Com “O Discurso do Rei”, a realeza britânica briga pela estatueta de Melhor Filme no Oscar 2011
Nos últimos anos, uma das fórmulas de sucesso mais utilizadas para elevar uma produção cinematográfica à categoria de obra de arte, é a combinação de um acentuado sotaque britânico, um retrato histórico fiel e algumas figuras da realeza. A princípio, o O Discurso do Rei, de Tom Hooper, soaria conservador, ou mesmo comum demais aos olhos do público; no entanto, quando promove a fusão do drama histórico com a técnica de direção perfeita, o resultado não poderia ser negativo.
O Discurso do Rei concorre em doze categorias no Oscar 2011, sendo o longa mais indicado e grande favorito para o prêmio de Melhor Filme e Ator para Colin Firth, que interpreta o príncipe Albert, futuro rei George VI.
A obra conta a história de um rei gago, tímido e que carrega o dever de falar em nome de uma nação em uma época de descrédito e temor que precede a Segunda Guerra Mundial. Além de retratar as vivências e decisões de um monarca, O Discurso do Rei traz à tona a relação de união e amizade entre duas pessoas muitos distintas.
Com o auxílio de sua esposa Elizabeth (Helena Bonham Carter), o então príncipe e Duque de York, recorre a inúmeros especialistas na tentativa de solucionar sua gagueira aparentemente incurável. É em Lionel Logue, excêntrico terapeuta e ator fracassado, interpretado por Geoffrey Rush, que Albert adquire um “regente” para seus discursos, com a função de oferecer segurança e veracidade aos seus pensamentos. O filme, que é baseado no livro homônimo escrito por Mark Logue, neto de Lionel, mostra a metamorfose de um rei gago em um verdadeiro líder na época de expansão dos meios de comunicação de massa, como o rádio.
Os métodos pouco ortodoxos de Logue assustam o futuro rei da Inglaterra, que, ofuscado pela oralidade nata de seu pai, George V (Michael Gambon), enxerga seu caso como sem solução, igualando-se a um homem sem voz. É neste momento, que William Shakespeare, considerado o maior dramaturgo de todos os tempos, entra na temática da obra. “Ser ou não ser – eis a questão. Será mais nobre sofrer na alma pedradas e flechadas do destino feroz ou pegar em armas contra o mar de angústias? [...]”. Este trecho extraído de Hamlet, a tragédia mais famosa do poeta inglês, é pronunciado por Bertie – apelido familiar utilizado por Lionel – em uma tentativa de amenizar a gagueira enquanto um discurso é proferido. Mais do que ajudá-lo em seu tratamento, a poesia de Shakespeare parece, de alguma forma, definir a própria postura de George VI: um homem que precisava ser ouvido por seu povo, e que não tinha forças para lutar e contornar sua gagueira e angústias.
O filme funciona comercialmente por inúmeras razões: a atuação impecável de Geoffrey Rush; pitadas de humor necessárias que quebram a linha clássica e, às vezes, rígida do filme e pela impensável amizade entre as personagens Bertie e Lionel. O Discurso do Rei, portanto, não relata apenas a vida de um monarca na sucessão ao trono real, mas, também, a história de um homem que, gradativamente, muda seu destino.
Somando o roteiro enxuto de David Seidler, a fotografia documental de Danny Cohen, a direção precisa de Tom Hooper e as atuações do “trio protagonista” (Firth, Carter e Rush), O Discurso do Rei só poderia ser considerado um trunfo do cinema atual.
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