Arte do canal

índice geral



Home / Cultura Geral / Entrevistas

11/11/2010 - 18h04 - Atualizado em 22/05/2012 - 13h51

História não tão sagrada

Gabriela Sá Pessoa, Editora do site

O passado dos “contos do vigário” é revelado em novo livro do professor José Augusto Dias Júnior

Compartilhe:


Foto: Gabriela Sá Pessoa
Em O Conto e Os Vigários - Uma História da Trapaça
No Brasil,
o professor José Augusto Dias Júnior
investiga os mecanismos do estelionato no país

Contar a História que não está nos livros e que, tampouco, foi registrada largamente em processos judiciários foi o desafio assumido por José Augusto Dias Júnior - professor de História Contemporânea dos cursos de Jornalismo e Rádio e TV da Faculdade Cásper Líbero.

Em seu novo livro, Os Contos e Os Vigários - Uma História da Trapaça No Brasil, o historiador tenta explicar as razões pelas quais o estelionato é praticado e, a partir disso, recuperar o contexto histórico dos diferentes casos em que ele foi aplicado no país.

Na entrevista abaixo, o historiador conta as dificuldades enfrentadas para compilar os registros históricos sobre os “contos do vigário” brasileiros, bem como revela alguns dos elementos abordados em sua obra.

 O lançamento de Os Contos e Os Vigários está marcado para o dia 20 de novembro na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915 – Pinheiros, São Paulo), das 15h às 18h.

O historiador Paulo Miceli, na apresentação de Os Contos e Os Vigários, afirma que a primeira mensagem contendo um “vírus” recebida pela humanidade foi o Cavalo de Tróia. Tal fato não deixa de ser um golpe. No que diz respeito à realidade sócio-histórica brasileira, o senhor poderia citar o primeiro grande “conto do vigário” aplicado em nosso país?

Não sei apontar exatamente o primeiro. Porém, é interessante que o chamado “conto do vigário” no Brasil antes era conhecido como burla. Evidentemente, ao longo de nossa história, sempre houve engano e as pessoas sempre quiseram levar vantagem. A burla, no entanto, é ainda correspondente àquele Brasil rural, em que o sujeito praticava o engano uma vez ou outra. Ela pode ser comparada ao engano praticado em escala artesanal. O “conto do vigário” é diferente, pois é aplicado numa sistematicidade aplicável à escala industrial. Isso acontece porque, nas cidades médias e grandes, o vigarista se profissionaliza e passa a viver de seus golpes.

Existe algum registro de como eram esses primeiros vigaristas profissionais?

Em primeiro lugar, seria legal explicar que pesquisar esses “contos do vigário” é uma tarefa muito interessante, mas, ao mesmo tempo, difícil. Quando o vigarista consegue se dar bem mesmo, ele não deixa nenhum registro. Não deixando nenhum registro, como nós, historiadores, poderemos consultar esse passado? Então, tenho certeza de que existe uma quantidade imensa de golpes que a vítima nem chegou a descobrir. Sendo assim, ela não fez queixa e, portanto, não deixou nenhum documento ou processo - o que já é um ponto de vista interessante do modo como você faz História, pois mostra as limitações da pesquisa.

Como o vigarista escolhe as vítimas de seus golpes? É uma atitude arbitrária?

De jeito nenhum. Uma das qualidades do vigarista profissional é a de identificar a pessoa mais propensa a cair em um determinado golpe. Essa escolha se dá pela observação do andar, do comportamento ou da roupa da pessoa, e, claro, pela experiência do golpista. O vigarista tem algo de psicólogo ao selecionar as vítimas.

Afinal, qual a origem da expressão “conto do vigário”?

Uma das coisas mais divertidas da pesquisa foi descobrir dezenas de versões para explicar essa expressão. Eu acho isso muito adequado, tendo em vista que o “conto do vigário” é o mundo da ilusão, da enganação. Tem mais é que ter dezenas de versões! Uma delas foi contada, em 1926, pelo poeta Fernando Pessoa. Ele escreveu uma crônica deliciosa dando uma versão completa para a origem da expressão. Ele dizia que viveu, em Portugal, há muito tempo atrás, um grande português chamado Manuel Peres Vigário que, certa vez, passou adiante algumas notas falsas. Esse acontecimento entrou para a história como os “contos de réis do Manuel Peres Vigário” ou “os contos do vigário”. E eu poderia te dar um monte de outras versões, na verdade, eu gosto de todas elas!

Em quê as picaretagens aplicadas no Brasil se diferem das praticadas em outros países?

O que me chama muito a atenção no Brasil é a quantidade grande de golpes em que a vítima acredita estar levando vantagem sobre alguém. Isso diz muito sobre a nossa cultura. Sérgio Buarque de Hollanda, no livro Raízes do Brasil, diz que o Brasil foi formado a partir da ética da aventura. Os portugueses chegaram aqui imaginando "fazer a América" e conquistar riquezas rapidamente, mentalidade que deixou marcas muito profundas na cultura brasileira. A gente sempre fica sonhando com aquela oportunidade de nossas vidas, que vai aparecer uma vez só e, se a gente conseguir reconhecer, faz fortuna. Como os golpistas são muito talentosos, eles oferecem exatamente isso. Acho muito significativa essa proliferação de golpes no Brasil em que o enganado acha que está enganando, pois isso diz algo a respeito de nosso ambiente social, da nossa obsessão por levar vantagem em tudo.

Alguns golpes são tão bem feitos que originam filmes sobre as histórias desses vigaristas. Um deles é Prenda-me Se For Capaz, de Steven Spielberg. Nesse sentido, o senhor se inspirou em algum deles ou possui um favorito do gênero?

Gosto de Golpe de Mestre [dirigido por George Roy Hill] e do extraordinário Nove Rainhas [de Fabián Bielinsky]. House of Games, escrito e dirigido por David Mamet, também é muito bom. Os filmes sobre vigaristas são tradicionais, gosto de vários, mas são desses que me lembro agora...

No site da Veja São Paulo, você também pode conferir uma matéria feita por Isabella Villalba, aluna do 3º ano de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, onde o professor contra outros casos.


Os Contos E Os Vigários – Uma História da Trapaça No Brasil, de José Augusto Dias Júnior. Editora Leya, 326 páginas. Preço sugerido: R$ 44,90.



Comentários Comentários Postados
giovana[16/11/2010 - 20:19]

gostei muito da entrevista, gabi! fez boas perguntas. o vídeo está muito bom também! PS: adorei a foto! haha

Comentários Envie o seu comentário

Caro leitor, esse espaço foi criado para que você opine e discuta a matéria que acabou de ler

Cada comentário comporta no máximo 600 caracteres.

Os comentários devem se ater ao texto publicado.

Mensagens ofensivas, provocativas ou que contenham palavras de baixo calão serã excluídas.

restam caracteres.