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28/06/2011 - 18h51 - Atualizado em 22/05/2012 - 14h47

Quebrando o silêncio

Por Itamar Montalvão, aluno do 1º ano de Jornalismo

Documentário incita discussão sobre a relação entre drogas e sociedade

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Reprodução
Fernando Henrique Cardoso em cena
de Quebrando o Tabu, documentário do
qual fez o argumento

A discussão acerca da descriminalização do uso de drogas - tema particularmente espinhoso no Brasil - em geral acaba empacando nas abordagens religiosas, morais e comportamentais. Isto é, naquelas em que não cabe uma argumentação racional por estarem diretamente ligadas às convicções pessoais dos interlocutores e, portanto, carregadas de paixão.

Um dos méritos de Quebrando o Tabu, documentário concebido e dirigido pelo cineasta Fernando Grostein Andrade e conduzido por outro Fernando (o Henrique Cardoso) é deixar a emoção de lado e dar ao espectador uma bateria de dados objetivos e informações científicas relevantes sobre o tema. O filme parte da tese de que é melhor para as sociedades tratar os usuários de drogas do que trancá-los em um presídio.

A benção, entretanto, também se converte em maldição na medida em que o diretor aborda um tema tão complexo sob a perspectiva de apenas um dos lados envolvidos. Para os mais críticos, isso pode comprometer a formação de opinião e dar ao filme um caráter muito mais panfletário do que documental.

O diretor parte da premissa de que nunca houve um período sequer na história da humanidade sem a presença das drogas. Desde tempos imemoriais, o homem faz uso de substâncias entorpecentes para os mais variados propósitos. A conclusão lógica disso é que, se nunca houve um mundo sem drogas em centenas de milhares de anos, nunca haverá no futuro. Assim, seria necessário que os Estados modernos definissem uma política realista de combate às drogas de maneira a salvar recursos financeiros e, sobretudo, humanos.

Dados mostrados no documentário demonstram que a política anti-drogas em vigor é um completo fracasso. Iniciada em 1971, durante o governo do presidente norte-americano Richard Nixon, a chamada “Guerra às Drogas” custou trilhões e trilhões de dólares, além de incontáveis vidas humanas, sem atingir o objetivo utópico de eliminá-las da face da Terra.

Percorrendo países como Estados Unidos, França, Holanda, Brasil, México e Colômbia, Fernando Henrique Cardoso, que hoje preside a Comissão Global de Política Sobre Drogas, analisa os diferentes modelos adotados para tratar a questão, propondo a discussão a partir dos resultados obtidos por cada um deles. Depoimentos de Bill Clinton, Dráuzio Varella,  Gael Garcia Bernal, entre outros, reforçam a obsolescência da política atual ao mesmo tempo em que propõem os caminhos para um futuro de paz.

Em uma de suas primeiras aparições no filme, FHC afirma que errou ao não tratar
do tema como deveria durante o período em que foi presidente (1995-2002). Assume que na época não tinha as informações de  hoje: “apenas um idiota não muda suas opiniões”. 

Aos 80 anos de idade, o ex-presidente poderia estar viajando o mundo dando suas palestras, lendo seus livros ou escrevendo tantos outros, além de cuidar dos bisnetos. Ao liderar o debate mundial em torno de um tema complexo (e antipático para muitas pessoas), o sociólogo demonstra sua crença num futuro com menos mortes por dependência química e suas doenças correlatas ou pelo tráfico armado.

Quebrando o Tabu acrescenta muito pouco ao debate propriamente dito. Mas é uma produção corajosa ao provocar a discussão sobre as drogas, algo impensável em nosso país até pouco tempo atrás.

 



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