Vincere narra a construção da personalidade de Mussolini sob um ângulo inexplorado
O discurso político, a sede de poder e a falta de escrúpulos de um regime totalitário. São esses alguns dos aspectos abordados em Vincere - “vencer”, em italiano. No filme, o diretor Marco Bellocchio prova, mais uma vez, todo seu talento e perspicácia quando o assunto é política, conforme ele já demonstrou em Bom dia, noite (2003).
A história é centrada na luta pessoal de Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno), que engravida de um ainda jovem Mussolini, interpretado por Filippo Timi. A partir do nascimento da criança, a mulher empenha-se em uma verdadeira cruzada a fim de buscar o reconhecimento do já idolatrado Duce.
O Mussolini mais novo que vemos na tela é, a princípio, empenhado na luta comunista e prega discursos contra a existência de Deus. No entanto, ele logo se torna um dissidente desse movimento e, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, passa a adotar ideais que constituiriam a base do fascismo. A hipótese de que o poder corrompe o homem, ilustrada pela aliança com a Igreja Católica em momento sublime da película, escancara a natureza corruptível e opressiva das instituições.
Ademais, a verdade buscada e defendida por Ida parece, muitas vezes, não existir. Porém, frente à angústia e ao desespero da mulher, acabamos confusos e tomados pela tensão não apenas para o desfecho do caso, mas também pela busca dessa verdade, proclamada cada vez mais drasticamente pelo desenrolar da trama. Enquanto o país se digladia nas questões do Estado e do poder, Ida Dalser segue sua empreitada com persistência, chegando a superar os limites impostos pela arrogância de seu amado.
Algumas cenas de Vincere surpreendem por trazerem uma qualidade estética peculiar ao cinema dos dias de hoje. Os recursos tipográficos em imagem envelhecida, utilizados para retratar o consciente e o subconsciente de Mussolini, mostram a ousadia de Bellocchio e conferem um poder à cena digno do drama vivido pela Itália naquele período. Panfletos dizendo “a guerra é a higiene do mundo” representam, de forma arrebatadora, a insanidade que alicerça o imaginário e a práxis fascista.
Merecem destaque as excelentes atuações de Giovanna Mezzogiorno e Filippo Timi, que também interpreta Benito Albino, o filho do Duce. Os atores incorporam toda a força que os personagens em jogo pedem.
Fugindo de temas recorrentes em tramas que tratam os regimes totalitários, o diretor nos apresenta uma obra que investiga um fato histórico pouco conhecido. Ao mesmo tempo, Bellocchio disseca o obscurantismo e o charlatanismo do fascismo concentrados na figura teatral de um líder, o qual parce estar tomado pelo fantasma da loucura mais do que a desesperada Ida. As belíssimas inserções de cenas reais do ditador proferindo discursos às massas se encaixam perfeitamente na proposta do filme. Vincere agrega belos recursos estéticos a um importante registro histórico, fundamentado em contundente crítica de Bellochio - um nome cada vez mais consagrado no cinema político.
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