Café Filosófico de junho discute a diversidade e o preconceito contra homossexuais
A resistência da sociedade brasileira em aceitar a homossexualidade foi discutida no Café Filosófico deste mês, realizado no último dia 1º no Parque Trianon. O tema Diversidade, tolerância e alteridade foi debatido por Marcio Silva, mestre em Filosofia pela PUC-SP e professor do Instituto Sedes Sapientiae, e o advogado e militante do movimento LGBT, Eduardo Piza.
Em sua fala, Silva trouxe conceitos de Nietzsche e Foucault que explicam a intolerância entre diversos setores da sociedade. Para ele, a obra de Nietzsche mostra que a construção do homem como ser racional implicou num comportamento hostil à multiplicidade. Foucault, seguindo uma linha semelhante, desenvolveu a noção de sociedade disciplinar, a qual “cria o homem normal, útil economicamente e frágil politicamente.”
Esse sujeito “normal”, desenvolveu o convidado, “é aquele que tem sua vida em continuidade com padrões considerados verdadeiros.” Ainda citando Foucault, Silva acredita estar nosso mundo fundamentado na noção de indivíduo racional que, para existir, não aceita quem não se enquadra nos paradigmas da sociedade. Tal comportamento seria responsável pela intolerância: “Não vale a pena só remover o preconceito, a violência e o totalitarismo, mas o solo de onde vem tudo isso”, defendeu o palestrante. “É preciso remover a visão de mundo ao que é hostil e variável.”
Eduardo Piza, por sua vez, contextualizou “o que está acontecendo nesses últimos dias em relação à sociedade LGBT”, lembrando do reconhecimento, no mês passado, da união homoafetiva estável pelo Supremo Tribunal Federal. Ele acredita que “embora parecesse uma [decisão] simples, foi necessária uma enorme batalha judicial para que isso acontecesse.”
A reação do advogado ao que considerou uma “surra de dez a zero no conservadorismo” foi ambígua: “Como ativista gay, fiquei muito feliz. Como brasileiro, é uma lástima saber que temos um Congresso que não age como deveria agir.”
Além disso, Piza classificou as eleições presidenciais de 2010 como um período em que “as forças conservadoras da sociedade se sentiram à vontade para afirmar seu espaço.” Tal movimento teria sido refletido, na política, pelo crescimento da bancada religiosa no Congresso, a qual, nas últimas semanas, pressionou o governo a vetar o kit anti-homofobia. Este seria distribuído pelo Ministério da Educação nas escolas, com o intuito de combater o preconceito contra homossexuais.
O palestrante avaliou essas contradições - reconhecimento da união homoafetiva e veto ao kit anti-homofobia - como sintomas de um período crucial no país: “Vivemos hoje um momento de mudanças, em que temos de dizer que esse passado [de preconceito] não interessa mais.”
Após encerrarem suas colocações, os palestrantes puderam debater com o público algumas das questões levantadas em suas falas - dentre eles, o conteúdo dos kits anti-homofobia, a parada gay, direitos humanos e o papel do Estado laico diante de fundamentalistas religiosos.
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