Coco Chanel e Igor Stravinsky impressiona pelo visual, mas fica devendo no roteiro
Baseado no romance Coco e Igor, escrito pelo inglês Chris Greenhalgh, Coco Chanel e Igor Stravinsky, do diretor francês nascido na Holanda, Jan Kouen, estreou no Brasil no começo do mês de agosto e conta a história do romance entre a estilista francesa e o compositor russo, ambos grandes nomes da cena cultural francesa do século XX.
Assim como Coco Antes de Chanel de Anne Fontaine, lançado no começo deste ano, o longa relata apenas um período da vida da estilista e não uma biografia completa. O filme começa quando Chanel, ainda bastante Coco, vai assistir a estréia de A Sagração da Primavera, ópera de Stravinsky muito mal recebida pelo público francês.
Chanel se identifica com a transgressão do trabalho de Stravinsky, mas eles só se reencontram anos depois, quando o compositor é obrigado a se exilar na França - devido a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa. Como forma de Chanel superar o luto do grande amor da sua vida, e Stravinsky, o fracasso, os dois começam uma relação turbulenta, que é mais baseada na atração física e na luta de egos do que em sentimentos de afeição.
O papel da estilista é realizado pela francesa Anne Mouglalis, que há anos já trabalhava como modelo da maison Chanel. Sua voz grave e entonação comedida dão à personagem certa arrogância, algo coerente com a Chanel descrita na maioria de suas biografias. Ao contrário de Coco Antes de Chanel, que mostra como uma cantora de cabaré se tornou um dos maiores nomes da moda, vemos uma estilista confiante de seu trabalho e sucesso, que não se sente envergonhada por não se encaixar perfeitamente no círculo social da alta sociedade francesa da época. Já Mads Mikkelsen, que interpreta Stravinsky, optou pelo silêncio e frieza para também demonstrar arrogância, mas convence ao mostrar intensidade em algumas cenas em que o personagem tem crises de ciúmes em relação à Chanel.
No entanto, o filme perde por não aprofundar na construção dos personagens, apresentando apenas os artistas egocêntricos e atormentados, e não o homem e a mulher por trás desses grandes nomes. As cenas em que os dois se encontram às escondidas focam-se muito no aspecto físico da relação, e pouco no emocional. Isso causou ao longa uma grande perda de intensidade, chegando a ser enfadonho e previsível. A falta de pontos de virada na narrativa também contribuiu para esse fato.
No aspecto visual, a obra é impecável. A direção de arte é um dos pontos fortes do filme. É impressionante na construção de alguns dos ambientes onde se passa a trama, como a mansão de Chanel, em cenário repleto de ângulos ousados e cores inusitadas, que refletem muito o gosto defendido pela estilista também em suas roupas. A direção de arte só escorrega na maquiagem realizada para retratar o envelhecimento dos personagens principais, que como é a tendência de maquiagens desse tipo, ficou bastante falsa. No entanto, o figurino, que contou com contribuições da marca, impressiona por brincar com a simplicidade de cores neutras e pastéis e obtém um resultado discreto, porém elegante.
Outro ponto forte do filme é a trilha sonora, composta em sua maior parte por Stravinsky, que traz dramaticidade para algumas cenas que seriam um pouco monótonas. A cena inicial, que retrata A Sagração da Primavera, é uma das mais emocionantes do filme devido à imponente trilha, realizada pela Filarmônica de Berlim sob direção Simon Rattle. A sofisticação dos detalhes visuais da obra a tornaram um filme belíssimo, mas a falta de substância do roteiro a impediram de se tornar consistente.
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