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19/04/2011 - 17h08 - Atualizado em 23/05/2012 - 09h50

Arte que vive do chapéu

Por Luana Fagundes e Natalia do Vale, alunas do 3º ano de Jornalismo

Encontro reúne música, circo e literatura na Vila Madalena

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Luana Fagundes/Natália do Vale
Todas as segundas-feiras, artistas se apresentam
gratuitamente no Beco do Circo

Era uma vez um beco, localizado numa pequena praça, cercada de bambus e arames, palco de gente de todas as cores e cantos da cidade. Em frente do posto de gasolina Girassol, o espaço mais parece um playground, onde jovens e crianças se misturam para jogar basquete e “trocar ideias”. Porém, alguns passos adiante, observa-se uma grande concentração de pessoas e já se percebe a magia do lugar, - que de particular só tem a primeira impressão, causada pelas cercas.

A Praça Aprendiz das Letras, ou Beco da Vila Madalena, é conhecida por ser o cenário do Encontro no Beco. Todas as segundas-feiras, por volta das 18h, artistas de circo, malabaristas amadores e pessoas à procura de diversão se reúnem na Rua Belmiro Braga, esquina com a Luis Murat. “Sem verba pública, nossa arte sobrevive do chapéu, que é a contribuição espontânea dos espectadores”, conta o artista de rua e organizador dos encontros, Antonio Marcos Pires. 

A escolha da segunda-feira tem um motivo simbólico: o dia internacional de folga do artista. Segundo Pires, esse é o momento em que o pessoal do circo deixa o picadeiro e tira umas horinhas para descansar. “Eles aproveitam a folga para vir ao Beco mostrar sua arte. Como o encontro já acontece há oito anos, decidimos manter a tradição da segunda-feira”, explica.

Além de circo, o Beco também abriga músicos e integrantes de ONGs que visam à restauração da história do samba na cidade de São Paulo. Encontros dominicais regados a samba de raiz e muita feijoada animam a vizinhança e ajudam a manter a tradição e o local.

Renato Dias, integrante do Instituto Kolombolo, com sede na praça, se mostra bastante animado com os encontros no Beco e fala da importância do local para a cultura de São Paulo. “Trabalho aqui há seis anos e acho importante que todos dividam tranquilamente o espaço. Nunca soube de problemas envolvendo ninguém, eles querem fazer arte e se divertir”, relata.

Mas não é só de circo e música que vive o Beco. Um dos maiores encantos do lugar são os graffitis feitos por artistas renomados, convidados a repintar o local. Tarsila Portella, assessora da Associação Cidade Escola Aprendiz, que coordenou o projeto de restauração, explica como funcionou o trabalho dos grafiteiros e qual o intuito da associação: “Apesar da não-remuneração, os artistas do graffiti se interessaram pela iniciativa”, lembra. “Nosso intuito era mostrar a importância da re-significação de espaços públicos da cidade, explorando seus potenciais educativos e produtivos, mas o contrato com a prefeitura não foi renovado e o projeto terminou”.

O Beco da Vila Madalena é mais um lugar na capital onde a arte se apropria do espaço público para manter viva a cultura e convivência entre pessoas. Apesar da dedicação e assiduidade dos artistas, que arrecadam seu cachê no chapéu, o encontro no Beco sofre com limitações pela falta de patrocínio e de interesse do poder público em melhorar a região.

Um dos problemas mais graves enfrentados pelo espaço é a deterioração da arte permanente, como o graffiti; e a dificuldade de acesso dos frequentadores e artistas em dias de chuva, nos quais o Beco fica completamente alagado, sem nenhuma condição de acesso. “A água chega na cintura e isso atrapalha os artistas, o público e a gente, que ganha um dinheirinho extra por aqui”, desabafa Fernando Jordão, vendedor de lanches da região.

Para os artistas, as águas de março não são obstáculo para o show. Eles estão satisfeitos com o lugar e não pretendem mudar: “O Beco é o espaço da arte de rua, é a chance de o artista expressar sua arte e trocar informações com os demais. As chuvas atrapalham sim, mas a tradição do local e a magia do encontro ainda superam o transtorno”, explica Pires.

Com ou sem enchentes, o Beco é um cantinho pra lá de especial na Vila Madalena, onde arte e liberdade se juntam para fazer o espetáculo acontecer. São crianças, jovens e adultos no mesmo espaço compartilhando sensações e ideias, mostrando que o caminho para a cultura é bem mais curto quando se tem iniciativa e vontade. Sem dúvida um local interessante para quem busca diversão e arte em São Paulo.

Encontro no Beco
Segundas-feiras, a partir das18h.
Rua Belmiro Braga, esquina com a Rua Luis Murat - Vila Madalena
Grátis



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