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27/10/2010 - 11h20 - Atualizado em 22/05/2012 - 13h30

Um pária contra a civilização

Por Rodrigo Oliveira, Editor do site

"Paris, Texas" expõe delicado retrato sobre a segunda chance de um outsider

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Reprodução
Fusão dos rostos dos atores Harry Dean Stanton e
Natassja Kinski em cena do filme

A 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo homenageia o diretor Wim Wenders. O alemão passou por diversas fases e expôs muitas das questões em voga em sua vida nos trabalhos apresentados nas décadas passadas. O desencanto com as terras do Tio Sam, o encontro com Nicholas Ray e a abordagem crua e indigesta de seu discurso pós 11 de setembro com o longa Medo e Obsessão, são apenas alguns dos momentos marcantes da carreira do artista. O evento nos brinda com obras irretocáveis de Wenders, dentre elas o aclamado Paris, Texas.

Em paisagens áridas encontramos Travis, interpretado por Harry Dean Stanton. O seu olhar difuso compete com o ambiente insólito do Texas, que nos apresenta um andarilho no meio de notória vastidão. Visivelmente abatido, tenta se recuperar do choque após abandonar a esposa Jane, papel de Natassja Kinski.

O longa dialoga com o universo particular criado por Travis e que Wenders exterioriza para os espectadores. Quando o irmão Walt, vivido por Dean Stockwell, o encontra após sumiço de quatro anos, surpreende-se com sua aparência descuidada, mas principalmente com o bloqueio sofrido em sua comunicação. Aos poucos, começa a se acostumar com a presença do irmão, sussurrando a primeira palavra após longo período de convivência entre os dois. Travis conta a história do lugar onde foi concebido, um pequeno trecho de terra no Texas, que denomina como Paris. A metáfora criada pelo diretor é elemento chave para condução do olhar, pois esse terreno é o local onde todas as tormentas do passado querem encontrar com os acontecimentos futuros para apagar lembranças amargas. Instante em que todo o silêncio de Travis no início da película é compreendido, porque é como se aquele pequeno pedaço de terra da foto simbolizasse seu retorno a uma civilização, que outrora o impediu de seguir em frente.

Quando chega à casa do irmão reencontra o filho Hunter, interpretado por Hunter Carson. O vínculo criado entre as personagens é arrebatador, pelo contraste entre os tipos que dividem os diálogos. A princípio, Hunter cria uma resistência contra o pai biológico, mas após uma colagem de imagens filmadas em Super 8 ser exibida em uma reunião familiar, o garoto nota que Travis olhava de modo terno e cuidadoso para sua mãe Jane. Nesse instante, a criança percebe que pode obter atenção do pai apenas estando presente, para que possa notar o que perdeu o abandonando.

O reencontro de Jane com o marido e o filho traduz o momento de redenção das personagens criadas pelos roteiristas L. M. Kit Carson e Sam Shepard. Na cena em que Travis e Jane conversam em uma cabine e em nenhuma ocasião se tocam, acreditamos que mesmo sem essa aproximação dos corpos, nunca estiveram tão próximos como naquele instante. Ao reaproximar-se de Hunter, temos a mesma sensação, só que o contato da mãe com o filho é mais intenso, em cena que poderia soar over não fosse o timing e moderação da intensidade dos atores na forma como cada personagem aceitou a presença da outra no ambiente cênico.

A fotografia vibrante de Robby Müller, que capta fielmente o clima condensado do deserto onde Travis é encontrado e as cenas em ambientes fechados, - um bom exemplo é a locação da casa onde Jane presta serviços - em que é necessária uma iluminação marcada, para entregar as emoções da face dos atores, é responsável pela criação do clímax das sequências, causando certo incômodo pela concentração de luz nas reações de Travis e da ex-mulher. A intenção é essa, que tudo esteja explícito na tela.

Paris, Texas é uma obra plural, que registra de modo delicado as consequências do isolamento, a solidão, além de questionar o quanto subestimamos os laços de sangue. A personagem de Stanton é peça importante ao longo do filme, pois o arquétipo criado pelo diretor - o de um pária - dificilmente agradaria por quesitos estéticos ou por privilegiar o lado grotesco, por sua distinção do que é visto como padrão, mas Wenders transcende as expectativas postas sobre a premissa, através da grandeza das atuações dos profissionais envolvidos, tornando esta uma obra inesquecível.



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