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30/08/2011 - 10h43 - Atualizado em 18/05/2012 - 00h09

Negação e resistência

Por Welington Andrade

Novo trabalho de Denise Stoklos trata da inconformidade humana

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Thaís Stoklos
Com Preferiria não?, Denise Stoklos dá
continuidade ao “teatro essencial” que
desenvolve há mais de duas décadas

Tão despojado quanto perturbador em sua aparente simplicidade, Preferiria não? - o espetáculo-solo de Denise Stoklos (em cartaz no Teatro Anchieta do Sesc Consolação até o dia 18/09) - abala nossa convicção nos mais bem-intencionados discursos, infirmando o mundo das condutas e dos sentimentos burgueses a ponto de torná-lo exangue. A peça, baseada na novela Bartleby, o escrivão, do escritor norte-americano Herman Melville, é o veículo ideal para que a atriz, diretora e dramaturga paranaense exerça o “teatro essencial” ao qual vem se dedicando com ímpeto luminoso desde 1987 - uma arte em que ator e espectador partem juntos em busca da substância, do cerne, daquilo que constitui a natureza própria das coisas.

Bartleby é uma narrativa redigida em linguagem clara que abre mão de sobressaltos e de efeitos espetaculosos, a fim de tratar seu tema com a mais absoluta serenidade. Nela, um advogado nova-iorquino consciencioso conta, em primeira pessoa, a insólita história do jovem escrivão a quem oferece emprego e que, aos poucos, se recusa a desempenhar qualquer tarefa mediante o uso reiterado da frase: “Acho melhor não”.

Embora tenha sido escrita em 1853, a curta novela de Melville parece tratar da sociedade capitalista neo-liberal em que vivemos hoje, onde o arbítrio e a violência se disfarçam, nos mais variados mecanismos discursivos, de escrúpulo, bom-senso e ponderação. Chama a atenção o fato de o advogado não assumir integralmente sua condição de personagem, optando antes por constituir uma voz narrativa que contamina toda a matéria narrada. Assim, o conteúdo das considerações que faz a respeito da singular ocorrência em que se vê envolvido se cristaliza rapidamente e toma a forma de um acordo tácito entre ele e o leitor, a quem não resta alternativa senão partilhar dos mesmos juízos inquestionáveis. 

O narrador-advogado, que trabalha como intermediário de transações financeiras, adota a conduta típica dos representantes de sua classe. Trata seus funcionários na base da camaradagem, raramente perde a paciência com eles, comove-se e se desconcerta com relativa facilidade e usa de tempos em tempos as bóias que o cristianismo oferece aos homens a fim de que eles não naufraguem no mar de sua própria barbárie: as palavras caridade e compaixão. Naturalmente, aqui e ali, ele deixa escapar boas doses de escárnio e desfaçatez - seja constatando que para alguns homens a prosperidade faz mal, seja admitindo que, se houvesse algo de humano em Bartleby, ele o teria demitido. Mas sua obrigação moral com a humanidade acaba falando mais alto, e o estado de fraternal melancolia em que se vê envolvido não o deixa esquecer que tanto ele quanto seu funcionário são filhos de Adão.

Se do ponto de vista desta ética cristã - a qual o capitalismo sempre procura dar a mais retumbante publicidade - a prática de tais valores elevados faz sorrir os indivíduos de boa índole e chorar as pessoas de sentimentos, sob a ótica das relações econômicas, tudo se passa mesmo na base da fixação do preço das coisas, e dos homens. O narrador não se furta a dizer que releva os defeitos de seus funcionários e os aborrecimentos que lhe causam porque eles lhe são úteis, admitindo serenamente que Bartleby - esquálido e sem dinheiro, embora assalariado - revelou-se para ele uma valiosa aquisição. É deste modo que as necessidades ligadas ao mecanismo da produção capitalista passam a prevalecer sobre todas as outras considerações, fazendo com que o solidário empreendedor assista a sua melancolia se transformar em medo e sua compaixão em repulsa. E tema, por fim, que um homem tragicamente disposto a não trabalhar triunfe sobre ele.

