Os últimos dias de Ian Curtis, vocalista do sombrio Joy Division, relatados em preto e branco
Não há uma maneira certa de descrever as razões do suicídio do jovem Ian Curtis, em 18 de maio de 1980. O frontman do Joy Division, de 23 anos, começava a se destacar no cenário musical internacional, e a turnê pelos Estados Unidos estava marcada para o dia 19 daquele mês. Após assistir a Stroszek, de Werner Herzog, Curtis se enforcou no varal da cozinha de sua casa em Macclesfield, ao som do álbum The Idiot, de Iggy Pop.
Cada detalhe marcante da vida do vocalista - em especial, a influência do sucesso do Joy Division sobre sua vida pessoal - é mostrado no filme Control, de Anton Corbjin. O diretor holandês fotografou Ian Curtis e o Joy Division em 1979, além de ter sido responsável por produções de bandas como Nirvana, The Killers, Coldplay, U2 e Depeche Mode.
Corbjin, que recentemente lançou Um Homem Misterioso, estreou brilhantemente com Control, filme de abertura do Festival de Cannes em 2007. Demonstrando grande profissionalismo, escolheu não utilizar playback e instruiu todos os atores a tocarem de verdade em estúdio. Até mesmo a inconfundível voz de Ian Curtis, interpretado por Sam Riley, é adaptada com maestria pelo ator, há pouco escolhido para protagonizar a adaptação de On The Road, o clássico beat escrito por Jack Kerouac.
O longa mostra o começo do Joy Division ainda com o nome Warsaw, escolhido durante o show do Sex Pistols em Manchester. Além disso, é retratada a relação conflituosa entre Ian Curtis e Deborah Curtis, com quem se casou aos 18 anos, bem como os problemas causados ao vocalista pela epilepsia, descoberta após o primeiro show da banda em Londres.
A aura do filme, gravado em preto e branco, é melancólica e perturbadora, como se os ataques epiléticos sofridos por Curtis provocassem no espectador a estranha sensação de se sentir totalmente fora de controle.
Apesar dos mistérios em torno dos pensamentos do vocalista, o pouco que se imagina sobre ele foi contado por sua esposa, Deborah Curtis, no livro Touching From a Distance, leitura fundamental aos fãs da banda e no qual Corbjin se baseou para produzir Control. Além de depoimentos e narrações, a obra contém letras inéditas escritas por Curtis, uma lista dos shows da banda e fotografias raras do homenageado.
Ao contrário do que alguns dos outros membros do antigo Joy Division pensam, Deborah acredita que o marido já se preparava para o suicídio desde a adolescência, quando, de acordo com o livro, ele já considerava a morte prematura um ato heróico.
Deborah também revela detalhes do cotidiano de Curtis antes do Joy Division, além do caso com a jornalista belga, Annik Honoré, que viajava com a banda enquanto a esposa cuidava da filha do casal, Natalie. Apesar de unilateral, o relato não acusa o vocalista - pelo contrário, a autora parece compreender a confusão mental que assolou seu marido nos últimos meses de vida.
A banda influenciou grande parte dos músicos da atualidade, com letras melancólicas e sonoridade sombria. Apesar da vida breve e de ter lançado apenas dois álbuns oficiais, Ian Curtis foi tão importante para a música britânica que a data de sua morte marca o início do pós-punk.
O brilhante vocalista do Joy Division - que se tornou New Order após sua morte - está enterrado no Cemitério de Macclesfield, onde foi construído um memorial que leva o título do principal single da banda: Love Will Tear Us Apart (em português, o amor irá nos separar). Tais palavras explicam a vida de Curtis: seu amor dividido entre Deborah e Annik e sua personalidade essencialmente autodestrutiva.
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