Repleto de citações da cultura pop, “Apenas o Fim” agrada jovens espectadores
Não raro, inúmeros críticos taxam vários filmes como “despretensiosos, no melhor sentido da palavra”. Diretores renomadíssimos, orçamentos milionários, locações exóticas: tudo isso rende produções despretensiosas, de forma que é difícil se convencer do real poder elogioso dessa palavra. Afinal, de onde vem tanta falta de pretensão e o que há de bom nisso?
Essa pergunta começa a ser respondida por Apenas o Fim (Brasil, 2008) e sua pretensiosa missão de retratar uma geração que raramente se vê nos filmes, na tv ou no teatro. O que foi preciso para isso? Um diretor estreante, sua própria faculdade, os amigos do curso de cinema e uma história banal, de um relacionamento que qualquer um poderia ter vivido. Encontramos aqui o provável trunfo de Matheus Souza: fazer cinema no Brasil passando longe da pobreza, da violência e da “cultura genuinamente popular” (seja lá o que isso quer dizer), com a intenção de falar apenas de uma relação entre jovens universitários.
A profunda identificação do espectador com a história de Antônio e sua até então namorada - denominada Ela pelo autor roteirista -, que está prestes a viajar sem destino e nem perspectiva de volta, não deriva apenas da universal dor de amor. O que vemos é um grito, ou melhor, um post num fórum de discussão on-line sobre uma geração. Se você tem mais de 25 anos ou menos de 18, talvez não se identifique tanto com a história, pois adentramos em um terreno árido para quem não brincou com Tamagochi, ouviu Britney Spears ou nunca teve um Ranger preferido.
Se alguma das referências supracitadas faz sentido para você, o sucesso é quase garantido. E não é exagero comparar Matheus Souza a uma de suas claras influências, Nick Hornby. Um bom exemplo é quando o típico nerd de camisa listrada e óculos de avô, solta uma das melhores “piadinhas cult” do filme: “Acho Transformers melhor que todos os filmes do Godard.”
A quantidade de referências só poderia vir de um estudante que resolveu aprender fazendo, como Matheus Souza. E como esse processo demanda tentativa e erro, ele se equivoca ao exagerar na função metalinguística, que soa premeditada e pouco espontânea, destoando da naturalidade das atuações de Gregório Duvivier e Erika Mader - tanto nas memórias em preto e branco das conversas na cama, quanto nas longas tomadas em que a câmera segue o casal pelo campus da PUC-Rio, em sua última discussão a respeito do relacionamento.
As piadinhas e a leveza quase escondem o verdadeiro motivo daquela conversa. Ela vai embora, e ele vai ficar entregue a uma melancolia embalada por Los Hermanos. Assim como eles, nós não saberemos o que a levou a partir, nem se ela de fato foi. Mas o que importa, como Ela diz, é o que já passou, os momentos pra lembrar. Não somente os momentos deles, mas os do espectador, que virão à cabeça e serão capazes até de arrancar algumas lágrimas por conta dessa identificação.
Comentários Postados
Envie o seu comentário
Caro leitor, esse espaço foi criado para que você opine e discuta a matéria que acabou de ler
Cada comentário comporta no máximo 600 caracteres.
Os comentários devem se ater ao texto publicado.
Mensagens ofensivas, provocativas ou que contenham palavras de baixo calão serã excluídas.