Dono de um talento que ultrapassa as fronteiras de seu país, Liniers transforma em humor a sensibilidade humana
Abrir a penúltima página da Ilustrada, suplemento cultural da Folha de S. Paulo, e não se deixar conquistar pela tirinha Macanudo (“bacana”, no espanhol das ruas portenhas) é um verdadeiro sacrilégio. Criação do argentino Ricardo Liniers, a série de histórias chama atenção para as pequenas ironias do cotidiano, as quais são pintadas com as tintas do fantástico.
O cômico de Macanudo não é oferecido gratuitamente, o que a distingue das demais tirinhas de humor. Por vezes, as histórias são melancólicas, com personagens frustradas e, no mínimo, bizarras. No entanto, o caráter espinhoso das vicissitudes cotidianas é amenizado pela técnica de Liniers, a qual, muitas vezes, lembra o trabalho dos brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá. A constante mudança do foco narrativo - que vai da azeitona Oliverio ao pensamento de um hipopótamo - e a visão dos diferentes ângulos da realidade (o desenhista aposta no infinitamente grande e infinitamente pequeno) são os principais trunfos do argentino.
As temáticas ficam por conta das diferentes personagens de cada história. Por exemplo, quando uma tirinha é protagonizada pela garotinha Enriqueta e seu gato, Fellini, pode-se esperar uma singela reflexão sobre arte e filosofia. Já as aventuras de Z-25, “o robô sensível”, mostram que, nos dias atuais, até mesmo uma máquina consegue ser mais humana do que o próprio homem. O próprio autor aparece em algumas tirinhas como um coelho de óculos, o qual questiona o processo criativo de seu trabalho.
De fato, não é qualquer artista que possui a coragem de se recriar em sua própria obra - talvez seja essa uma tarefa digna dos mais apaixonados pelo próprio trabalho. É esse o caso de Liniers, um desenhista incurável, que cresceu lendo os quadrinhos Mafalda e Tintin. Nascido em 1973, começou a desenhar ainda criança. Porém, em vez de pintar a tradicional composição casinha-árvore-sol, o garoto se aventurava nos traços de Darth Vader e Anakin Skywalker. O motivo? Num tempo em que o videocassete era para poucos, o único modo de o pequeno Ricardo ter as personagens de Star Wars consigo era desenhando-as.
Liniers se formou em Publicidade, porém não exerceu a profissão. Suas primeiras realizações, na verdade, foram contribuições para fanzines e periódicos. Sua grande estreia se deu nas páginas de NO!, suplemento do jornal Página/12, onde trabalhou de 1999 a 2002. À época, o quadrinista assinava semanalmente a tirinha Bonjour que, em 2005, foi compilada em livro homônimo.
Grandes quadrinistas argentinos começaram a se interessar por suas criações. Dentre eles, Maitena, responsável por Mulheres Alteradas, que o apresentou ao La Nación em 2002. Desde então, o final da penúltima página do caderno Espectáculos ficou mais Macanudo – principalmente ao se considerar o pessimismo dos noticiários daquele período, marcado pela grave crise econômica sofrida pela Argentina.
A ideia de trazer beleza e humor ao periódico deu certo. Tanto que Macanudo passou a ser editado na Espanha e em diversos países da América Latina. Além disso, as tirinhas já foram reunidas em sete volumes (o último deles, lançado em 2010) e, inclusive, transformadas em agendas.
Guardadas as devidas proporções, enquanto Liniers continuar criando, a terra de Borges e Cortázar pode dormir tranquila. Assim como seus conterrâneos literatos, o quadrinista sabe, como poucos, transformar em arte o imaginário dos argentinos e de qualquer cidadão do mundo. Afinal, sensibilidade é sensibilidade na América, África, Europa, Ásia ou Oceania.
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