Com bom humor, escritor cubano formado em jornalismo palestra sobre sua paixão pela literatura

“O jogo da escrita: o desconhecido, o inexplicável a escuridão” teve início às 9h30 do segundo dia de debates no 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural. A mesa contou com a presença do escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez como palestrante e do jornalista Xico Sá como mediador.
Com muito bom humor, o escritor falou do surgimento de sua paixão pela escrita literária. “Quando pequeno, com 13 anos, eu adorava ler e corria para casa depois da escola para terminar os livros. Porém, no meu caminho tinha uma prostituta, linda, dos cabelos negros. Foi meu primeiro amor platônico”, contou. Foi a união entre leitura e paixão que fundamentou a escrita de Gutiérrez. Conhecido por ter textos com tórridas descrições eróticas, o autor ironizou: “Os escritores têm medo de sexo e eu não entendo o porquê. Não somos caracóis, somos mamíferos: a sexualidade é algo natural.”
Gutiérrez contou que, mesmo encontrando suas vocações temáticas muito jovem – mulher, fogo, amor, sonho e literatura foram os exemplos citados por ele –, demorou mais de trinta anos para encontrar seu caminho como escritor. “Não gostava do que eu escrevia ou enjoava quando relia algumas poucas vezes”, confessou. Além disso, o escritor se diz muito exigente com seu trabalho, que ressalta ser árduo. “Não se escreve espontaneamente. É um processo de reflexão que leva tempo. Já cheguei a ficar treze anos pensando uma novela.”
A ousadia de Gutiérrez não se mostra apenas quanto ao modo de abordar os temas, mas no processo mecânico de escrita. “Crio minhas próprias regras gramaticais e simplifico a língua espanhola”, comentou o escritor, que não permite que editem seu texto nas editoras. “É um árduo trabalho, pensado e repensado que eu sei que quando envio para publicação está perfeito.”
Antes de ser escritor, Gutiérrez se formou jornalista e exerceu a profissão por alguns anos. “O que mais me encantava no jornalismo é que ele dá a chance de se conhecer todo tipo de gente”, ressaltou. Mas garante que não voltaria a atuar na área, porque não teria a mesma liberdade de abordagem para tratar assuntos como possui hoje, sendo escritor. “Eu sofri como jornalista, porque não se pode falar de determinados assuntos que vão contra alguns interesses. E isso não era só pelo cenário político de Cuba, é algo que existe no mundo todo.”
Entre as perguntas da platéia muitas fugiam ao tema do debate e partiam para curiosidades políticas sobre o país de origem do escritor. Já na primeira questão, Gutiérrez foi enfático: “Viemos aqui para tratar de coisas melhores do que política.” Mesmo assim, ele não deixou de reconhecer a contaminação da escrita literária pelos temas que cercam a sociedade, o que inclui as questões políticas.
O escritor fez uma comparação de estilos literários, afirmando que escrever uma novela é um processo árduo, no qual não se pode ser inocente e deixar detalhes passarem sem a devida atenção. Gutiérrez enfatizou sua preferência por contos: “Como bricava Julio Cortázar: no conto, você precisa ganhar o leitor por nocaute. Isso é o que me encanta.” E para o tempo livre, Gutiérrez diz gostar de poesia. O escritor ressaltou a liberdade total que se tem ao escrever em versos e afirmou seu prazer pelo gênero.