Alejandro González Iñárritu discute morte e desesperança em “Biutiful”, indicado a Melhor Filme Estrangeiro na 83ª edição do Oscar
Quem conhece Barcelona diz que os dias são ensolarados até no inverno, mas em Biutiful, o diretor Alejandro González Iñárritu (Amores Brutos, 21 Gramas e Babel) não mostra uma cidade tão calorosa assim. O mexicano expõe um ambiente escuro, deprimente, em meio aos becos e vielas de bairros que turistas não frequentam, retratando assim a tensão em que vive o protagonista.
Uxbal (Javier Bardem), - indicado ao Oscar de Melhor Ator e premiado em Cannes no ano passado na mesma categoria - é um pai divorciado que trabalha para dar condições básicas de vida aos filhos e descobre que está com câncer na próstata em fase avançada, prestes a perder a vida. Após fatídica notícia ele luta para que os filhos não fiquem desamparados. O clima de tensão se instala, e Iñárritu prova saber lidar com o tema.
A vida de Uxbal não é nada bem resolvida, pois os filhos passam metade do dia com uma babá que, além dos dois, cuida da própria cria em condições precárias. Sua ex-mulher sofre de distúrbios mentais, é amante de seu irmão, alcoólatra e ainda quer reatar a relação conjugal que os dois mantinham. Além disso, ele trabalha no mercado negro espanhol; é amigo de infância de um policial corrupto que o presta “serviços” e arranja alguns bicos com o seu dom de estabelecer contato com os mortos, deixando recados aos seus familiares.
A relação de Uxbal com a morte é um dos temas centrais, que retratada em meio a tradições míticas mexicanas, transtorna a vida de alguém que sabe que partirá. Iñárritu utiliza recursos alegóricos, tais quais mariposas pretas vão se acumulando no teto do quarto do protagonista, conforme sua morte se aproxima. Além de a própria cidade falar por si com tempestades que acinzentam o mar catalão e situações drásticas ao longo do filme.
Biutiful é o primeiro longa em que não há a parceria de Iñárritu com o roteirista Guillermo Arriaga, sendo que o roteiro é do próprio diretor. E isso não por acaso, pois a obra, mais intimista, é dedicado a seu pai.
O tema é frágil e requer cuidado, mas o filme consegue deixar o público em estado reflexivo e mostra a força de Bardem, exibindo um desempenho ímpar diante de um papel desafiador.
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