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01/04/2011 - 13h22 - Atualizado em 23/05/2012 - 09h25

As fragilidades do Muro

Por Ana Gabriela Maciel, aluna do 2º ano de Jornalismo

Jornalista Fernanda Campagnucci lança livro sobre um cotidiano dividido pelo Muro da Cisjordânia

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Ana Gabriela Maciel
A jornalista autografa exemplar de O outro lado do
Muro 
durante o lançamento do livro, no dia 29 de
março 

Fernanda Campagnucci - jornalista e pesquisadora nas áreas de educação e direitos humanos - lançou o livro O outro lado do Muro. A obra foi lançada no dia 29 de março, na Livraria da Vila em Pinheiros, e é fruto de sua viagem a Israel e à Cisjordânia. Ao percorrer as cidades da região, ela presenciou o conflito israelo-palestino e testemunhou o cotidiano de um cenário fragmentado pelo Muro da Cisjordânia, construído por Israel a fim de segregar o território palestino.

Além de esclarecer as origens do conflito e desmistificá-lo, Fernanda retrata, em forma de diário, histórias de vítimas anônimas do conflito. Dessa forma, humaniza as estatísticas enquanto relata as consequências desse confronto na vida dos palestinos. Confira, a seguir, entrevista exclusiva concedida pela autora.
 
Como surgiu a oportunidade de ir para a Palestina?

Fiquei um ano na França fazendo intercâmbio. Lá conheci estudantes descendentes de árabes ou ligados à causa palestina e até mesmo judeus que se interessavam pelo tema. Eles tinham um grupo de debate e organizaram essa viagem com o intuito de testemunhar o que ocorria na Palestina e, como ativista na área de direitos humanos, sempre acompanhei o conflito. Quando surgiu essa oportunidade, me juntei a eles numa viagem que durou 17 dias.

Você sofreu constrangimento ou objeções para entrar em território palestino?

A região está cheia de barreiras e postos de controle, os checkpoints, e o meu passaporte era diferente do passaporte dos outros integrantes por ser brasileiro. Por isso, ficou retido algumas vezes. Sempre me abordavam para perguntar o que eu estava fazendo com um grupo de europeus.

Qual é o impacto da construção do muro cercando os territórios israelenses?

O muro adentra como garras no território da Cisjordânia. Há partes com cercas eletrificadas e soldados armados constantemente. A construção cercou colônias e lugares importantes do ponto de vista de recursos naturais, e cidades como Qalqilya ficaram completamente muradas, sem saída. Ele é muito mais do que um muro de separação - tem outros fins e o Parlamento Israelense está sempre aprovando projetos para aumentá-lo.

Quais as consequências diretas na vida dos habitantes daquela região?

O muro dividiu famílias, milhares foram expulsos de suas terras e perderam suas principais fontes de renda, que são a agricultura e o turismo. Além disso, há colônias sionistas no território palestino e o Estado judeu oferece vantagens e subsídios para os que vão habitar tais regiões. Isso fez com que a Cisjordânia se fragmentasse em ilhotas cercadas e protegidas. A essa população, Israel oferece uma infraestrutura que conta com estradas próprias, restringidas aos palestinos, e um exército à disposição.
 
Há associações e militantes abertos a um diálogo entre os dois lados do muro?

Sim, principalmente entre os jovens. Há grupos organizados que se recusam a servir ao exército israelense, como o Combatentes pela Paz. Esses jovens podem ser presos e sofrer sanções. Porém, é uma sociedade bélica e há privilégios para quem realiza o serviço militar.

Você adotou um lado? E você, ficou “em cima do muro” ou tomou partido, com o perdão do trocadilho?

O título do livro é sutil. Se eu tivesse escolhido “do outro lado do muro”, eu estaria adotando somente uma posição. Ao optar por O outro lado do Muro, estou mostrando que há outro lado, ou seja, há dois lados e eles não dialogam. Fiquei do lado do Direito Internacional, dos Direitos Humanos. É óbvio que quando se faz críticas ao Estado de Israel, podem até chamá-la de antissemita, mas elas se dirigem à incursão ilegal nos territórios palestinos. E isso não quer dizer que assumi o lado dos palestinos sem fazer ponderações.  A função do jornalismo é denunciar violações e ficar atento ao lado mais frágil. E o lado mais frágil, na Questão Palestina, não é divulgado pela imprensa.

Qual a proposta que o livro carrega?

O livro faz parte de um esforço conjunto entre pessoas que tentam desmistificar as ideias pré-concebidas sobre o conflito. Mas não só isso. Alguns palestinos tomaram conhecimento de que eu era uma jornalista brasileira e fizeram o seguinte pedido: “conta o que você tá vendo, nada além disso”. Eles sabem que muito do que sofrem é porque a comunidade internacional não sabe de tudo o que acontece. O livro tem essa idéia, de mostrar aspectos ocultados do conflito. É uma função nobre do jornalismo.



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