Como o cordel representa os Presidentes do Brasil na mídia impressa e na web
O que Gustavo Dourado, Minelvino Francisco da Silva, Cuíca de Santo Amaro e Gonçalo Ferreira da Silva têm em comum? Todos eles são cordelistas e foram peças-chave na elaboração do projeto experimental da estudante de jornalismo Juliana de Freitas Dias.
A aluna, orientada pelo professor de Técnicas de Redação da Faculdade Cásper Líbero, Wellington Andrade, apresentou no dia 24 de novembro o TCC A presidência democrática em cordel: comunicações e representações à banca examinadora, composta pela qualificadora, Helena Jacob, professora de Jornalismo em Revistas e coordenadora de Trabalhos de Conclusão de Curso da Faculdade, e pelas convidadas Maria Gorete Juvêncio, professora de Realidade Sócio-Econômica e Política Brasileira e coordenadora do Centro Interdisciplinar de Pesquisa (CIP) da mesma instituição, e Mônica Martinez, jornalista, escritora e professora universitária da disciplina de jornalismo literário.
Juliana demonstrou desenvoltura ao falar do cordel como manifestação cultural de costumes e valores da comunidade. Segundo ela, o gênero literário, que apresenta uma narrativa lírica, mística e não unilateral, é fonte de informação e opinião. O cordelista observa os fatos, avalia-os e interpreta-os, o que significa que existe por trás desse gênero literário uma investigação própria. Assim, o cordelista seria um repórter dos fatos, porque mostra a sua versão dos acontecimentos, e o cordel uma espécie de jornalismo popular ou mídia independente, já que tem autonomia física – é o próprio cordelista que cria, produz e vende suas poesias – e de informação.
O ponto explorado por Juliana foi a maneira como os cordéis representam os presidentes do Brasil. A estudante, que já havia tratado da literatura de cordel em projeto desenvolvido para o CIP, dentro do campo do sistema cultural de comunicação, percebeu que "através do cordel era possível saber os fatos mais importantes de cada um dos presidentes do país” e resolveu analisar o tema sob um nova perspectiva. A aluna descobriu as representações das maiores autoridades da nação por meio de consultas realizadas nos arquivos da Casa das Rosas e da Fundação Casa de Rui Barbosa e de visitas feitas a sites que disponibilizam cordéis – digitalizados ou preparados especialmente para a web. Além disso, Juliana tomou como base os trabalhos de intelectuais que já trataram do assunto, como os do acadêmico russo Vladimir Propp.
Getúlio Vargas foi o herói-mártir que morreu pela pátria; Juscelino Kubitschek o visionário; João Goulart, por conta da sua duvidosa relação com o comunismo, é classificado como o herói ambíguo; Tancredo Neves, por ter sido o símbolo do retorno da democracia, foi o grande mártir da república; José Sarney é o antagonista de Tancredo; Fernando Collor o principal antagonista; Fernando Henrique Cardoso é o falso herói; e Lula o grande representante do realismo fantástico, aquele que é a voz do povo.
Exposto o projeto, as convidadas criticaram a omissão de alguns dados importantes, erros na construção das referências e a grande extensão do recorte realizado. Sobre este último ponto, a avaliação considerou que houve reserva de armadilhas, como a impossibilidade da construção de uma análise mais aprofundada da história política e social pertinente ao período do mandato de cada presidente. Foi comentada também a falta de destaque atribuído à história dos cordelistas e a ausência dos próprios cordéis analisados nos anexos do projeto.
Mas as críticas e observações não superaram os elogios da banca, que ressaltou o talento e a pré-disposição de Juliana para a realização da pesquisa, além da possibilidade de a aluna desenvolver o assunto em teses de mestrado e doutorado. A estrutura bem definida da pesquisa, a contemporaneidade e a originalidade do assunto tratado e a exposição de Juliana também foram enaltecidas, pontos que renderam à estudante nota 9,5.
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