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10/06/2011 - 16h10 - Atualizado em 21/05/2012 - 19h25

Películas da liberdade

Por Lucas Campacci, aluno do 2º ano de Jornalismo

“A Cecília”, filme de Jean-Louis Comolli, encerra mostra de cinema anarquista “Películas Negras”

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Reprodução

Para o teórico político Mikhail Bakunin, o homem se desenvolveu “pela revolta e pelo pensamento”. Uma sala escura no número 1239 da Rua Augusta mostra um cinema que também pensa assim. Nesse endereço, a biblioteca Terra Livre, nos últimos quatro meses, expõs para o público os mais variados filmes anarquistas no decorrer da história na mostra Películas Negras, que termina neste domingo (12).
  
O evento buscou retratar algumas obras que foram escamoteadas pelo cinema. Foi feito um panorama de produções em que o anarquismo não está apenas nos temas, mas também em sua base de organização. São produções horizontais e autogestionadas, “características que hoje ainda buscamos em nossa organização e em nossas lutas” afirma Rodrigo Rosa, um dos organizadores.
 
Diversas películas rodaram por ali. Desde curtas do Cinema do Povo – a mais antiga memória cinematográfica do gênero, de 1914 - passando pelas filmagens do diretor Jean Vigo e A Revolução Espanhola. Mas chegou a hora da despedida, com o longa A Cecília, de Jean-Louis Comolli.
 
Em 1890, o anarquista italiano Giovanni Rossi ganha do imperador D. Pedro II, terras no Brasil para realizar aquilo que havia descrito em um de seus livros: uma comunidade sem leis e nem patrões. No local, um grupo de libertários vive na prática as condições e contradições daquilo que tanto almejavam na literatura. Esta é a história de A Cecília.
            
Mesmo que possa parecer utópico, os fatos narrados realmente aconteceram, transformando o filme de Comolli quase em um relato empírico do anseio dos italianos que buscaram uma vida longe da opressão gerada pelo Estado, em uma colônia sem chefe, feminista e igualitária. Enfim, livre.
  
Outro fator que deve ser levado em conta é a proposta vir de ninguém menos que D. Pedro II. “É inusitado o Chefe de Estado do Brasil convidar um grupo que politicamente propõe uma sociedade sem Estado”, aponta Cláudio Arantes, professor de Ciência Política e Realidade Brasileira da Faculdade Cásper Líbero.
 
A colônia Cecília foi a primeira presença dos anarquistas na história política do país.  Durou quatro anos, chegou a abrigar mais de 70 pessoas – os números variam segundo as fontes. Após esse evento, o anarquismo só apareceu novamente no Brasil de modo expressivo na formação das lutas sindicais, em 1914.
 
É quase inviável pensarmos em A Cecília em tempos de “vendo, logo existo”. A busca por uma alternativa a esse mundo é a proposta do Películas Negras, com filmes que procuram não apenas mostrar uma linha ideológica, mas transformá-la em ação. Pelas palavras do historiador Howard Zinn, “você não pode ser neutro num trem em movimento”. E é isto que a biblioteca Terra Livre tem feito nos últimos meses.

Mostra Películas Negras - A Cecília
Data: 12/06, às 18h.
Rua Augusta, 1239 – Cerqueira César.
Grátis



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