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18/03/2011 - 09h35 - Atualizado em 23/05/2012 - 09h03

Possível e inaceitável

Por Gabriela Sá Pessoa, Editora do site

Estreia “Não Me Abandone Jamais”, ficção científica que questiona os limites éticos e humanos dos avanços científicos

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Reprodução
O amor entre Kathy e Tommy é atrapalhado por Ruth,
condição ilustrada no posicionamento dos atores na
cena acima

Por detrás do progresso, sempre existe a barbárie. Tal frase ecoa nas falas de diversos pensadores e filósofos, levando à reflexão sobre as implicações do desenvolvimento de determinada economia ou sociedade. Não Me Abandone Jamais, filme dirigido por Mark Romanek, parte dessa premissa: a partir da década de 1960, o expressivo aumento da expectativa de vida na Inglaterra se dá com base no cerceamento da liberdade de pessoas que, involuntariamente, se tornam doadoras de órgãos para os demais cidadãos.

Drama de ficção científica, o longa - e o livro no qual foi baseado - triunfa ao humanizar um enredo propenso a ser mais uma crítica aos excessos da ciência. Ele se destaca de seus congêneres ao colocar em primeiro plano a amizade entre Kathy, Tommy e Ruth – personagens vividas, respectivamente, por Carey Mulligan, Andrew Garfield e Keira Knightley.

Órfãos, eles se conhecem ainda pequenos em Hailsham, internato onde suas perspectivas são formatadas de acordo com o destino que lhes foi planejado. A história é narrada por Kathy, e se desenrola em três anos distintos: 1978, quando eram crianças; 1985, época da adolescência; e 1994, já na fase adulta. Digressões em tempo passado conferem verossimilhança à ficção científica, uma vez que, sem aparatos tecnológicos futuristas, os acontecimentos da película se tornam perfeitamente plausíveis.

 Afinal, nenhum gargalo técnico impediria, hoje, que pessoas fossem criadas em verdadeiros rebanhos a fim de suprir as necessidades do sistema - à exceção da clonagem humana, apenas sugerida no enredo. Assim, a reflexão ética inerente à exploração do indivíduo se torna inevitável.

Na primeira cena, a narradora-personagem afirma: “Não somos máquinas.” A verdade dessa fala é defendida em diversos momentos do filme, o qual contrapõe planos que atentam para a rotina mecanizada das crianças ao amor sincero entre Kathy e Tommy. Esse sentimento é invejado por Ruth, que inicia durante a infância um namoro com o rapaz.

Kathy cresce, mas não abandona seu amor por Tommy, expressando o afeto pelo amigo em suspiros e olhos marejados pelo silêncio. O desajustado Tommy tem bons momentos com a namorada, porém, é pungente a incompletude do rapaz, condição interpretada de maneira magistral por Andrew Garfield.

A afetividade entre as personagens esbarra na lógica do sistema no qual estão inseridas. Sua única missão existencial é doar órgãos e, por isso, são considerados seres desprovidos de alma. Ademais, como seria possível manter um relacionamento convivendo com as arriscadas cirurgias?

Os seres de Não Me Abandone Jamais são privados de seus próprios anseios, levando o espectador a se perguntar sobre qual vida valeria mais: a de uma pessoa que espera por um órgão para sobreviver ou a de jovens que, apesar de quase enclausurados, desejam viver seus sentimentos.

O amor incondicional e a provocação ética conferem complexidade à película. Além disso, trilha sonora e fotografia acertadas, bem como o bem sucedido trabalho de Mulligan e Garfield, conseguem comover os espectadores de maneira peculiar - é quase possível sentir os dramas vividos pelas personagens. De fato, não somos máquinas e, assim, pode-se dizer que Não Me Abandone Jamais cumpriu seu papel: colocar cada pessoa na plateia no papel do subjugado por um sistema desumano.



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