Fernando Gomes, diretor do programa infantil Cocoricó e atual gerente do Departamento infanto-juvenil da TV Cultura, detalha sua trajetória profissional em Aula Magna na Cásper Líbero
No dia 6 de abril, Fernando Gomes ministrou aula magna na Faculdade Cásper Líbero para os estudantes de Rádio e TV. O ator e artista plástico alcançou o sucesso com o trabalho de criação e manipulação de bonecos para programas infantis. Gomes estreou na televisão em 1986, no programa Bambaleão da TV Cultura. Desde então, participou de Rá-Tim-Bum, Castelo Rá-Tim-Bum, X-Tudo, Agente G, entre outros. Em Cocoricó, foi responsável pela criação do boneco Julio, o qual dá vida ainda hoje, além de outros personagens. Desde 2003, ele dirige o “Cocó” – apelido do programa que o levou ao reconhecimento internacional. “Eu participo da infância de muitas crianças, mas a maioria não conhece o meu rosto”, reflete. “É um trabalho de Super Homem, de identidade secreta.”
Grande fã de Muppets e Vila Sésamo, Gomes conta que a entrada na televisão não foi planejada. “Fui trabalhar no Bambaleão como fã. Por influência deles, fiz meu primeiro boneco ainda quando estava faculdade de artes plásticas, onde tinha aulas de teatro”, lembra. Foi esperando o início de uma peça que conheceu Memélia de Carvalho, uma das integrantes do programa que admirava. Quando comentou sobre seu boneco (o Boninho), Memélia pediu para conhecer o personagem, adorou e o usou no programa. “Era uma outra época na televisão. Os bonecos não geravam marcas e produtos, mas pertenciam somente aos atores”, conta. “Depois disso, muitos passaram a pedir bonecos e eu comecei a fazer outros”.
Quando a atriz Helen Helene ficou doente e não pôde gravar o Bambaleão por uma semana, ela indicou Gomes para substituí-la. “Assim que a cortininha abriu, percebi a série de problemas que eu teria seguindo a profissão”, relembra. O então ator amador e recém-formado em artes plásticas conta com bom humor as dificuldades que teve no começo da carreira. “Quando você manipula o boneco, você vê sua movimentação por um monitor”, descreve. “O braço cansava e começava a cair. Como o monitor mostra as imagens com lados invertidos, eu compensava a queda para o lado errado. O boneco caía, caía, caía mais e subia de uma vez.” Após uma semana substituindo Helen, Gomes achou que seu trabalho havia acabado ali. No entanto, a então diretora do programa, Zita Bressane, ao perceber que o ator não havia comparecido ao estúdio, ligou procurando por ele. A partir de então, Gomes se tornou um homem de televisão.
Dentre os vários programas, Cocoricó é o trabalho de destaque de Gomes e também o de maior carinho. O diretor conta que o “Cocó” havia sido projetado para ter pequenas histórias, com o objetivo de chamar desenhos animados do canal. O formato seria de dois bonecos, um menino e uma menina que conversavam em uma casa-da-árvore e assistiam à televisão. Antes de sua estreia, a ideia passou a ser só um menino em sua fazenda, conversando com os animais. Então, Gomes entrou como o manipulador de Julio e de outros bonecos. “O Julio, na verdade, nasceu em 1989, em um especial de natal chamado Um Banho de Aventura. É um personagem interessante que foi tirado da gaveta”, esclarece o ator.
O “Cocó” se manteve nesse formato de 1996 até 2001, quando o programa foi interrompido para a criação e veiculação de Ilha Rá-Tim-Bum, o qual Gomes dirigiu junto de Maísa Zaknuk. Em 2003, com o fim do Ilha, a TV Cultura o convidou para voltar com Cocoricó. Só que, nessa segunda fase, que dura até hoje, a proposta do programa passou a ser outra. “O Cocó deixaria de chamar desenhos para ter aventuras próprias. Antes era um programa muito mais parado que o atual”, explica. Para este novo momento, Gomes conta que deixou de usar quatro câmeras, o que obrigava muitos cortes e impedia que os bonecos se movimentassem. A atração passou a ter somente uma. Foi no piloto em que foi inserido o famoso “clipe do cocô”, em que era explicado para que este serve. “Eu peguei pesado nele mesmo, para ver a liberdade que tinha para criar”, conta. Deu certo.
Gomes defende que a programação infanto-juvenil tem que aliar responsabilidade, educação e, principalmente, entretenimento. “Eu brigo muito para que os programas de TV do gênero tenham, acima de tudo, diversão. A criança não pode chegar em casa da escola para ter mais aula na TV”, ressalta. “Porém, acho que dá para fazer diversão com conteúdo”. No Cocoricó, o diretor indica que há a busca por temas delicados como, por exemplo, um episódio em que a morte foi assunto (no caso, o cachorrinho da fazenda havia morrido atropelado). “Mesmo para a criança pequena, é muito mais legal puxar a curiosidade dela do que entregar um cardápio já morno”, afirma.
De 1986 para cá, Fernando Gomes acumula experiências e críticas à área. Atualmente, a escassez de programas direcionados para o público infantil com produção local incomoda o diretor. “A lei proíbe a venda de produtos e merchandising em programas infantis. Qualquer emissora prefere colocar atrações de maior audiência e faturamento”, aponta. “Eu sou a favor que a lei obrigue as emissoras a ter programação infantil produzida no Brasil em um horário plausível”.
Os bons momentos também estão na memória de Gomes, como quando Kevin Clash o reverenciou ao conhecê-lo em uma seleção do ator que faria Garibaldo para um remake de Vila Sésamo produzido no Brasil. Para quem não sabe, Clash é quem dá vida ao Elmo, personagem mais emblemático do programa americano. Não precisa dizer que Gomes ficou com o papel. Agora, o que ficou de melhor para os alunos da Cásper Líbero foi quando, a pedido da platéia, Fernando interpretou Julio no palco, além de manipular um boneco de homem das cavernas, usado em Cocoricó. Foi quando a voz da infância ganhou rosto.
Comentários Postados
Gostei muito sobre a matéria, sou estudante de Pedagogia, e estou fazendo o meu tcc sobre programas infantis, assisto toda tarde a cultura pois adoro o quintal da cultura .
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