É a partir dessa matriz literária instigante que se estrutura Preferiria não?, uma leitura cênica na qual se misturam as vozes do narrador de Bartleby e da própria performer em um fascinante exercício de correspondência entre a palavra literária de outrora e a experiência do teatro de hoje. A experiência de Denise Stoklos como uma artista brasileira nascida em 1950 e seu testemunho das coisas vividas pelo País desde então são a base da teatralidade conjugada à idéia de resistência que ela desenvolve com maestria, concebendo um repertório de mais de vinte peças do qual fazem parte Mary Stuart, Vozes Dissonantes e Desobediência Civil.  

Quando o ator do teatro essencial se põe a explorar as forças catalisadoras da vida em sociedade, questionando os valores e os anti-valores que pautam as relações humanas, ele necessariamente torna reversível o par ética/estética, penetrando fundo no tecido vivo da política.

Ao tentar compreender a opção metafísica de Bartleby pela negação (para Heidegger, o “não” exprime a limitação fundamental da existência), Denise Stoklos desenvolve, solitária e independentemente no palco, sua resistência aos antivalores que estão aí, transformando-se diante do público no mais fiel aliado do escrivão, em espírito e matéria. (A cena do desamparo do personagem na cadeira de rodas - que remete, dentre outras tramas, à morte da mãe da atriz - é de uma intensidade comovente). De um lado, a resistência proposta pelo espetáculo é tema mesmo do discurso da performer, que critica a insidiosa racionalização a que somos submetidos e que nos leva ao mundo da falsa consciência, por meio da qual diluímos responsabilidades, disfarçamos privilégios, sonegamos direitos. De outro lado, a resistência surge como forma: paralelamente à narração da história do advogado inebriado pela beleza de sua própria conduta, a atriz se lembra de muitos fatos noticiosos dos quais acentua seu caráter de indisfarçável parcialidade.

O abuso do discurso factual poderia conduzir as críticas feitas por Denise em direção a um insulamento auto-indignado, à condição de artista engajada em sua própria fúria contestadora, risco do qual, felizmente, parecem afastá-la as potências do conhecimento de que ela tão bem faz uso em cena: a intuição, a imaginação, a percepção e a memória.

Em sua longa trajetória profissional, Denise Bartleby Stoklos preferiu não fazer telenovelas, musicais importados e nem comédias stand-up, todas elas formas rígidas nas quais os atores se submetem ingenuamente ao princípio capitalista do desempenho. (A sujeição dos artistas é benéfica à força vital do discurso tecnocrático da produtividade serial e mecânica). Não há dúvida de que o campo simbólico atravessa modernamente uma crise. E é contra o monolinguismo reinante, fruto desta crise, que o teatro essencial vai se insurgir, propondo novos paradigmas de invenção, representação e valor.

Ao retirar da prateleira uma narrativa mergulhada em sua temporalidade própria e fazê-la conviver com o tempo histórico atual, ao conceber uma linguagem corporal-sinestésica absolutamente inventiva - em franco diálogo com o melhor de nossa tradição cômica - e ao tratar a cultura como meio e não como fim, Denise Stoklos abraça a vida verdadeira. Como experiência ficcional, o teatro essencial resiste ao logro. Assim, Preferiria não? liga os fios de duas rematadas mentiras (o teatro e a literatura) a fim de se revelar o lugar da verdade mais penetrante. 

Welington Andrade é doutor em literatura brasileira pela USP e professor do curso de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero.

Preferiria, não ?

Sextas e sábados, às 21h
Domingos, às 19h
(Excepcionalmente, não haverá apresentação no dia 11/09).
Teatro Anchieta - Sesc Consolação
Rua Dr. Vila Nova, 245 - Vila Buarque - São Paulo - SP
CEP 01222-020
Tel. : 3134-3000

email@consolacao.sescsp.org.br
http://www.sescsp.org.br/



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