Ícone do Cinema Novo, Glauber Rocha e suas técnicas de filmagem são ressaltados sob a ótica de Ismail Xavier
A mesa “O cinema político de Glauber Rocha: entre o sagrado e o profano” teve início às 11h30 de sexta-feira, 20/05. No último dia do 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural, o crítico e escritor Ismail Xavier tratou os aspectos formais dos filmes de Glauber Rocha, o homenageado dessa edição. A mediação foi do cineasta Joel Pizzini, curador da restauração da obra de Rocha.
Construções de cena e o modo fazer cinema político inovadores foram pontos ressaltados por Xavier. Dentro da ótica do Cinema Novo, de jovens que além de cinéfilos viam nesse tipo de arte um papel central na vida política e no debate cultural brasileiro, segundo o crítico, “Glauber Rocha se afirmou como o melhor ponto de eficácia desses anseios pela vontade de totalização”. Abordando o drama da vida social, o cineasta unia figuração e movimentos de câmera à altura do que tentava expressar.
Segundo Xavier, as características formais mais comuns do cinema de Rocha são a dissonância – choque e descontinuidade das cenas – e o movimento de câmera que mostra texturas e faz molduras, como um teatro cerimonial. “Isso se dá pelo recurso de filmar com a câmera na mão e também pelo desempenho dos atores que entendem esse jogo de cena.”
A teatralidade está na posição da câmera fazendo um bloqueio de cena, como explicou Xavier. “São conceitos típicos do teatro de Brecht, que também se unem à visão política.” Adaptados ao cinema, formam cenas em que o mesmo tempo em que os personagens estão em um ambiente aberto de natureza, delimita-se o espaço com a câmera em movimento ao redor dos atores.
Com relação ao conteúdo das obras, Xavier explicou que os filmes de Glauber Rocha são reflexos das aspirações de seu tempo, “De uma sociedade que não se sentia formada, mas que tinha a esperança de se estabelecer no futuro”. Na prática, os filmes constituíam um cinema tricontinental (América, África e Europa), fazendo duras críticas ao contexto de neocolonialismo que se vivia. “É uma reflexão sobre esse embate planetário que se coloca por meio de algumas tensões: morte e vida, por exemplo, em que a primeira significa a submissão ao dominador e a segunda, a emancipação.”
Para entender quem foi Glauber Rocha, Ismail Xavier afirmou que é necessário conhecer seu cinema. “Ele tem o lado romântico do artista como antena em comunhão com seu povo e o lado de batalhador e combativo.” Além disso, foi um apaixonado pela história em seus momentos de crise, “na adversidade e não no triunfo político”. A influencia da obra de Píer Paolo Pasonili, cineasta italiano, também é relevante para se analisar Rocha: ambos trabalham com a ambígua justaposição entre sagrado e profano. “São junções inesperadas, como a coexistência entre a visão política de esquerda e a vivencia religiosa.” Para finalizar a apresentação, Ismail Xavier citou uma declaração de Pasolini a uma revista francesa de 1965, a qual o crítico acredita ilustrar o que também pensava Glauber Rocha: “Enquanto marxista eu vejo o mundo de um ponto de vista sagrado”.