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23/08/2011 - 19h43 - Atualizado em 20/05/2013 - 23h30

A felicidade guerreira

Por Andrea Tolda, aluna do 1º ano de Jornalismo

No segundo dia do Ciclo de Cinema "O Negro Brasileiro", foi debatido o resgate da importância histórica de Zumbi dos Palmares a partir do filme "Quilombo"

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Norberto Iovasso Júnior
O aluno Rodrigo Luis fala  ao lado do professor
Claudio Arantes, do ator Eduardo Silva e do docente
Irineu Guerrini

“A felicidade do negro é uma felicidade guerreira”. Essa afirmação, que parece definir com maestria o papel do negro na sociedade contemporânea brasileira, foi tirada de uma das músicas da trilha sonora de Quilombo (1984). Dirigido por Cacá Diegues, o filme foi a segunda das seis obras cinematográficas que serão apresentadas ao longo desta semana no 9ª ciclo de Cinema de Cultura Geral.

A exibição dos filmes, que têm como objetivo provocar o debate sobre a forma como o negro brasileiro é retratado nas produções cinematográficas nacionais, contou hoje na mesa dos debatedores com a presença dos professores Irineu Guerrini Júnior e Cláudio Arantes, ambos docentes da Cásper Líbero,  e do aluno do 4º ano de Jornalismo, Rodrigo Luis da Silva. Além deles, a sessão teve um convidado especial - o ator Eduardo Silva, que faz o papel de Camuanga no filme.

Arantes e Luis apressaram-se em destacar a importância do tema escolhido por Cacá Diegues: a resistência negra no Quilombo de Palmares, recuperada em um período conturbado da história brasileira, com o movimento pelas eleições diretas tomando as ruas do país e o último governo militar ainda no poder. “O Brasil fez uma resistência semelhante [a Palmares] no momento das Diretas Já”, comentou Rodrigo.

Guerrini discorreu a respeito da filmografia de Cacá Diegues, chamando a atenção para o fato de que cinco dos seus 31 filmes tratam da temática afro-brasileira. Claudio Arantes, por sua vez, creditou esse interesse à clara influência do pai do diretor, Manuel Diegues Júnior, sociólogo de renome e de envergadura comparável a de Gilberto Freire. Ainda sobre o filme, o professor Irineu chamou a atenção para a belíssima trilha sonora, escrita e dirigida por Gilberto Gil.

Eduardo, cujo papel mais conhecido foi o Bongô do extinto programa Castelo Rá Tim Bum, deixou claro que, mesmo passados 27 anos da filmagem, todas as lembranças ainda estão intactas. Perguntado sobre o ambiente da cidade onde o filme foi rodado (o bairro fluminense Xerém),  ele relatou com entusiasmo o convívio com os outros atores e citou a usina de criação de figurinos e cenários como uma das engrenagens mais impressionantes criadas para dar estrutura ao filme. “Eu via todos os dias cinco mil pessoas sendo maquiadas”, revelou o ator.

A plateia levantou questões importantes sobre a inserção do negro na indústria do entretenimento. Eduardo disse enxergar uma mudança significativa no ambiente de trabalho atualmente. Há 30 anos, no começo de sua carreira, havia apenas um negro em cada novela desempenhando papéis secundários, “e se o papel do escravo ou da escrava fosse muito bom pegavam um mulatinho, um branquinho para fazer”.

Ele chamou atenção inclusive para o fato de que os papéis anteriormente destinados aos negros, como o de bandido, por exemplo, estão parando nas mãos de artistas brancos por medo de uma possível reação contrária do movimento negro.

Aliás, o movimento em si ocupou bastante tempo da discussão. Na época do lançamento, recordou-se Eduardo, o movimento foi contrário ao filme, entre outros motivos pelo fato de que Quilombo participaria do festival de Cannes, pelo qual foi indicado à Palma de Ouro. O longa não apenas foi exibido na cerimônia francesa como também participou e foi premiado em outros dois festivais: o XXIV Festival de Cinema de Cartagena (Colombia) e o Festival de Miami (EUA), ambos em 1984.

Embalados pelo gancho histórico do filme - a luta pela abolição da escravatura -, os debatedores ainda falaram do descaso com os negros quando a Lei Áurea foi assinada. Claudio Arantes destacou o desamparo e desassistência oferecidos a essa nova população de homens e mulheres livres, dos quais apenas as mulheres conseguiam emprego como domésticas nas residências dos brancos. A figura do negro malandro brasileiro deve muito a esse descaso histórico.

Em contrapartida, como lembrou Rodrigo, os imigrantes estrangeiros, que chegaram ao Brasil contemporaneamente à abolição, receberam terras férteis para assentarem-se e começarem a sua produção. Essa diferença ajudou a criar o abismo entre negros e brancos que, pouco a pouco, os movimentos sociais buscam aterrar.

Nesta quarta-feira, serão exibidos Preto contra Branco (2004), de Wagner Morales, e Carolina (2003), de Jeferson De. As sessões também começam às 12h30 na Sala Aloysio Biondi e, em seguida, haverá debate com a aluna Fernanda Pestana, do 4º ano de Jornalismo, e com os professores Marco Vale, Sônia Castino e José Augusto Dias Jr.