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24/02/2011 - 20h28 - Atualizado em 23/05/2012 - 08h31

Entre poetas

Por Bianca Paulino, aluna do 2º ano de Jornalismo

Após lançamento de seu livro, Carlos Felipe Moisés reúne amigos e leitores para uma conversa sobre Fernando Pessoa

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Jacskon Oliveira
Tarso de Melo e Carlos Felipe Moisés conversam
sobre Fernando Pessoa a partir do livro Eu sou uma
antologia - frases de um raciocinador

No dia 23 de fevereiro, a Casa das Rosas se transformou em ambiente muito familiar – a impressão que se tinha era a de invadir uma sala onde um grupo de velhos amigos se encontra para jogar conversa fora. Os ali presentes se reuniam para uma conversa sobre Fernando Pessoa, mediada pelos poetas Tarso de Melo e Carlos Felipe Moisés - este último, também crítico e especialista no poeta lisbonense.

Iniciaram o encontro trocando perguntas sobre a elaboração do livro Eu sou uma antologia – frases de um raciocinador, organizado por Carlos Felipe Moisés. Lançada no final de 2010, a publicação apresenta Pessoa de uma maneira inédita: por meio de uma sequência de aforismos, constituídos, principalmente, pelo paradoxo de afirmações que, no decorrer do livro, acabam se contradizendo. O resultado é a combinação de frases aleatórias, que mostram o caos . Este, para Moisés, nada teria a ver com a falta de luz, mas com a absoluta lucidez de um homem que viveu sua vida vasculhando o mundo em busca de explicações para a existência humana.

O organizador criou “constelações temáticas”, reunindo as citações em cinco blocos distintos, e inovou ao omitir de todas elas os autores, isto é, os heterônimos de Pessoa. Desse modo, além de não influenciar a leitura, a antologia provoca no leitor uma sensação inquietante de dúvidas e questionamentos que surgem a partir das contradições. As frases, quando retiradas de seu contexto original, ganham muitos outros sentidos, antes ocultos ou imperceptíveis, e que, por meio de sua (falsa) sequência, brotam até mesmo para o público mais árido. Isso se dá porque “ele [Fernando Pessoa] se presta a tudo, a todas as vertentes do pensamento”, explicou Moisés.

É por essas e outras que o crítico afirma: “Fernando Pessoa é mais atual hoje do que foi há 30 anos”. Isso ocorre com todo grande pensador que, por ir tão fundo em seu próprio tempo, chega a prever tempos futuros.

Ler Pessoa é inevitável. Outros autores que escrevem sobre ele sempre acreditam, em algum ponto de sua pesquisa, terem decifrado sua genialidade – como o próprio Moisés afirmou ter pensado, enquanto estudava Tabacaria. Porém, um livro como esse é a prova mais concreta de que desvendar o poeta não é possível. Trata-se de uma obra que nos entrega mais rapidamente ao caos luminoso, característico da obra do Poeta Fingidor.

A conversa durou quase duas horas – embora pudesse ter se estendido por mais dois dias – e flertou com astrologia, estilística, educação e até mesmo auto-ajuda. Ao final, a conclusão: há qualquer coisa em cada um de nós que, secretamente, espera que todas as dúvidas do mundo se resolvam. E é aí que, tão cheios de certeza, mistificamos os heterônimos de Pessoa e nos esquecemos de que Fernando Pessoa “ele mesmo”, autor por trás de tudo isso, foi um ser que não acreditava em dogmas, brincava com o sentido da verdade e tinha certeza absoluta de que não existem certezas absolutas.



Comentários Comentários Postados
Maria Luiza Antunes dos Santos Marx[28/02/2011 - 22:32]

O comentário é de uma lucidez cristalina. Como pode ver o meu nome, é português e em Portugal vivi algum tempo e também estudei. Claro que aprendi a ler Fernando Pessoa e Florbela Espanca. Adoro os dois. Por isso me interesso tudo que o Carlos Moisés escreve e fala sobre o grande poeta, escritor, exotérico etc. Gostaria de receber por e-mail dias e locais de palestras para eu poder estar presente. abraços

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