Diogo Nogueira mostra, em novo trabalho, requinte e ares nostálgicos a quem não resiste a um bom samba
Quem nunca ouviu aquela súplica feita pelos compositores Edson e Aluízio e cantada pela poderosa voz de Alcione? Trata-se de um verso no qual um experiente sambista, à beira da morte, chama por seu semelhante mais novo e deixa-lhe um último pedido: ”não deixe o samba morrer”.
Houve quem dissesse que o óbito do ritmo estava muito próximo. Porém, graças talentosos jovens da Lapa - bairro que encarna a boemia carioca -, a profecia virou conversa fiada. Uma dessas figuras é Diogo Nogueira, que lançou, em novembro, seu segundo DVD ao vivo e com um título feito para criar expectativas: Sou Eu - Ao Vivo.
O sambista vem de uma linhagem de “bambas”. Filho do ilustre João Nogueira, o pequeno Diogo cresceu entre batuques, cavacos e violões. Não deu outra: tornou-se revelação da música popular brasileira e principal representante da mais recente geração de sambistas.
O cantor mantém fortes vínculos com a tradição e, ao mesmo tempo, traz renovação ao ritmo. Sou Eu - Ao Vivo é um trabalho de alta qualidade, com todo o refinamento musical digno do samba, que já contou os brilhantes Noel Rosa, Adoniram Barbosa, Paulinho da Viola e Nelson Cavaquinho.
O repertório do show que deu origem DVD conta tanto com músicas dos últimos trabalhos de Diogo - em especial, do disco antecessor Tô Fazendo Minha Parte (2009) -, quanto canções já consagradas, como Lama nas Ruas, Homenagem ao Malandro, É Hoje e Aquarela Brasileira. Além disso, o show teve as participações de Alcione, Ivan Lins, Hamilton de Holanda, Cia. de Dança Carlinhos de Jesus e Chico Buarque. Aliás, nas atuais circunstâncias, fazer Chico subir ao palco não é para qualquer um.
A grande composição - e o ápice do show - vieram das mãos de Ivan Lins e Chico Buarque: Sou Eu. Música de altíssima qualidade, ela dá o nome ao DVD e é como uma bênção dada a Diogo, com a certeza de que o samba ainda sobrevive forte e pulsante.
Além disso, em seu atual trabalho, as comparações entre Diogo Nogueira e seu pai deixam de ser tão irresistíveis. Mesmo interpretando canções de seu progenitor - uma dádiva tanto para os mais saudosistas quanto para os menos apegados -, o sambista consegue construir sua identidade musical. Por mais que o estilo do cantor não seja mais tão parecido com o do pai, ainda é cedo para afirmar que o intérprete já possua sua marca registrada. No entanto, não é um grande risco dizer que ele trilha pelos caminhos certos.
O DVD Sou Eu – Ao Vivo é uma injeção de nostalgia em quem encontra no samba seu doce refúgio. A batucada dos nossos tantãs não será silenciada tão cedo, pelo menos enquanto Diogo Nogueira continuar cumprindo sua tarefa. Hoje em dia, não tem como deixar de sambar com os novos talentos da música brasileira. A não ser, é claro, que alguém esteja ruim da cabeça ou doente do pé.
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