Livro de Lourenço Mutarelli narra a degradação de um protagonista que se encaminha para a loucura

A A arte de produzir efeito sem causa - primeiro romance de Lourenço Mutarelli pela Companhia das Letras, lançado em 2008 - trata de José Lopes Rodrigues, o Júnior. Ele perde o emprego numa oficina mecânica e resolve deixar esposa e filho para trás, se abrigando na casa do pai. Lá, entra numa rotina letárgica, regida por ovos fritos, cigarros, café e, eventualmente, doses generosas de álcool.
Entre o exterior – leia-se boteco - e a familiaridade da casa, manifestam-se gradualmente as frustrações e as mudanças de humor do protagonista. Desempregado, amargurado e entediado, Júnior é um homem de meia-idade, de classe média-baixa, traído pela esposa e que divide sua convivência com o pai e com a universitária Bruna. A inércia do protagonista torna-se sufocante e só se rompe em acontecimentos extraordinários, como os ataques epilépticos que passa a sofrer ou o material enigmático de um remetente igualmente misterioso, que passa a receber pelo correio.
A narrativa pode evocar um filme com sua estrutura, de períodos curtos e descritivos. O narrador se mistura com os pensamentos reticentes de Júnior no desenrolar da história, emulando seu ponto de vista, como um alguém que comenta eventualmente o que uma câmera registra.
O tom claustrofóbico vai tomando conta do romance, que se divide em duas partes, “Causa” e “Non-sense”. A perda da sanidade mental e a presença de demônios nos recônditos mais escuros da natureza humana são traços reconhecíveis caros ao autor. Na divisão da obra, de certo modo, se marca a entrada para o enlouquecimento: a afasia, incapacidade de ligar palavras a ideias, compromete sua compreensão do mundo ao redor, apontando para um quadro obsessivo e "monstrificante".
No romance, Mutarelli faz uso de referências ao escritor norte-americano “pai” da geração beat, William Burroughs. Além de detalhes biográficos, presentes nas caixas que Júnior recebe, ele tem seu tom surrealista e seu experimentalismo semântico incorporados à trama, numa provável homenagem.
Em A arte de produzir efeito sem causa, a quebra com a rotina é como a perda de um lastro e, na busca de significados para as coisas, constrói-se um caminho rumo à ruína.
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