Comemorando 8 anos de existência, o Café Filosófico do dia 11 de novembro tratou dos 100 anos da Revolta da Chibata e de um país que esquece de seus heróis e não supera preconceitos
No famoso “Escadão” do prédio da Gazeta, as mulatas da do GRES Camisa Verde e Branco eram saudadas, sambando em plena Avenida Paulista. Do lado de dentro, por conta do mau tempo, os presentes no Café Filosófico saudavam “as mulatas, as cascatas, as baleias”, como diriam João Bosco e Aldir Blanc em Mestre Sala dos Mares, canção sobre a centenária revolta liderada por João Cândido contra os castigos físicos na Marinha brasileira.
A discussão foi aberta pela professora Regina Maria Salgado Campos, Doutora em Letras (Língua e Literatura Francesa) pela Universidade de São Paulo. Sua fala trouxe aos ouvintes um panorama histórico do Brasil de 1910 e do Rio de Janeiro que, recém modernizado, atraía intelectuais franceses e repercutia em jornais como o Le Figaro. A professora destacou o descontentamento da Marinha brasileira com as reportagens publicadas nesse periódico, ainda que a imprensa estrangeira destacasse o caráter não político da Revolta. Uma das opiniões sustentadas por articulistas franceses da época foi a de que os marinheiros mereciam punição exemplar, e não a anistia, como aconteceu na época. Tal opinião acabou por ser “endossada” na revolta que aconteceu no ano seguinte, na Ilha das Cobras, próxima ao Rio de Janeiro. A segunda revolta, contou Regina Maria, teve implicações muito mais sérias. O Rio de Janeiro declarou estado de sítio e as punições aos revoltosos foram gravíssimas. Os marinheiros ficaram enclausurados em péssimas condições. João Cândido foi um dos únicos sobreviventes entre os marinheiros.
Após a contextualização da Revolta, Renato Adriano Rosa, ativista do Movimento Negro e membro do Círculo Palmarino, seguiu a discussão tratando da visão histórica sobre o afrodescente no Brasil. Na opinião do palestrante, somos um país marcado pela falta de identidade: ignoramos vários de nossos heróis para manter uma estrutura social patriarcal, racista e centrada na figura do “homem branco”. Prova disso é que, nos livros de História, pouco se fala da Revolta da Chibata e, menos ainda, da figura de João Cândido. Este último, foi o grande responsável pela organização do movimento e pela união dos marinheiros em torno de suas reivindicações, desfilando com destreza de mestre sala os navios na baía da Guanabara, com os canhões dos navios apontados para o distrito federal da época.
Rosa ainda ressaltou a importância de retratar João Cândido e Zumbi dos Palmares como verdadeiros heróis para fomentar o orgulho negro no país e, também, inspirar as próximas gerações. Além disso, o ativista criticou a perspectiva sob a qual a escravidão é contada pela História: “o negro não ‘era escravo’, mas ‘foi escravizado’”, diz. Para ele, apesar de parecer uma formalidade, mudar as vozes verbais é uma atitude carregada de sentido, pois ”o negro nunca aceitou passivamente a escravidão”, completa.
Usando como exemplo sua própria experiência, Rosa ainda contou que sofreu com a falta de informação na época escolar. Ele só descobriu diversos personagens “depois de velho”, por interesse próprio. Por fim, o palestrante aproveitou a ocasião para divulgar a II Semana da Consciência Negra da EACH (Escola de Artes e Ciências Humanas), que acontecerá entre os dias 16 e 18 de novembro na USP Leste. Neste ano, o tema das discussões será Histórias não Contadas e tem o intuito de recuperar a luta negra ao longo da História brasileira.
Ao final do Café, ficou claro que a democracia racial somente deixará de ser um discurso demagógico no Brasil se houver mudanças na educação, a começar pelo Ensino Básico. Um país plural como o Brasil não pode tratar de maneira tão arbitrária os diferentes credos, etnias e gêneros que compuseram sua História.
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