Em “Tetro”, Francis Ford Coppola mistura teatro, dança e ópera para complementar o tema mais recorrente em suas obras: o drama familiar.
Do mesmo diretor de Apocalypse Now e O Poderoso Chefão. Essa é a frase que apresenta o mais novo filme de Francis Ford Coppola, Tetro, ao circuito cinematográfico - e resume, de maneira injusta, a obra do diretor a apenas dois sucessos. Assim como os relacionamentos e conflitos familiares povoam a maior parte dos filmes do diretor, Tetro é, também, povoado pelas incertezas e dúvidas de uma família aparentemente destruída.
Se Velha Juventude, de 2008, marcou a volta de Coppola à direção após uma década, Tetro consagra o retorno do cineasta ao estilo visualmente floreado e rebuscado que sempre foi uma de suas maiores características. O jogo de sombras e de espelhos permeia todo o enredo, além das imagens em preto e branco luminoso que compõem a maior parte do filme.
Logo no início, uma frase pichada em um muro da velha Buenos Aires parece explicar o que o espectador está prestes a presenciar durante os próximos 125 minutos: “no sueltes la soga que me ata a tu alma” (não solte a corda que me prende à sua alma). Filmado na Argentina, o longa conta a história de Bennie (Alden Ehrenreich), um jovem americano que vai ao encontro de seu irmão, Angelo - agora conhecido por Tetro (Vincent Gallo) -, um escritor amargurado pelas sombras de sua família e, principalmente, de seu pai, um famoso maestro.
Ao encontrar um irmão diferente de suas lembranças, Bennie passa a tentar desvendar os mistérios por trás da vida dele, sendo, assim, a verdadeira engrenagem que movimenta a história. A trama é apresentada aos poucos, uma parte pelo próprio Tetro e outra por meio dos textos que ele havia escrito. Bennie, com o auxílio de Miranda (Maribel Verdú), esposa de Tetro, vai unindo peças, como se fosse um quebra-cabeça, para entender um pouco mais sobre sua família.
Goethe, lembrado no filme em virtude de seu Fausto, dizia que “quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma, todo o universo conspira a seu favor”. A frase do poeta e pensador alemão parece ter sido feita para explicar não só a obra de Coppola, mas todas as angústias vivenciadas por Tetro.
Para lidar com os inúmeros conflitos familiares e potencializar o efeito sombrio do filme, o diretor utiliza algumas ferramentas do gênero melodramático para compor sua narrativa: música instrumental para “sentimentalizar” as emoções dos personagens, diferentes enquadramentos de espelhos, metalinguagem teatral e a ópera que parece contar, em ritmo, a história de uma família tipicamente italiana.
Na família Tetrocini, os mistérios do passado são como um prato sendo equilibrado em uma vareta, sujeito a cair a qualquer momento em cima da cabeça de seus membros. A trama, no entanto, só será finalmente explicada quando os dois irmãos fazem uma viagem a um festival de artes na Patagônia, onde a peça de Tetro – concluída por Bennie – será exibida. Contando com a aprovação de uma renomada crítica de arte chamada Alone, interpretada pela talentosa Carmem Maura, a peça encerra o drama da família Tetrocini sob o olhar dos dois irmãos. A linguagem utilizada se aproxima, em grande parte, ao teatro de característica absurda com uma pitada generosa do melodrama das óperas italianas.
Francis Ford Coppola, considerado por muitos um dos maiores gênios do cinema mundial, enfrentou algumas dificuldades financeiras – que só foram solucionadas pelo dinheiro vindo de sua vinícola - para contar a história de Tetro e, consequentemente, de sua própria família. Filho de compositor e sempre cercado por dramas familiares, seja no cinema ou na vida pessoal, Coppola retorna como um diretor experiente em um filme repleto de incertezas e conflitos. Quem sabe, daqui a alguns anos, a frase “do mesmo diretor de Tetro”, não estará escrita nos pôsteres de um de seus filmes...
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