Café Filosófico de agosto discute a afinidade entre Nietzsche e a música
“A vida sem a música é simplesmente um erro, uma tarefa cansativa e um exílio”, disse certa vez Friedrich Nietzsche em um dos seus célebres aforismos. E foi exatamente sobre a frutífera relação entre a música e o pensamento do filósofo alemão que o Café Filosófico, realizado na Faculdade Cásper Líbero, no último dia 10 de agosto, se debruçou.
Para discutir o assunto, estiveram presentes Vânia Dutra de Azeredo, mestra em Filosofia pela UFRGS e professora da PUCCAMP, Mônica Aiub, graduada em Música pela UNESP e mestra em Filosofia pela UFSCAR, e Mauro Araujo de Sousa, pós-doutor em Filosofia pela UFSCAR e professor da Faculdade Cásper Líbero.
Lembrando da grande influência de Schopenhauer no primeiro momento da obra de Nietzsche, a professora Vânia de Azeredo ressaltou a importância que os dois filósofos davam à música como forma de arte.
Para Schopenhauer, o mundo podia ser dividido em duas instâncias: a da representação, na qual “só percebemos a realidade no tempo, no espaço e a partir da causalidade, sem jamais poder vê-lo como ele é em si mesmo”, e a da vontade, que se situa além daquilo que podemos captar. Logo, “a música permitiria adentrar este mundo como coisa em si, não como representação”, destacou.
Tal pensamento teve substancial importância nas ideias de Nietzsche, que em O Nascimento da Tragédia, ou Helenismo e Pessimismo o transformou em dois impulsos fundamentais e antagônicos: o apolíneo e o dionisíaco. O primeiro representa a forma, o belo, a própria palavra, enquanto o último remete à embriaguez, ao romper das barreiras, à música, e por fim ao conceito do unoprimordial, que é “a aproximação entre o mundo da representação e o da vontade”. Desta dualidade entre a palavra e a música surge a tragédia grega, considerada por Nietzsche a arte suprema.
De acordo com Vânia de Azeredo, Nietzsche compara a relação entre estes dois impulsos artísticos na cultura grega com a duplicidade dos sexos, “cuja alternância é geradora de uma nova compreensão e produção artísticas”.
“Nietzsche sempre vai considerar o caráter primordial, especial, visceral da música, justamente por ela ultrapassar a medida e lançá-la no que ele chamou de unoprimordial, que é a aliança entre os homens e o todo, entre os homens e eles mesmos”, comentou a filósofa.
Para Mauro Araujo, enquanto “o apolíneo estonteia numa beleza plástica”, também existe o impulso dionisíaco, que se manifesta “na musicalidade, na nossa fala, no nosso fluxo sanguíneo”.
De acordo com o professor, a mudança constante, o devir, são partes essenciais de nossas vidas. “Nós sabemos cantar, tocar. A vida não é uma linha reta. O que seria algo para além de uma dualidade? Seria uma unidade? Para além da parte, seria o todo? E o que seria algo para além do todo?”, provocou.
A filósofa e musicista Mônica Aiub destacou a influência da música em nossos “estados mentais”, que são os nossos pensamentos, sonhos e emoções, que pode até culminar em mudanças orgânicas.
“Quando Stravinsky compõe A Sagração da Primavera, ele produz algo muito diferente daquilo que é o esperado em termos de condução da música”, comenta Aiub. “Quando a música provoca esse inesperado, o nosso cérebro se movimenta. A aprendizagem é a realização desta capacidade de modificação. O nosso cérebro se desenvolve em determinadas regiões diante da música, em especial diante da que provoca movimentos inesperados.”
“Nietzsche considerava a música como a arte dionisíaca por excelência, justamente por provocar estes movimentos”, explicou.
Após o término da fala dos palestrantes, o público pôde colocar suas dúvidas e opiniões sobre o assunto. No debate, ainda foram discutidos temas como a musicoterapia, a influência apolínea na música e a importância do pensamento de Nietzsche na análise do cancioneiro popular.
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