Mais do que uma simples loja, a Livraria Cultura do Conjunto Nacional é um espaço para os apaixonados pela leitura
Foi-se o tempo em que a Livraria Cultura era somente uma loja como tantas outras. Convertida em verdadeiro ponto turístico, ela agora reúne mais de 300 mil títulos apenas em sua unidade do Conjunto Nacional, além de quase 100 funcionários e uma média de 3 mil visitantes por dia. Mas não é apenas de números que vive a Livraria.
Sua arquitetura é, no mínimo, ousada. Cada centímetro de chão dos 300 metros quadrados do local é coberto por carpete quadriculado cor-de-rosa e laranja. Os corrimões são sinuosos, em forma de onda. Há dois dragões de madeira – um deles, pendurado no teto, foi içado em 2006 e jamais desceu; o outro fica no chão, e recebe em seu pequeno interior acolchoado dezenas de crianças por dia.
Mas o dragão é apenas um dos vários lugares onde os leitores podem se acomodar para ler. Há dezesseis pufes, além da cafeteria, onde qualquer um pode apreciar um livro durante horas sem a obrigação de comprá-lo. Todos os dias, diversas pessoas deixam marcadores de páginas nos livros e voltam no dia seguinte para recomeçar de onde pararam.
É o caso de Ana Cecília Albuquerque, cuja obra favorita é, até agora, O Apanhador no Campo de Centeio. Há duas semanas ela vem todos os dias, depois do trabalho, para ler a belíssima, pesada e cara nova edição de Moby Dick. Seu salário de estagiária ainda não pode pagar todos os livros que ela gostaria, então, para não se privar do hobby, ela passa uma hora por dia, todos os dias, na Livraria.
Quando encontram os marcadores, os funcionários da Cultura têm que tirá-lo (embora afirmem fazê-lo com dor no coração). Assim, a jovem anota no braço esquerdo em que página parou no dia anterior. Os números mais antigos vão se apagando com o tempo: 143, 178 e 202.
São detalhes como esses que definem a Livraria Cultura. Os quase 100 funcionários nada fazem para pressionar leitores a comprar o livro ou ler mais rápido e desocupar os pufes. Ao contrário – quem trabalha na Cultura não é um simples livreiro, mas um apaixonado. Eles formam um grupo heterogêneo, com diversas origens sociais e geográficas, variadas cores de cabelo, além de tatuagens e piercings.
Uma colegial do Dante Alighieri entra na livraria procurando por A Incrível e Triste História de Cândida Erêndira. Quem a atende é Joaquim Toledo, cujo livro favorito é O Barão nas Árvores, de Italo Calvino, mas não dispensa as obras de Gabriel García Márquez. Ele fala tanto dele que, ao sair da livraria, a menina levou também Crônica de Uma Morte Anunciada e Ninguém Escreve ao Coronel, ambos do autor colombiano. Vender livros é uma arte que necessita de envolvimento.
Deste curioso grupo de atendentes, talvez a mais diferente seja Elize Lima. Mulata de Roraima, tem como livro de cabeceira o Mein Kampf de Hitler. A escolha seria interessante por si só. No entanto, o fato mais interessante é que ela tenha adquirido o gosto pela leitura há três anos, quando veio para São Paulo e, tempos depois, começou a trabalhar na Cultura. Até hoje, Elize já leu quase toda a sessão de psicologia da Livraria, o que a torna uma das figuras mais fascinantes do local.
A Livraria Cultura é uma grande reunião de bibliófilos, na qual apaixonados dos mais diversos tipos se reúnem e amizades são formadas. Às vezes, até namoros: o casal Daniele Cardoso e Gabriel Lopes se conheceu lá. Ela estava ensaiando, sozinha, as falas de uma peça dentro do dragão-sofá. Ele achou estranho, parou, ficou olhando. Ela, muito extrovertida, convidou-o para fazer o outro personagem e ajudá-la a decorar. Toda essa história já faz mais de um ano e meio. Os dois ainda marcam encontros dentro da Livraria, dentro do dragão.
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