Melancolia, loucura e mecanização em “Dodes’ka-den” foram destacadas pelo debatedores na tarde de hoje
Os professores da Faculdade Cásper Líbero, Marco Vale e José Augusto Dias Júnior, e Maynara Fanucci, aluna do 1º ano de Rádio e Televisão foram os debatedores de hoje no 8° Ciclo de Cinema de Cultura Geral. Desta vez, o filme sobre loucura foi Dodes’ka-den, de Akira Kurosawa.
Explorando o som natural de um trem em movimento, o cineasta criou a palavra onomatopaica que dá nome ao filme, a qual é repetidamente pronunciada por um garoto que acredita ser maquinista, na periferia de Tóquio. O longa retrata o cotidiano dramático de personagens que vivem à margem da metrópole, no limite entre loucura e sanidade.
A filmagem, feita em 1970, deixa transparecer uma visão desiludida do Japão, como apontou Maynara: “Poucas são as cenas que mostram a metrópole, apesar de todos personagens serem frutos dela”. Foi mesmo um período de desilusão, inclusive para a carreira do diretor. O fracasso de bilheteria, somado a outras frustrações profissionais, levaram-no a tentar o suicídio.
É notável como as cenas mais belas são aquelas que não só remetem à loucura, mas sempre carregam um sentimento de tristeza. “É um filme poético, há uma visão melancólica da vida”, ressaltou Marco Vale. “Mesmo os momentos mais alegres são banhados por um certo desânimo”.
Segundo José Augusto, existe mais de um caso de insanidade na trama que poderia ser citado. No entanto, ele destacou a atuação cênica do menino com pretensões a maquinista: “Ele se faz máquina. Em um mundo mecanizado e controlado, é como se ele estivesse protegido lá dentro”, destacou.
Na interpretação de Vale, “o trem seria o filme e o menino seria o próprio Kurosawa, que nos conduz no decorrer da história”. Já para o professor Cláudio Arantes, presente na plateia, a representação do cineasta não seria feita no menino, mas no velho sábio, a quem as pessoas recorriam em momentos de desespero e tensão.
É com inventividade que Kurosawa resgata vidas excluídas, cuja sobrevivência é estimulada pelos delírios, sonhos, loucura e imaginação. De acordo com Vale, o diretor talvez tenha feito o filme com um propósito em mente: “Na época, o Japão estava se modernizando rapidamente, mas estava se esquecendo de uma coisa [vital]: sonhar, desligar-se da realidade”. Assim, o debatedor pertinentemente lembrou uma conhecida frase do diretor: “Num mundo de loucos, apenas os loucos são sãos”.
O Ciclo Cinema e Loucura encerra amanhã sua programação com a exibição de Um Estranho no Ninho, às 12h30, na sala Aloysio Biondi.
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