Musicais que utilizam canções como peça fundamental da narrativa, promovem mudanças na linguagem dos filmes do gênero
Filmes musicais nos remetem às fórmulas que dificilmente desagradam o público. Canções acompanhadas de coreografias e performances que arrebatam o espectador, pela dinâmica empregada nas cenas e grandeza de boa parte das produções do gênero. Entretanto, algumas obras fogem desse padrão, utilizando esses artifícios para outras finalidades - às vezes até os dispensando.
No clássico Os Guarda-Chuvas do Amor (1964), de Jacques Demy e de Canções de Amor (2007), de Christophe Honoré, as músicas falam por si só, sem pedir auxílio a números de dança, sapateado e afins. Já em Dançando no Escuro, há inspiração nos sucessos de outrora, mas com a imponente marca Lars Von Trier.
Cantoria incessante
Os Guarda-Chuvas do Amor conta a história de Geneviève Emery (Catherine Deneuve), uma adolescente sonhadora e romântica, responsável por ajudar a mãe em seu estabelecimento: uma loja de guarda-chuvas. A jovem namora Guy Foucher (Nino Castelnuovo), rapaz humilde que trabalha como mecânico. Madame Emery (Anne Vernon) não vê futuro no relacionamento da filha, mas o destino conspira a seu favor, pois Guy é intimado a integrar a equipe do serviço militar. Com o passar do tempo os dois se afastam e as suas vidas se transformam drasticamente.
A única coisa que não muda durante toda a narrativa é o fato das personagens cantarem até nos diálogos mais pueris. Muitas das canções imprimem de modo fidedigno a oscilação de emoções na história de Demy, mas ao mesmo tempo fadiga o espectador quando traça um rumo pouco diversificado, a partir do momento em que o filme avança.
A estrutura inovadora tornou o filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em 1964, ganhando de Deus e o Diabo na Terra do Sol, marco do Cinema Novo com direção de Glauber Rocha. Os Guarda-Chuvas do Amor prima pela delicadeza no tratamento das emoções particulares das personagens, expondo desde a devastadora solidão de Geneviève com a partida de seu amado até a infindável angústia alimentada pela ausência de notícias dele. Premiada e reconhecida por empregar música de uma forma incomum em relação a outros longas do gênero, a obra é até hoje um dos diferenciais do cinema francês.
Poética irresistível
Realizadores de tempos idos são constante influência para os de hoje em dia. Não é novidade que Christophe Honoré se inspira nos grandes gênios da nouvelle vague, mas em Canções de Amor, existe certa influência do filme de Demy, expondo numa abordagem mais atual as aflições de suas personagens. O musical de 2007 discute questões como perda, descoberta de uma nova identidade sexual e entrega a um amor necessário para a cura de nossas tragédias interiores, tão comuns nos tempos modernos.
No início a história mantém o foco no relacionamento entre Ismael (Louis Garrel) e Julie (Ludivine Sagnier), que agrega Alice, interpretada por Clotilde Hesme, como nova integrante, formando assim um triângulo amoroso. Mais tarde, devido a um triste episódio, Ismael precisa encarar mudanças e uma reviravolta acontece em sua vida com a chegada do bretão Erwann (Grégoire Leprince-Ringuet), trazendo novas perspectivas, ao incitá-lo a experiências nunca antes vividas no âmbito sentimental.
A forma poética como as canções são introduzidas na narrativa, a singeleza das personagens e o modo contido, sem alarde, com que Honoré conduz a história são apenas algumas das razões pelas quais o filme é implacável quando se trata do vínculo entre espectador e obra.
Aqui o diferencial se encontra nas músicas, por elas estarem intrinsecamente ligadas à narrativa (como se fossem extensões dos diálogos), oferecendo novos tons aos cenários, tanto nas cenas internas quanto externas e expondo outra faceta das personagens, pois as canções servem de fio condutor do que está por vir, já que soam como breves discussões e declarações dessas figuras que representam uma Paris contemporânea.
Canções de Amor nasceu graças às músicas antes concebidas por Alex Beaupain. Responsável pelas trilhas dos filmes de Honoré, o diretor não titubeou ao pedir autorização para utilizar parte do material produzido pelo compositor. O resultado foi a realização de um pequeno e notável filme, capaz de se agigantar devido às suas irresistíveis canções.
Quebrando regras
Uma inusitada e conflituosa parceria entre a cantora islandesa Björk e o diretor dinamarquês Lars Von Trier resultou em Dançando no Escuro, musical que 'desobedece' algumas regras estipuladas pelo Dogma 95, movimento criado por Thomas Vinterberg e pelo próprio Von Trier.
No longa, Selma (Björk) possui uma doença genética, que a priva de boa parte da visão. A operária junta uma quantia em dinheiro para que o filho sofra um tipo de intervenção que o livre de passar pelo mesmo problema. Porém, ela começa a duelar com imprevisibilidades e se vê condenada à pena de morte. Mesmo nessa situação, prefere utilizar o dinheiro a favor do filho Gene (Vladan Kostig).
Colocar música no filme o exclui do Dogma 95, já que é proibida trilha sonora que não seja captada no momento das filmagens. Von Trier também rompe com as normas na cena em que Björk canta próxima a um trem, pois filma com mais de 100 câmeras - todas fixas - além de usar iluminação artificial nos fragmentos musicais. Mas não é apenas por quebrar as rígidas regras do movimento que Dançando no Escuro estabelece o seu diferencial.
Selma é uma mulher inventiva e adora os musicais hollywoodianos - inclusive Björk canta uma versão de My Favorite Things, originalmente do longa A Noviça Rebelde. Os momentos em que solta e voz e dança não passam de devaneios sofridos por ela. É como se os números musicais fossem independentes da narrativa principal do filme, pois servem apenas para permear os instantes de fuga da severa realidade que Selma encara. Fato é que as cenas musicais colaboram para a quebra do clima excessivamente dramático, criando assim um ritmo diferente para a história, nesses instantes especificamente.
Ao contrário das produções francesas citadas, Dançando no Escuro faz uso de números de dança e se inspira em musicais clássicos para a criação do universo da protagonista, mas com a direção de Lars Von Trier tudo aparenta estar além da média, causando comoção e primando pela originalidade, mesmo quando usa referências. Prova disso é que assim como Jacques Demy, Lars Von Trier ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em 2001. E Björk também não saiu de mãos abanando, pois foi agraciada com o prêmio de melhor atriz.
Nenhuma das obras expostas possui músicas originais famosas, números de dança e personagens que inspiraram visages e figurinos em produções da atualidade. Mas o modo como os elementos são empregados nos longas, torna-os inovadores e permite que o público reflita a respeito de sua narrativa e da linguagem de seu realizador.
Sem Demy e Honoré talvez o cinema francês não exalasse o romantismo de maneira tão singela. E sem Von Trier, não ficaríamos tão apalermados diante de tamanha genialidade na condução de seus filmes. Musicais atípicos, mas marcantes justamente por se esquivarem a todo custo do convencional.
Comentários Postados
Excelentes dicas! Não conheço nada de musical, vou usar sua listinha. Grande beijo,
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