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20/12/2010 - 18h00 - Atualizado em 22/05/2012 - 15h09

Sobre valores e fraternidade

Por Gabriela Sá Pessoa, Editora do site

O filme "A Árvore" trata da relação dicotômica entre origens familiares e construção da identidade

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Reprodução
A família O'Neil reunida sob os galhos da figueira
plantada em seu jardim

Ainda pequenos, aprendemos a representar as gerações de nossas famílias em uma árvore. Nas raízes, desenhamos os nomes dos ancestrais mais antigos e, nas folhas, aqueles que mais recentemente se uniram ao clã.

Dentre tantas outras simbologias, a planta também pode significar continuidade: diz o ditado que quem pretende ser eterno deve ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Tal metáfora para a eternidade dos laços familiares dá o tom do mais recente trabalho da diretora Julie Bertucelli, A Árvore, filme selecionado para o encerramento do Festival de Cannes em 2010.

Inspirado no romance Our Father Who Art in The Tree, de Judy Pascoe, o longa narra a história da família O’Neil, que perde seu patriarca de uma maneira incomum. Logo após voltar de uma viagem a trabalho, Peter O’Neil sofre uma parada cardíaca e morre aos pés da figueira plantada em seu jardim. 

A mãe, Dawn  (Charlotte Gainsbourg), não quer superar a dor provocada pelo falecimento do amado, mantendo-se presa a seus objetos pessoais. Já Simone (Morgana Davies), única menina entre os filhos, encontra uma maneira mais encantadora de guardar luto. A garota passa acreditar que a alma de seu pai passara a viver no interior da árvore, transportando, assim, parte de sua vida para os galhos da planta. Durante as tardes, ela sobe na figueira e pede a ajuda do pai com as tarefas do colégio e, à noite, se refugia dos pesadelos no farfalhar das folhas que lhe transmitiam a voz do progenitor.

Simone prende-se ao alento oferecido pela planta, porém a vida tem de seguir seu rumo. Dawn começa a trabalhar e encontra um novo amor, ao passo que o filho mais velho decide sair de casa. Além disso, as raízes da figueira crescem tanto que começam a comprometer a estrutura da casa da família, sendo necessário cortá-la para salvar a propriedade.

A Árvore provoca uma reflexão sobre a necessidade de nos mantermos fiéis aos valores transmitidos por nossas famílias. Em tempos pós-modernos, marcados pela dissolução de princípios, nunca é demais relembrar a importância de saber quem somos e de onde viemos. No entanto, quando as nossas raízes começam a impedir que encaremos a realidade para continuar vivendo, é necessário nos apartarmos delas para construirmos nossa própria identidade. Como Freud dizia, é preciso romper o “cordão umbilical” que nos liga a nossos pais.

Julie Bertucelli acertou na construção do filme, principalmente, no que diz respeito aos planos em que a figueira é mostrada em toda a sua magnitude. Ademais, Morgana Davies e Charlotte Gainsbourg trazem à película uma sutileza na medida exata, em atuações dignas do alto nível de dramaticidade exigido pelo tema.



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