Alunos de jornalismo fazem TCC sobre imigrantes que buscam asilo no Brasil e são apoiadas por casas
Apresentado nessa quinta-feira, o documentário “Casarão 247: saudades da terra, recomeço no Brasil” foi feito pelos alunos Helton Gomes, Karina Gomes e Paulo Scheuer. A banca contou com a presença do cineasta João Batista de Andrade e Elisa Marconi, professora da Faculdade Cásper Líbero e vice-coordenadora do núcleo de Rádio e TV. A professora de Telejornalismo Tatiana Ferraz foi qualificadora do trabalho de conclusão de curso que conta a história de estrangeiras que chegam ao Brasil refugiadas por conta de perseguições políticas, étnicas ou por violação de direitos humanos. Uma colombiana e uma senegalesa foram escolhidas como as principais representantes do arquétipo pesquisado pelo grupo.
Além de contar o funcionamento do Casarão anunciado no título da obra, que tem como nome Casa Nossa Senhora Aparecida, os alunos abordaram a questão das “mulas”, mulheres que servem de transporte de droga e, por isso, acabam presas. Karina explicou que as casas de apoio servem para que as refugiadas permaneçam, no máximo, um ano após o livramento condicional – já que para receberem tal sentença, precisam de um endereço fixo. “Lá elas recebem, com a ajuda de instituições associadas, aulas de português, auxílio para conseguir emprego, além de terapia comunitária”, contam.
Karina e Paulo já haviam trabalhado juntos anteriormente, seguindo o mesmo tema. Foi produzindo “Refugiadas e egressas: saudades da terra, recomeço no Brasil” que a dupla entrou em contato com o tema que se repercutiria num TCC junto de Helton. A série de reportagens para rádio foi feita, em 2009, para o Prêmio CBN de Jornalismo Universitário, do qual levaram o primeiro lugar. “Conhecemos a Casa naquela oportunidade e já tínhamos bastante material, porém quando voltamos no local esse ano, várias entrevistadas haviam partido”, lembra a autora.
Nas considerações, Andrade usou bom tempo de sua fala para relembrar suas experiências como cineasta. “É um sofrimento lançar um documentário e ficar esperando pelo julgamento. Às vezes fico até sem dormir, esperando a resenha sair no jornal”, comenta. Amigo pessoal do jornalista Vladmir Herzog, morto durante o regime militar, e autor do documentário Vlado (2005), Andrade refletiu sobre o uso de fontes oficiais em contraposto à fala das pessoas comuns. “Quando algo acontece na favela, o favelado é a fonte oficial”, apontou o escritor de O Povo Fala: um cineasta na área de jornalismo na TV brasileira (Editora Senac, 2001).
Sensível à temática da ditadura, Andrade assumiu também se emocionar com a causa das refugiadas. No entanto, ele fez algumas críticas quanto o recurso de esmaecimento usado na face de uma das entrevistadas. A personagem pediu para não ser identificada após um incidente ocorrido durante o TCC: a Polícia Federal invadiu a Casa, chegando a inspecionar lugares que não são permitidos à visita. “O efeito acaba tirando a credibilidade”, afirmou o cineasta que, apesar de tudo, compreendeu o contexto. Andrade também elogiou o grupo por ter trazido imagens da Igreja Católica inéditas para ele: “Eu não sabia que eles também ajudavam essas mulheres. Para mim, isso é novidade.”
Elisa fez vários comentários sobre o memorial, dizendo-o tão bem escrito que deixou como sugestão ao trio para que completassem a série multimídia (rádio e audiovisual) com um livro sobre o mesmo assunto. “Percebi com esse documentário que todos são imigrantes em São Paulo. Vocês chegaram onde um documentarista tem que estar: não teve entrega cega, houve olhar crítico”, comentou a professora. A vice-coordenadora de RTV também achou de grande mérito a escolha do grupo em não se abater com a invasão da Polícia Militar. “Esse incidente acabou intimidando as mulheres e foi bem no meio do ano”, lembraram os autores.
Por fim, a professora Tatiana fez suas considerações apontando a diferença entre o que eles quiseram passar e o que os espectadores podem ter entendido. Fazendo uma série de perguntas aos alunos, a qualificadora concluiu que o trio foi, no bom sentido, menos jornalista do que um jornalista deve ser. “Vocês optaram pela emoção, mas também usaram recursos jornalísticos, como a narração em off”, disse. Assim, a banca foi concluída com uma reflexão feita por Helton, que ousou dizer que o Brasil é um país de refugiados, por conta da grande variação de nacionalidades. A nota da banca foi 9,5.
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