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27/08/2010 - 10h56 - Atualizado em 22/05/2012 - 01h36

O grito de uma geração

Por Melissa Panteliou, aluna do 1º ano de Jornalismo

O livro “Uivo e outros poemas” repercute até hoje como acontecimento histórico

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Reprodução
Allen Ginsberg

A leitura dramática do poema principal, realizada um ano antes de sua publicação, na Six Gallery de San Francisco, virou um marco de início da contracultura americana e rendeu a Allen Ginsberg e seu editor um julgamento por referências pornográficas e a drogas ilícitas.

Apreendido pela polícia americana sob acusação de obscenidade, o livro é considerado uma das primeiras obras da Geração Beat – grupo de escritores e artistas que destoavam do american way of life, do período pós Segunda Guerra e que produziam uma arte contaminada de provocação.

Lançado em 1956, conta com seis poemas que versam temas como sexualidade, repressão, religião e amor. Há também inúmeras - e pesadas - críticas aos EUA, muito explícitas em América.

Uivo, o primeiro e mais longo poema, é uma enxurrada de aventuras vividas por Allen e os colegas beats. As viagens, amor livre e experiências alucinógenas do poeta são recriados por cenas fortes, construídas em ritmo tão rápido que soa raivoso.

As estrofes de abertura são conhecidas até hoje pela ousadia que inaugura a literatura dos marginalizados, poetas malditos: “Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa”.

Ginsberg encontra o poeta Walt Whitman entre as prateleiras abarrotadas de produtos em Um Supermercado na Califórnia, fazendo referência ao seu ídolo. Canção, poema que encerra a obra, é quase delicado, como um suspiro após um grito de sufoco.

Em pleno controle ideológico decorrente da Guerra Fria, o tom anticapitalista e a espontaneidade do texto de Allen foram mal aceitos pelos críticos conservadores. Porém, a rejeição dos acadêmicos apenas reforçou sua popularidade e caráter de porta-voz, ao lado de Jack Kerouac, da juventude insatisfeita.

Seja por seu delírio e misticismo ou pela linguagem crua e despretensiosa, a poesia de Ginsberg, como anuncia em Sutra do Girassol, é como um sermão nascido para salvar a alma do próprio autor - e das pessoas comuns que elegeram e ainda elegem Uivo e outros poemas como uma “bíblia” da desilusão com o mundo.



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