada na vida e já era fissurado por ele. E se você for reparar, nas duas primeiras páginas do livro eu só fico falando mal dele. Era uma maneira de eu me despojar das travações e dos pré-requisitos “intelectualóides” e abordar mesmo um mito cultural - como é o Shakespeare - de uma maneira absolutamente íntima e direta, porque era uma maneira de eu me liberar para escrever, tirar a coisa pomposa da frente, rebaixar para poder dialogar de igual para igual com o personagem.

Foi uma éspecie de brincadeira com a história, então? Como foi esse processo?

O livro surgiu quando eu estava em um curso, ao final da graduação de História, que falava sobre as fronteiras entre Literatura e História. E o curso punha em questão: que ciência é essa, em que o período colonial, visto por um historiador marxista, é uma coisa, por um historiador católico é outra, por um historiador positivista é uma terceira, e assim por diante? Que ciência é essa que, dependendo do cientista, sai um resultado diferente? Em que medida ela não é também um discurso construído como a ficção, porém construído sob a alegação da veracidade, enquanto a ficção é assumidamente invenção? O exercício do final do curso era pegar o tema da nossa tese e transformar em conto, e foi assim que surgiu O Mistério do Leão Rampante, porque o tema da minha tese era uma análise do teatro renascentista. Aí comecei a escrever e não parei mais.

Foi daí que você tirou a linguagem setecentista que você usa?

Foi. Na época, como eu estava estudando História, eu fazia um pouco de iniciação científica com uma pesquisadora e para o trabalho dela, eu lia muitos documentos do século XVIII. Então, cenas do livro, como a do exorcismo, surgiram de documentos nos quais eu via um monte de termos, um monte daqueles feitiços - ela estudava religiosidade no Brasil colônia. Tirei dos documentos até o uso da palavra energúmeno, que para mim sempre foi um bobo, um idiota. Na época, energúmeno era o endemoniado.

Falando em história: hoje em dia nós vemos uma febre que é a dos livros de literatura histórica, como, por exemplo, as obras de Laurentino Gomes. Às vezes, a impressão que se tem é a de que compram o livro não pela história, mas sim por algumas curiosidades, até mesmo pelo humor. O que você acha disso, desse fenômeno?

Eu acho muito bom, porque é sinal de que primeiro, existe um interesse, uma demanda por mais conhecimento da história do mundo. E, segundo, que a história deixou de ser apenas um discurso acadêmico; escritores como Eduardo Bueno e Laurentino Gomes podem escrever livros de história sem estar falando de dentro da Academia e sem ter rigor, e ao mesmo tempo, entreterem. Porque eu acho que a história pode ser um entretenimento também, sem que necessariamente haja perda de rigor autêntico. Acho um fenômeno extremamente positivo. Sobretudo livre do toldo acadêmico, porque essa ideia de que o jargão é garantia de inteligência e brilhantismo intelectual é um engano.

O que chama a nossa atenção, é que sua família é dona de uma editora (Nova Fronteira) e, mesmo assim, seu primeiro livro foi o título inaugural de outra editora, a Ateliê Editorial. Por que essa decisão?

Quando eu escrevi O Mistério do Leão Rampante, eu estava trabalhando na editora da Universidade de São Paulo e o Plínio Martins, que é o dono da Ateliê Editorial, era o meu colega. Eu tinha os originais e pedi a opinião dos meus amigos, sem nenhuma perspectiva de publicar. Aí ele leu e falou assim: “eu sempre tive o sonho de abrir uma editora minha, mas nunca tinha visto o livro que me dissesse: ‘é esse o livro’. Você gostaria de ser o autor do livro que vai abrir minha editora?”. Eu fiquei orgulhosíssimo e até hoje somos super amigos. Esse negócio de publicar livros pela editora da minha família é um problema, porque se eu publico, dizem que é nepotismo, que o livro não tem valor, que eu publiquei porque a editora é da família. Se eu não publico, aí todo mundo acha que eu sou a ovelha negra, que eu briguei com a família inteira, então não tem escapatória. Eu vim morar em outra cidade, em uma cidade onde a minha família não é tao importante quanto no Rio (mesmo no Rio talvez não seja mais tanto), mas lá pelo menos meu pai ainda é uma pessoa muito conhecida, meu avô ainda é um nome que muita gente conhece. Você anda pela cidade, tem a Rebouças: meu avô que fez... Eu saí de lá e vim morar aqui onde eu não tinha esse amparo. Eu tive que terminar a faculdade, procurar emprego, foi então que eu fui trabalhar na editora da USP e comecei minha vida profissional. Logo, não é só que o livro não saiu pela editora, foi uma opção biográfica minha de talvez provar para mim mesmo que eu podia ser alguma coisa na vida sem depender tanto desse amparo, dessa coisa da família. Foi uma aposta. E é como diz aquela música dos Rolling Stones, maravilhosa: você pode não conseguir tudo o que você quer, mas se você tentar de vez em quando, você descobre que você consegue o suficiente.

Na palestra, você disse que uma pergunta que geralmente é feita e alguns escritores receam responder é: "qual é o clássico literário que você odeia?’’. Lá vai: qual é o clássico que você odeia?

Veja, eu dizer que odeio não quer dizer que eu não reconheça a importância, mas quer dizer que o livro não tem eco emocional dentro de mim. Eu percebo a importância racionalmente, mas um clássico, daqueles que ninguém tem coragem de admitir, é o Kafka. Eu reconheço a genialidade da coisa, mas é um entendimento intelectual, eu não tenho ligação emocional com nenhum daqueles livros. Nunca nenhum deles me arrebatou. Então eu lamento muito, porque eu sei que é um grande escritor, mas comigo não mexe.



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