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13/05/2011 - 12h53 - Atualizado em 23/05/2012 - 04h29

Nós que o amamos tanto...

Por Lucas Campacci, aluno do 2º ano de Jornalismo

Os 80 anos de Ettore Scola, diretor que tratou dos problemas sociais de seu país sem abandonar o encanto do cinema

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Reprodução
O diretor no set de Passione D'Amore, de 1981

Se o cinema serve para incitar, refletir e emocionar, Ettore Scola preenche todos esses requisitos necessários a uma perfeita obra cinematográfica. Assistir a um de seus filmes é se aprofundar na história de sua terra, a Itália, e também elevar-se a uma experiência de dimensões descomunais - que vão do riso ao choro em questão de segundos.

Com 80 anos completos no último dia 10, Scola está aposentado. Mas não sem deixar um legado de 39 filmes de sua direção.  Ele é formado em direito, foi jornalista e roteirista. Hoje, carrega apenas o título de comunista de carteirinha, visto que sempre foi do Partido Comunista da Itália.

Para entrarmos no universo de Scola, é preciso antes conhecer seus antecessores.  Após a derrota do Eixo na Segunda Guerra Mundial, nos anos 1940, a Itália se encontrava devastada e envergonhada pelo fascismo de Mussolini. Sem o glamour dos estúdios Cinecittà, altamente associados ao fascismo, os cineastas procuraram retratar a vida como ela era então - nada bem, é claro. Criou-se, assim, o neorrealismo italiano. Não se usava atores profissionais - apenas personagens do cotidiano -, e os filmes eram produzidos na rua para não lembrar o passado recente e sujo da Cinecittà.

Entre os destaques do neorrealismo figuram os diretores Vittorio de Sica e Totó. Enquanto o primeiro levava o público a transbordar em lágrimas, o segundo fazia comédia à italiana - o riso para não chorar. Foi nessas duas fontes que Scola se inspirou.

Scola começa a dirigir nos anos 1960, quando o sonho de liberdade vivido no pós-guerra é esquecido. Passa a ver sua Itália consumida pela corrupção,- era preciso mudar do cinema consolativo para o provocador.

Nós Que Nos Amávamos Tanto talvez seja a obra que mais exprime a esquerda italiana daqueles tempos. A história fala de três amigos - Gianni, Antonio e Nicola -, que lutaram contra a ocupação nazista, porém, 20 anos depois, encontram-se em caminhos totalmente opostos. Enquanto dois deles continuam acreditando no discurso revolucionário, Gianni se torna um advogado burguês. A juventude que tanto sonhou vive a decadência dos ideais. “Nossa geração é de dar nojo” - fala da película que “parece ser um relato pessoal do próprio Scola”, afirma o historiador e professor da Cásper Líbero, José Augusto Dias Jr.

No entanto, a consagração do diretor veio com o clássico indicado ao Oscar, Um Dia Muito Especial - a atuação mais bela de Sophia Loren ao lado de Marcelo Mastroianni. O longa retrata o encontro de uma subordinada dona de casa com um radialista homossexual durante a Itália fascista. Enquanto todos saem para comemorar o discurso de Hitler e Mussolini, o casal divide suas angústias em uma tarde juntos.

Um Dia Muito Especial é atemporal. Poderia se tratar de uma situação qualquer na qual essas duas pessoas se conhecessem que, ainda assim, seria um roteiro maravilhoso. Mas Scola não muda a tradição e, mais uma vez, deixa o contexto histórico da sua querida Itália fazer parte da sua obra.

O que o diferencia dos outros cineastas ativistas da sua época é o modo delicado e perspicaz com que a política é introduzida em seus filmes. Seja no drama ou na comédia, ele usa sua criatividade para não tornar maçante a presença de ideais em sua obra. “Ele não deixou o engajamento virar uma camisa de força”, aponta José Augusto.

Até 22 de maio, a Cinemateca Brasileira presenteia o público com os maiores filmes de Scola. É a chance de poder ver nas telonas a harmonia de tantos gêneros dentro de um único artista.

Parabéns e obrigado, Ettore Scola, por deixar o cinema algo tão gostoso, sem abandonar seu fator social. Arrivederci!

Para maiores informações entre no site: http://www.cinemateca.com.br/



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