Com participação do cineasta Werner Herzog, mesa faz homenagem a Glauber Rocha
Nesta terça-feira, 17 de maio, teve início o 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural, que se estenderá até sexta-feira, dia 20. O encontro realizado pela revista Cult e o SESC Vila Mariana, com o apoio cultural da Faculdade Cásper Líbero, tem como tema “A arte como a ação para a cidadania” e visa debater o papel da comunicação na cultura e homenagear um nome fundamental da arte: cineasta brasileiro Glauber Rocha. Paula Rocha e Paloma Rocha, filha e neta de Glauber, receberam flores como ato simbólico em nome deste inovador artista e intelectual.
O diretor do SESC–SP, Danilo Santos de Miranda, abriu o congresso com discurso solene. “Para nós do SESC, a cultura tem papel fundamental. A Cultura tem o sentido de desenvolver a convivência entre as pessoas e com isso pode-se experimentar uma vida mais preparada. Portanto, jornalismo cultural é uma atividade muito mais profunda e ampla. Diz respeito à capacitação das pessoas para melhor compreender a sua realidade”.
O primeiro a falar na conferência foi o cineasta Werner Herzog, mediado pelo jornalista e crítico de cinema Luiz Zanin. Dono de vasta produção cinematográfica, inclusive documentarista, Herzog é um dos principais representantes do cinema novo alemão, uma geração radical do cinema. É dele a filmografia com mais de 60 títulos, incluindo os clássicos O Enigma de Kaspar Hauser, Nosferatu – O Vampiro da Noite e O Homem Urso. “Nos anos 1970, era impossível freqüentar as rodas de discussão intelectual sem nunca ter assistido Herzog”, conta Zanin enquanto apresentava Herzog.
Por várias vezes durante palestra, Herzog fez referência ao cinema novo brasileiro e o elogiou, destacando, principalmente, a vida e obra do homenageado Glauber Rocha. Os dois viveram juntos por cerca de um mês em Munique, tempo que rendeu boas histórias. “Uma coisa que me lembro é que ele era sempre desorganizado. No dia de retornar ao Brasil, Glauber esqueceu que deveria partir e teve que arrumar suas malas de última hora. Lembro que ele tinha vários manuscritos espalhados pelo quarto, anotações suas. Ele se perdeu em meio de uma nuvem de papéis tentando se arrumar”, lembra Herzog. “Eu sinto muito falta dele. Na minha opinião, ele ainda não está morto. Além dele, só Garrincha representa tão bem a alma brasileira. Rocha é Brasil na forma intelectual, Garrincha pela alegria.”
Apesar de não considerar como grande influência estética sua, o cineasta afirmou que, para ele, o cinema brasileiro é repleto de vivacidade e qualidade. “Assistir aos filmes daqui é como estar sentado de fronte a uma grande fogueira e se perceber queimado por ela”, compara Herzog. Perguntado se acompanha a recente produção cinematográfica do país, respondeu que pouco sabe, citando somente Walter Salles. Alias, é curioso saber que o grande cineasta não é um ávido freqüentador de cinemas. “No geral, assisto poucos filmes. Fico em uma média de três ou quatro por ano”, confessa.
No tema jornalismo cultural, Herzog também expôs sobre suas impressões do que é veiculado e de que maneira são tratados os temas na agenda da imprensa. Para ele, “Há na imprensa a generalização da cultura. No mundo inteiro, verdadeiro debate inteligente da arte e do cinema está sendo tomado e substituído por notícias de celebridades”. Concordando com o que foi previamente exposto por Danilo Santos de Miranda, o jornalismo no âmbito cultural assume papéis muito mais complexos do que somente informar, mas também formar conteúdo e conhecimento.
Atualmente, Herzog trabalha no filme Death Row (Corredor da morte, em tradução literal). O longa trata sobre condenados à pena de morte no Texas, Estados Unidos, na espera de suas execuções. “O filme gira em volta da monstruosidade dos crimes, mas não acredito que ninguém que cometeu esses crimes sejam monstros, mas sim humanos. Um deles até confessou dois homicídios para a minha câmera”, detalha o cineasta. De certa forma Death Row acaba por marcar a posição do diretor sobre o tema. “Eu não tenho argumento contra pena de morte, apenas uma história. Sou alemão, e na Alemanha milhares e milhares foram executados em um sistema de eutanásia e outros milhares executados em genocídios. Eu acredito que nenhum país tem a capacidade de matar um ser humano em nenhum tempo e em nenhuma circunstância. Não é um argumento, só uma história.”
Questionado se há um elemento ou objetivo comum em sua obra, Herzog afirmou não planejar seus filmes ou sua carreira, logo não sabe localizar tal característica que pudesse permear seu trabalho. “Os filmes sempre vêm a mim sem serem convidados, como ladrões na noite. É como se eu acordasse durante a madrugada e cinco estranhos estivessem em minha cozinha”, conta. “Acredito, porém, que possa existir este denominador comum, mas não estou interessado em analisar a minha própria obra, entender a mim mesmo.”
Sobre suas influências, Herzog também afirmou não ser capaz de apontar nomes determinantes. “Eu sempre tive a impressão de que eu inventei o cinema”, relata. Herzog conta que só teve contato com o cinema pela primeira vez com 11 anos de idade com um filme no qual “esquimós construíam iglus”, e não gostou. Com pais envolvidos na guerra, ele e as outras crianças passaram a construir seus próprios brinquedos e ferramentas. “De maneira semelhante, eu tenho a sensação de que eu tenho que inventar o meu próprio cinema toda vez que faço um novo filme.”
Se pudesse apontar, Macunaíma seria o filme brasileiro predileto de Herzog “Esse filme me forneceu uma riqueza imensurável”, conta. Alias, foi filme dirigido por Joaquim Pedro de Andrade que serviu de inspiração para o que seria o título original de O Enigma de Kasper Houser. “Havia acabado de terminar o roteiro, mas não conseguia achar um título. Resolvi ir ao cinema e, coincidentemente, fui verMacunaíma. Quando ouvi uma das falas eu me perguuntei: Será que ouvi direito?. Era este o título!“. A fala em questão é “Cada um por si e Deus contra todos”, dita por Grande Otelo. A imprensa alemã, no entanto, havia se confundido com a tradução do título e Herzog se sentiu obrigado a trocá-lo.
“Trabalhe em um lugar com vida, viaje a pé e então faça um filme”. Esta foi a grande dica que Herzog deu para os pretendentes a cineasta. Por lugar com vida se entende “Segurança de sex club ou guarda de manicômio”. Viajar a pé porque “É a pé que o homem revela e descobre a sua existência”. Depois de juntar o dinheiro e a vivência, fica mais fácil filmar um longa. “Hoje em dia ninguém tem desculpas para não filmar. Com menos de 2000 dólares já dá para fazer isso”, argumenta. Mas o pretendente deve ter bem claro a sua vocação: “O cineasta é aquele que consegue derreter o coração das pessoas”, conceitua Werner Herzog.